Propostas para uma leitura correta do Concílio Vaticano II

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Propostas para uma leitura correta do Concílio Vaticano II

O primado do culto a Deus como fundamento de toda a verdadeira teologia pastoral

Athanasius Schneider

 (Roma - 17 de dizembro de 2010)

 

 

I. O fundamento teológico da pastoral 


 

Para falar corretamente da teoria e da prática pastoral é necessário antes ser consciente de seu fundamento e de seu objetivo teológico. O objetivo da Igreja é o mesmo que o da Encarnação: "propter Nostram salutem. [para a nossa salvação]" Assim se expressa a fé e a oração da Igreja: “Qui propter nos homines, et propter nostram salutem descendit de caelis et incarnatus est et homo factus est”[E por nós, homens, e para nossa salvação desceu dos Céus]. Esta salvação significa a salvação de almas para a vida eterna. Nisto consiste, inclusive, a finalidade de todo oordenamento jurídico e pastoral da Igreja como nos disse o último cânon do Código de Direito Canônico: “praeoculis habita salute animarum, quae in Ecclesia suprema semper lex esse debet”[tendo-se sempre diante dos olhos a salvação das almas, que deve ser sempre a lei suprema na Igreja][1].

A salvação da alma humana consiste na santidade, na renovação e, mais ainda, na perfeição da dignidade humana original em Cristo. Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança (Gênesis 1,26) e esta obra é admirável, como diz a Igreja, na liturgia: “Deus, qui humanae substantiae dignitatem mirabilite rcondidisti”[Ó Deus, que criaste miraculosamente a dignidade da substância humana].  Ainda mais admirável é a renovação e o aperfeiçoamento desta imagem por obra da redenção: “mirabilius reformasti” [redenção ainda mais maravilhosa]. A renovação, a nova perfeição, a santidade consiste na graça inimaginável da participação do homem na natureza divina: “Divinitatis esse consortes” [participar da divindade][2]. Esta participação na natureza divina significa ser filhos adoptivos de Deus no Filho Unigênito, Jesus Cristo.

Jesus Cristo, o único Filho de Deus segundo a natureza, tornou-se por sua verdadeira Encarnação o primogênito entre muitos irmãos “primogenitus in multis fratribus” (Romanos 8, 29). Por meio de seu sacrifício redentor Cristo oferece ao homem a graça da vida divina. A mesma vida divina no mistério da Santíssima Trindade está presente na humanidade do Filho de Deus "Nele habita corporalmente toda a divindade [in Ipso inhabitat omnis plenitudo divinitatis corporaliter (Colosenses 2, 9)].Cristo encarnado é cheio de graça e de verdade (João 1, 14). O Espírito Santo distribui dessa fonte de vida divina através da Igreja que é o Corpo Místico de Cristo, na liturgia dos sacramentos, a graça da filiação divina e todas as outras graças de santidade necessária. Assim é possível entender melhor o que foi ensinado pelo Concílio Vaticano II: Liturgia est culmen ad quod actio Ecclesiae tendit et simul fons unde omnis eius virtus emanat  ["A liturgia é o cume ao qual tende a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde emana toda a sua força "].[3] "O trabalho apostólico, portanto, ordena a que todos feitos  filhos de Deus pela fé e pelo batismo, junte-se em assembleia, adorem a Deus na Igreja, tomem parte no sacrifício e na mesa do Senhor "[4].

 

II. Um vademecum pastoral do Concílio Vaticano II 


 

No contexto do discurso sobre o primado do culto e adoração que deve ser prestado a Deus, o Concílio nos apresenta na mesma Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium uma síntese sólida de uma saudável e teologicamente válida teologia pastoral, uma espécie de vademecum pastoral com as sete seguintes características: "A Igreja proclama a mensagem de salvação para aqueles que ainda não creem, para que todos os homens possam conhecer o único verdadeiro Deus e seu mensageiro, Jesus Cristo, e mudar seu comportamento, fazendo penitência (João 17, 3; Lucas 24, 17; Atos 2, 38). E tem o dever de sempre pregar a fé e a penitência aos incrédulos dispondo-os, também, a receber os sacramentos, ensinando-os a observar tudo o que Cristo ordenou(Mateus 28, 20) e incentivando-os a executar todas as obras de caridade, de piedade e de apostolado para se manifestar, através destas obras, que os seguidores de Cristo, ainda que não sejam deste mundo, são, no entanto, a luz do mundo e rendem glória ao Pai diante dos homens"[5]. A partir deste breve resumo oferecido pelo Concílio, podemos estabelecer as seguintes sete notas essenciais da teoria e da prática pastoral.

1. O dever de anunciar o Evangelho a todos os incrédulos (cf .. Sacrosanctum Concilium, n. 9).

Tal anúncio deve ser explícito, esta é a fé em Jesus Cristo, que é alcançado através da graça da conversão e da penitência. Portanto, não há espaço para uma teoria ou a prática do assim chamado "cristianismo anônimo"; não há admissão alguma de caminhos alternativos para a salvação através de Cristo.: Cristo é o único mediador entre Deus e os homens. Isto é o que ensina o Concílio na Constituição dogmática Lumen Gentium, dizendo: "Esta Igreja peregrina é necessária para salvação. Somente Cristo, portanto, presente entre nós em seu corpo que é a Igreja, é o mediador e o caminho da salvação"[6]. No ponto número 8 desta mesma Constituição dogmática, o Concílio diz: “Unicus Mediator Christus”[Cristo, mediador único][7]. Os homens salvos na eternidade o são pela aceitação na sua vida terrena dos méritos de Jesus Cristo, o único Mediador[8]. O Concílio Vaticano II ensina recordando a seguinte citação do Concílio de Trento: "Per Filiu meius Jesum Christum, Dominum nostrum, qui solus noster Redemptor et Salvator est”[9]Na declaração sobre a liberdade religiosa, o Concílio ensina que todo homem é resgatadopor Cristo Salvador e é chamado a filiação divina, que só pode receber através da graça da fé[10]. O Papa Paulo VI em seu discurso de abertura da segunda sessão do Concílio em 1963  ensinava assim: "Jesus Cristo é o único e supremo Mestre e Pastor, e é o único Mediador entre Deus e os homens"[11]. O mesmo Papa repetia no Concílio no ano seguinte: "Jesus Cristo é o único Mediador e Redentor"[12]. O ensinamento do Concílio continua: "E porque quem não crê já está condenado, fica claro que as palavras de Cristo são ao mesmo tempo palavras de condenação e de graça, de vida e de morte"[13]. A atividade missionária é um dever sagrado da Igreja, porque é o mesmo Deus que afirma a necessidade da fé em Cristo e do batismo para a salvação eterna[14].

2. O dever de pregar a fé aos fiéis (cfr. SacrosanctumConcilium, n. 9).

A principal tarefa da Igreja consiste na preocupação do crescimento da fé dos fiéis e que seja protegidado perigo e do erro: isto significa, portanto, assumir o cuidado da pureza, da integridade e vitalidade da fé. Já no discurso de abertura do Concílio Vaticano II o Beato Papa João XXIII declarava inequivocamente, de uma forma ainda mais eficaz, como o dever principal do Concílio era a proteção ea promoção da doutrina da fé: “ut sacrum christianae doctrinae depositum efficaciore ratione custodiatur atque proponatur” [que o depósito sagrado da doutrina cristã seja guardado e ensinado de forma mais eficaz][15]. O bem aventurado Pontífice continua a manter que, no exercício, em nosso tempo, deste dever seu, a Igreja nunca deve tirar os olhos do patrimônio sagrado da verdade recebido da Tradição. O Concílio deve transmitir a doutrina católica íntegra, sem diminui-la, sem distorcê-la:“integram, non imminutam, non detortam tradere vult doctrinam catholicam”[transmitir pura e íntegra a doutrina, sem atenuações nem subterfúgios]. O Papa João observa muito realista o quanto isso não agrada a todos. É necessário, portanto, diz o Papa, que toda a doutrina católica seja acolhida em nossos dias por todos e isto sem omitir nenhuma de suas partes: “oportet ut universa doctrina christiana, nulla parte inde detracta, hic temporibus nostris ab omnibus accipiatur” [é necessário que esta doutrina certa e imutável, que deve ser fielmente respeitada, seja aprofundada e exposta de forma a responder às exigências do nosso tempo.][16].

Ao aceitar e promover toda a doutrina da fé há de seguir cuidadosamente, de modo que se refere à forma e conceitos; e isto seguindo o exemplo do Concílio de Trento e do Concílio Vaticano I, de acordo com o que o Papa João XXIII sublinhou. Na Declaração sobre a Liberdade Religiosa o Concílio adverte aos fiéis que "se ocupem em difundir a luz da vida com toda confiança e fortaleza apostólica, até a efusão de sangue ".[17] Eles têm, ainda, "o grave dever de conhecer plenamente a verdade revelada, de anuncia-la fielmente e de defendê-la com firmeza"[18]. Na Constituição pastoral Gaudium et Spes , o Concílio exorta: "o amor e a bondade não devem, de modo algum, nos tornar indiferentes à verdade e ao bem. Antes é o mesmo amor que encoraja aos discípulos de Cristo a anunciar a todos os homens a verdade que salva"[19]. O Papa Paulo VI, no discurso de abertura da segunda sessão do Concílio Vaticano II afirmou: "a base para a renovação da Igreja deve ser um estudo empenhado e uma promoção mais rica da verdade divina"[20].

No Decreto sobre o apostolado dos leigos, o Concílio se expressou nestes termos: "No nosso tempo se difundem gravíssimos erros que buscam derrubar desde os fundamentos a religião, a ordem moral e a própria sociedade humana"[21]. Na Constituição pastoral Gaudium et Spes , o Concílio constatava de modo se divulgavam, na época, graves erros morais e exortava a todos os cristãos a defender e promover a dignidade natural e o altíssimo valor sagrado do estado matrimonial[22]. No mesmo documento, o Concílio condena os costumes imorais a respeito do casamento e da virtude da castidade, dizendo que a dignidade do matrimônio e da família "é obscurecida pela poligamia, pela epidemia do divórcio, pelo chamado amor livre e outras deformações. Além disso, o amor conjugal é muitas vezes profanado pelo egoísmo, hedonismo e as práticas ilícitas contra a fertilidade. Além disso, as atuais condições econômicas, sócio-psicológicas e civis produzem perturbações nada leves na vida familiar "[23]. Sobre a castidade matrimonial o Concílio ensina inequivocamente: " Os filhos da Igreja para regular a procriação não podem seguir métodos que foram condenadas pelo Magistério na explicação da lei divina (cf. Pio XI, Casti Connubii). Além disso, todos nós sabemos que a vida do homem e a missão de transmiti-la não se limitam aos horizontes deste mundo e não encontram nem sua plena dimensão, nem seu pleno sentido, mas que afetam o destino eterno dos homens "[24].

No Decreto sobre a atividade missionária, o Concílio exorta a que se exclua toda forma de indiferentismo, sincretismo, confucionismo[25].Na Constituição Gaudium et Spes o Concílio rejeita um humanismo puramente terrestre e antirreligioso[26]. O mesmo documento conciliar fala de humanismo ateu que não só ameaça a fé, mas ainda exerce influência negativa e globalizante sobre todas as esferas da vida social: "Multidões crescente se afastam da religião.Ao contrário do passado, negar Deus ou a religião ou ignorá-los, já não é um fato incomum e individual. Hoje, de fato, esse tipo de comportamento é apresentado como uma exigência do progresso científico ou de um novo tipo de humanismo. Em muitos países, essa negação não se expressa somente a nível filosófico, mas invade com notabilíssima medida o campo da literatura, das artes, da interpretação das ciências sociais e da história, no entanto, as mesmas leis: daí a desorientação muitos”[27].

O Papa Paulo VI na homilia por ocasião da última reunião pública do Concílio Vaticano II afirma que o Concílio propõe aos homens do nosso tempo uma doutrina teológica e teocêntrica sobre a natureza humana e o mundo[28]. Na homilia pronunciada na sétima sessão pública do Concílio Vaticano II, em 28 de outubro de 1965, Paulo VI explica que, apesar do carácter geral pastoral do Concílio, este pretende propor a doutrina perene e autêntica da Igreja excluindo o relativismo doutrinal; o Concílio cumpre uma obra "que não relativiza segundo as metamorfoses da cultura profana a natureza da Igreja sempre igual e fiel a si mesma, como Cristo a quer e a tradição autêntica a aperfeiçoou, torna-se mais adequada para executar em condições renovadas da sociedade humana a sua missão caritativa "[29].

No discurso pronunciado no mesmo ano em 1965, durante a oitava sessão pública do Concílio, Paulo VI criticou o comportamento daqueles que interpretam de forma incorreta e abusiva a intenção do Beato Papa João XXIII sobre a adaptação pastoral da Igreja às novas necessidades de nosso tempo (o "aggiornamento"). O papa estabelece o espírito do Concílio sobre este ponto e coloca todos em guarda contra o relativismo doutrinal e legal, afirmando que João XXIII "certamente não queria atribuir a esta pragmática palavra o significado que alguns tentam dar a ela, como se ela consentisse em "relativizar" seguindo o espírito do mundo, tudo quanto há na Igreja -dogmas, leis, estruturas, traditions-; ao contrário, foi sentido tão vivo e forte o sentido da estabilidade doutrinal e estrutural da Igreja, a ponto de torná-lo a base de seu pensamento e de sua obra. Aggiormamento vai dizer daqui para frente para nós penetração sábia do celebrado Concílio e fiel aplicação de suas normas, feliz e santamente emitidos "[30]. No texto original em latim Paul VI não usa a palavra "aggiornamento", mas a palavra "acomodatio." A famosa expressão  "aggiornamento" do Beato João XXIII tornou-se lendária. Em sua intenção original esta expressão não tem nada a ver com um relativismo doutrinal, litúrgico ou jurídico.

A nova e benévola posição pastoral de compreensão paciente e de diálogo com a sociedade fora da Igreja, não se trata de um relativismo doutrinal. Paulo VI defende o Concílio de uma tal possível acusação na citada homilia durante a sétima reunião pública: "Esta posição... tem sido forte e constantemente operante no Concílio, até o ponto de induzir algumas pessoas a suspeitar que um tolerante e excessivo relativismo para com o mundo exterior, a história passageira, a moda cultural, as necessidades contingentes, os pensamentos dos outros, tenha influenciado pessoas e ações do Sínodo ecumênico, em detrimento da fidelidade devida à tradição e com danos da orientação religiosa do próprio Concílio. Nós, não acreditamos, que esta desgraça se deva imputar ao Concílio em suas verdadeiras e profundas intenções e em suas autênticas manifestações "[31]. Paulo VI defende aqui, somente, as verdadeiras e profundas intenções e as manifestações autênticas do Concílio, sem considerar o mérito das pessoas. O Concílio rejeita expressamente todo tipo de sincretismo religioso na atividade missionária e exige que as tradições particulares dos povos sejam iluminados pela luz do Evangelho, deixando intacto o primado da Cátedra de Pedro[32].

3. O dever de pregar a penitência dos fiéis (cf. Sacrosanctum Concilium .., n. 9).

Não se pode falar de uma verdadeira doutrina e práxis pastoral sem o elemento essencial da penitência na vida da Igreja e dos fiéis. Toda verdadeira renovação da Igreja na história, foi feita com o espírito ea prática da penitência cristã. Na Constituição dogmática Lumen Gentium , n. 8 se afirma que a Igreja deve avançar constantemente no caminho da penitência e da renovação. Diz-se, depois, que os fiéis devem vencer em si mesmos o reino do pecado com a abnegação de si e uma vida santa[33]Na atividade missionária os filhos da Igreja não deve ter vergonha do escândalo da cruz[34].

Você pode entender melhor o verdadeiro espírito destes ensinamentos conciliares sobre a necessidade da penitência, quando se considera o fato de que, tendo em vista a iminente abertura do Concílio, o Beato Papa João XXIII, em 1º de Julho de 1962, festa do Preciosíssimo Sangue, dedicou uma encíclica sobre a necessidade de penitência titulada Paenitentiam Agere. Se tratava de um convite urgente para o mundo católico e uma exortação para uma oração mais intensa e uma penitência expiatória de graças sobre o iminente concílio. O Papa recordava o pensamento e a prática da Igreja, como também o exemplo dos concílios anteriores, salientando a necessidade de penitência interna e externa como cooperação na redenção divina. Especificamente João XXIII recomendava uma prática penitencial propiciatória em cada diocese em particular, explicando como "com as obras de misericórdia e de penitência todos os fiéis buscam ser propícios a Deus Todo-Poderoso e implorar Dele aquela verdadeira renovação do espírito cristão, que é um dos principais objetivos do concílio”[35]. "Na verdade, justamente observava nosso predecessor Pio XI, de feliz memória: "A oração e a penitência são as duas forças espirituais poderosas neste momento que Deus nos deu, para que lhe reconduzamos a humanidade extraviada que vaga errante em todos os lugares; forças espirituais, que devem dissipar e reparar a primeira e principal causa de toda rebelião e revolução: ou seja, a rebelião contra Deus" (Carta Encíclica Caritate Christi compulsi, n 14)[36]. João XXII dirigia aos bispos esta ardente exortação: "Veneráveis irmãos, utilizem sem demora todos os meios que estejam ao vosso alcance a fim de que os cristãos confiados ao vosso cuidado purifiquem seu espírito com penitência e se inflamem de um maior fervor da piedade"[37].

O espírito de penitência e de expiação devem sempre incentivar toda autêntica renovação da Igreja, como a que o Papa João XXIII esperava que ocorresse por causa do Concílio Vaticano II. Esta posição protege a Igreja do espírito de ativismo terreno. Assim ensinava o Papa no final da sua encíclica:"todo o povo cristão, em deferência ao nosso apelo, dedicando-se mais intensamente à oração e à prática da mortificação, oferecerá um admirável e comovente espetáculo desse espírito de fé que deve animar indistintamente todo filho da Igreja. Este espírito não deixará de se mover saudavelmente até o ânimo dos que, excessivamente preocupados e distraídos com as coisas terrenas, se tem deixados levar pela negligência de seus deveres religiosos”[38]. Nas palavras que se seguem, você pode observar o verdadeiro espírito que animava o Papa do Concílio e certamente à pars maior et sanior dos Padres Conciliares: "É necessário que os cristãos reajam com a força dos mártires e dos santos que têm iluminado sempre à Igreja Católica. Desta forma, todos poderão contribuir, de acordo com o seu estado particular, ao melhor resultado do Concílio Ecumênico Vaticano II, que deve precisamente levar a um reflorescimento da vida cristã”[39].

4. O dever de dispor os fiéis para ter os sacramentos (cf .. Sacrosanctum concilium, n. 9).

O Concílio, na Constituição dogmática Lumen Gentium ensina que os sacramentos são os principais meios pelos quais todos os fiéis de qualquer estado ou condição são chamados pelo Senhor à perfeição da santidade[40]. O objetivo principal dos sacramentos consiste, segundo a Sacrosanctum Concilium n. 59, na santificação dos homens, na edificação do Corpo Místico de Cristo e no culto prestado a Deus. Raramente, no decurso da história da Igreja o Magistério supremo tem enfatizado tanto sobre a importância e a centralidade da sagrada liturgia, e particularmente do Sacrifício Eucarístico, como o tem feito o Concílio Vaticano II. O fato de que o primeiro documento do Concílio a ser discutido e aprovado fosse dedicado à liturgia, isto é, ao culto divino, é significativo e manifesta esta mensagem clara do primado de Deus: Deus e culto de adoração que a Igreja lhe rende, devem ocupar o primeiro lugar em toda a vida e ação da Igreja. A Sacrosanctum Concilium nos ensina: “Sacra Liturgia est precipue cultus divinae maiestatis”[a sagrada Liturgia seja principalmente culto da majestade divina][41]; e, portanto, o culto da majestade divina deve ser o ponto culminante de toda a atividade da Igreja: “Liturgia est culmen ad quod actio Ecclesiae tendit et simulfonsunde omnis eius virtus emanat”[a Liturgia é simultâneamente a meta para a qual se encaminha a ação da Igreja e a fonte de onde promana toda a sua força][42].

 A sagrada liturgia é primeiramente e necessariamente a verdadeira fonte do espírito cristão, diz o decreto sobre a formação sacerdotal[43]. O objetivo de todos os sacramentos é, por sua vez, no mistério eucarístico, diz o Decreto sobre o ministério e a vida dos sacerdotes, citando São Tomás de Aquino: “Eucharistia est omnium sacramentorum finis”[Eucaristia é o fim de todos os sacramentos][44]; e acrescenta: “In Sanctissima enim Eucharistia totum bonum spirituale Ecclesiae continetur” [45][“Na Santíssima Eucaristia se contém, pois, todo o bem espiritual da Igreja]. Ainda assim, diz o mesmo documento que a Eucaristia é fonte e ápice de toda a evangelização, em seguida, a fortiori, a Eucaristia é fonte e ápice de toda a vida pastoral da Igreja. Na Sacrosanctum Concilium encontrar este resumo: "Especialmente na graça Eucaristia mana para conosco como sua fonte e você terá o máximo de eficiência que a santificação dos homens em Cristo e que a glorificação de Deus, à qual todas as outras atividades de tendem a Igreja como um fim"[46].

5. O dever de ensinar os fiéis todos os mandamentos de Deus (cf. Sacrosanctum Concilium, n. 9).

Outro elemento da atividade pastoral da Igreja é esta: "a Igreja deve ensinar aos fiéis tudo o que Cristo ordenou"[47]. Os Pastores da Igreja têm, pois o dever de ensinar a lei e os mandamentos de Deus em sua integridade. Na Declaração sobre a liberdade religiosa, o Concílio afirma: "A lei divina, que é eterna, objetiva e universal, é a lei suprema da vida humana e deve ordenar, dirigir e governar todos os caminhos da comunidade humana"[48]. A Constituição Pastoral Gaudium et Spes afirma:"O homem tem, na verdade, uma lei escrita por Deus no coração, em cuja obediência consiste, a própria dignidade do homem e será julgado de acordo com ela"[49]. O mesmo documento pastoral afirma: "os esposos cristãos estão cientes de que eles não podem continuar à vontade, mas devem sempre ser regidos por uma consciência, de acordo com a lei divina, dóceis ao Magistério da Igreja, que interpreta de modo autêntico essa lei à luz do Evangelho "[50].

O Concílio prossegue afirmando: "A dissociação observada em muitos, entre a fé que professam e suas vidas diárias, está entre os mais graves erros do nosso tempo"[51]. Tal erro tornou-se ainda mais evidente nos últimos anos em que se observa o fenômeno de pessoas que ainda que se digam católicas, apoiam ao mesmo tempo leis contrárias à lei natural e à lei divina e contradizem abertamente o Magistério da Igreja. Como ressoam atuais estas palavras do Concílio: "Não se crê, portanto uma oposição artificial entre as atividades profissionais e sociais por um lado e da vida religiosa do outro"[52]. A vida moral, doméstica, profissional, científica, social deve ser guiada pela fé e ordenada de tal modo à glória de Deus. Encontramos novamente nesses ensinamentos do Concílio a importância do primado da vontade de Deus e de Sua glória na vida de todo fiel e de toda a Igreja. O Concílio afirma isto não apenas em um documento sobre a liturgia, mas no documento pastoral por excelência; a Constituição Pastoral Gaudium et Spes.

6. O dever de promover o apostolado dos leigos (cf .. Sacrosanctum concilium, n. 9).

Outro ponto essencial da vida pastoral é a seguinte: "A Igreja deve encorajar aos fiéis a todas as obras de caridade, piedade e de apostolado"[53]Neste ponto reside a maior contribuição histórica do Concílio Vaticano II para a valorização da dignidade e do papel específico dos fiéis leigos na vida e na ação da Igreja. Se pode dizer que essa contribuição é um desenvolvimento orgânico e uma coroação do magistério do Papa Pio XI sobre a questão dos fiéis leigos.A Constituição Dogmática Lumen Gentium nos apresenta uma formidável síntese sobre a questão dos leigos na Igreja e no mundo com um sólido fundamento teológico e uma clara indicação pastoral, dizendo: "Além de curar os leigos das instituições e condições do mundo quando promovem o pecado, para que todos se tornam sujeitos às regras da justiça e, em vez de dificultar, favoreçam a prática das virtudes. Agindo assim, impregnaram de valores morais a cultura e as obras humanas. Com esta forma de trabalhar o campo de mundo estará melhor preparado para receber a semente da Palavra de Deus e ao mesmo tempo as portas da igreja se abrem mais amplamente para permitir que o anúncio da paz entre no mundo. Pela mesma economia da aprendam os fiéis leigos a distinguir bem entre os direitos e deveres que lhes incumbem enquanto membros da Igreja e aqueles que têm como membros de fiéis sociedade humana. Procure colocá-los em harmonia uns com os outros, lembrando que em todas as coisas temporais devem ser guiados pela consciência cristã  posto que nenhuma atividade humana, nem mesmo nos assuntos temporais, pode ser subtraída ao mandamento de Deus. No nosso tempo, é extremamente necessário que esta distinção e esta harmonia resplandeçam tão claramente quanto possível no modo de agir dos fiéis , afim de que a missão da Igreja possa responder mais plenamente às condições específicas do mundo moderno. De fato, assim como será reconhecido que a cidade terrena, legitimamente dedicada aos cuidados seculares, é regida por princípios próprios, assim também com razão será rejeitada a infame doutrina que visa a construção de uma sociedade sem consideração alguma pela religião e desafia e remove a liberdade religiosa dos cidadãos "[54].

 O Concílio condena aqui o secularismo, sem usar a palavra, citando Leão XIII[55] dizendo: "Estado laico legítimo saudável é um dos princípios da doutrina católica"[56]. O Papa continuou: "A vida dos indivíduos, a vida das famílias, a vida das comunidades grandes ou pequenas, devem ser alimentadas pela doutrina de Jesus Cristo, que é o amor de Deus, e em Deus, amor ao próximo"[57]Esta doutrina encontra nos elementos essenciais um eco claro seja na Constituição dogmática sobre a Igreja, seja na Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II.

 Sobre a vocação dos leigos, o Concílio diz: "É próprio dos leigos buscarem o Reino de Deus tratando das realidades temporais e ordenando-as segundo Deus"[58]No Decreto sobre o Apostolado dos leigos, o Concílio fala da idolatria das coisas temporais por causa de um excesso de confiança no progresso das ciências naturais e da tecnologia[59]. O Concílio prossegue afirmando que a vida matrimonial e familiar é o exercício e a escola, por excelência do apostolado dos leigos[60]. Na verdade, a vida matrimonial e familiar é o lugar onde a religião cristã permeia toda a organização da vida e a transforma cada vez mais. A família cristã proclama em alta voz simultaneamente as virtudes presentes do Reino de Deus e a esperança de uma vida bem aventurada. Assim, com o seu exemplo e testemunho, argumenta ao mundo de pecado e ilumina aqueles que buscam a verdade[61]. Podemos constatar hoje como é esta expressão atual do Concílio: a família cristã e católica é uma acusação viva do mundo, ao argumentar ao mundo do pecado.

A forma peculiar do apostolado dos leigos consiste no testemunho de uma vida de fé, esperança e caridade: são excluídos, portanto, qualquer apostolado de ativismo e de interesses terrenos. Podemos identificar no Decreto sobre os leigos um breve formulário do apostolado leigo, onde ensina o Concílio que a conformação interior do apóstolo leigo deve ser uma conformação com Cristo sofredor e que a finalidade de seu apostolado é a salvação eterna dos homens no mundo. Diz o Concílio: "Lembrem-se todos que com o culto público e a oração, com a penitência e a aceitação espontânea das dificuldades e tristezas da vida, mediante os quais se conformem com o Cristo sofredor (cf .. II Coríntios, 4, 10, Colossenses 1, 24), eles podem chegar a todos os homens e contribuir para a salvação do mundo inteiro "[62]Muitas vezes, o apóstolo leigo por causa de sua fidelidade a Cristo, coloca em risco até mesmo sua vida, diz o Concílio[63].

7. O dever de promover a vocação de todos à santidade (cf .. Sacrosanctum concilium, n. 9).

A última característica essencial da atividade pastoral da Igreja consiste em promover a vocação de todos à santidade, dizendo que os seguidores de Cristo, embora sem ser deste mundo, devem ser, no entanto a luz do mundo[64]. Mais especificamente, o Concílio lida com esse assunto no quinto capítulo da Constituição Dogmática Lumen Gentium , números 39 a 42: . "De universali vocatione ad sanctitatem in Ecclesia". Nisto se pode ver a contribuição verdadeiramente histórica, mais específica e própria do Concílio Vaticano II. A santidade consiste a fundo na imitação de Cristo, de Cristo pobre e humilde, de Cristo carregando a cruz, diz a Constituição Lumen Gentium , no número 41. A imitação de Cristo atinge o seu ponto culminante no martírio, no testemunho corajoso de Cristo diante dos homens(No. 42). O Concílio diz: "Sejam todos prontos a confessar Cristo diante dos homens e de segui-lo pelo caminho da cruz durante as perseguições, sempre presentes na Igreja"[65].

  

III. A verdadeira intenção e propósito do Concílio Vaticano II 


 

Para uma leitura correta dos textos do Concílio Vaticano II é necessário ter em conta o carácter específico do tempo em que ele foi desenvolvido. Na homilia do Papa Paulo VI, durante a última congregação geral do Concílio Vaticano II, em 7 de dezembro de 1965, o Papa dá a seguinte descrição do período histórico em que o Concílio foi realizado: "O tempo em que ele foi cumprido, em tempo que cada um reconhece como empenhado na conquista do reino da terra antes que do reino dos céus, um tempo em que o esquecimento de Deus tornou-se habitual sugeriu, aparentemente sem motivo, pelo progresso científico, um tempo em que o ato fundamental da personalidade humana, está mais consciente de si e da liberdade, tende a agir pela própria autonomia absoluta libertando-se de toda lei transcendente, um tempo em que o secularismo parece a consequência legítima do pensamento moderno e sabedoria final da ordenação temporal da sociedade, também, um tempo em que as expressões do espírito atingem alturas de irracionalidade e desolação, um tempo, enfim, que registra ainda até mesmo nas grandes religiões do mundo étnico distúrbios e decadências nunca antes experimentados. Neste momento o nosso Concílio foi realizado em honra de Deus”[66].

Segundo uma expressão do Beato Papa João XXIII no seu discurso feito por ocasião da última congregação geral da primeira sessão do Concílio, em 07 de dezembro de 1962, a única finalidade do Concílio e a única esperança e confiança do Papa e dos Padres Conciliares consiste nisto: "Fazer conhecer cada vez mais aos homens do nosso tempo o Evangelho de Cristo, fazê-lo praticar de boa vontade e fazê-lo penetrar incisivamente em cada um dos aspectos da civilização"[67]. No discurso de encerramento da primeira sessão do Concílio Vaticano II, a 08 de dezembro de 1962, o Papa João XXIII assim apresentou o verdadeiro propósito do Concílio e seus desejados frutos espirituais: "Para que a Santa Igreja, firme na fé, ancorada na esperança e mais ardente na caridade, floresça em um novo e jovem vigor, e, munida de leis sacrossantas, seja mais eficiente e mais resolvida em ampliar o reino de Cristo"(carta manuscrita aos bispos da Alemanha em 11 de janeiro 1962) [...]“Então, o reino de Cristo na terra, se estenderá por meio de um novo crescimento. Então no mundo vai ressoar mais alto e mais suave o anúncio jubiloso da redenção humana,anúncio que confirmará os direitos supremos de Deus Todo-Poderoso, os laços de amor fraterno entre os homens, a paz que foi prometida nesta terra aos homens de boa vontade".[68] Segundo a intenção e o desejo do Santo Papa João XXIII o Concílio Vaticano II deve contribuir fortemente com a seguinte ordem: "Que em toda família humana cresça,abundantíssimos, os frutos da fé, da esperança e caridade." Nisto consiste, de acordo com as palavras de João XXIII, a singular importância e dignidade do Concílio[69].

 

IV. O desafio de interpretações discordantes. 


 

Para uma interpretação correta é necessário considerar a intenção manifestada nos mesmos documentos conciliares e nas palavras específicas dos Papas  conciliares João XXIII e Paulo VI. Geralmente, é necessário encontrar o fio condutor de toda a obra do Concílio que é a salus animarum, que é a intenção pastoral. Esta, por sua vez, depende e está subordinada à promoção do culto divino e da glória de Deus, ou seja, depende da primazia de Deus. Esta primazia de Deus na vida e em toda a atividade da Igreja manifesta-se inequivocamente no fato de que a Constituição sobre a Liturgia ocupa cronológica e intencionalmente o primeiro lugar na vasta obra do Concílio. As sete notas essenciais de uma teoria e prática pastoral se encontram, precisamente, na Constituição que trata do culto a Deus e da santificação dos homens, no número 9 da Sacrosanctum Concilium, e são: 1. A urgência da pregação de Cristo aos incrédulos para que eles se convertam. 2. A aplicação máxima para a pregação da doutrina da fé. 3. O papel essencial da penitência na vida da Igreja. 4. Os Sacramentos como meios principais de salvação, onde a Eucaristia ocupa a posição central e culminante. 5. A integridade da doutrina moral. 6. O apostolado dos leigos na Igreja e na sociedade humana. 7. A vocação universal à santidade.

A ruptura na interpretação dos textos conciliares se manifesta, caracteristicamente, de forma mais estereotipada e generalizada, na tese de uma mudança antropológica, secularizante ou naturalista do Concílio Vaticano II sobre a tradição eclesial anterior. Uma das manifestações mais conhecidas como má interpretação tem sido, por exemplo, a chamada Teologia da Libertação e sua consequente devastadora práxis pastoral. 

Qual é o contraste existente entre essa Teologia da Libertação e sua prática e o Concílio, aparece com evidência no seguinte ensinamento conciliar: "A própria missão que Cristo confiou à sua Igreja não é de ordem política, econômica ou social: de fato, o fim que ele atribuiu é de ordem religiosa"[70]. Depois o mesmo documento diz que a natureza e missão da Igreja não estão vinculadas a nenhum sistema político, econômico ou social[71]. A Constituição Gaudium et Spes cita as seguintes palavras de Pio XII: "Seu Divino Fundador, Jesus Cristo, não deu à Igreja nenhum mandato nem fixou nenhuma finalidade  de ordem cultural.  A tarefa que Cristo atribui é estritamente religiosa. A Igreja deve conduzir os homens a Deus para que se deem a Ele sem reservas. A Igreja não pode jamais perder de vista este objetivo estritamente religioso, sobrenatural. O significado de cada ação de vocês, até o último cânon do seu Código, só pode se referir a ela direta ou indiretamente”[72].

 Uma interpretação de ruptura, ainda que de menor peso doutrinário, manifesta-se no campo pastoral-litúrgico. Para este fim pode-se mencionar a perda do caráter sagrado e sublime da liturgia e da introdução de elementos gestuais mais antropocêntricos. Este fenômeno é evidente em três práticas litúrgicas assaz conhecidas e difundidas em quase todas as paróquias do mundo católico: o desaparecimento quase total do uso da língua latina, a recepção do Corpo eucarístico de Cristo diretamente na mão e em pé e a celebração do sacrifício eucarístico na modalidade de um círculo fechado em que o padre e as pessoas se olham reciprocamente no rosto. Este modo de rezar, ou seja, não estarem todos orientados na mesma direção, o que é uma expressão corporal e simbólica mais natural sobre a verdade de estarem todos espiritualmente voltados para Deus em culto público- contraria a prática que o próprio Jesus e seus apóstolos observaram na oração pública, seja no templo ou na sinagoga. Também contradiz o testemunho unânime dos Padres da Igreja e de toda a tradição posterior da Igreja do Oriente e do Ocidente. Estas três práticas pastorais e litúrgicas, de clamorosa ruptura com a lei da oração, mantida por gerações de fiéis católicos durante pelo menos um milênio, não encontram nenhum apoio nos textos conciliares, ao contrário, mais bem contradizem o bem um texto específico do Concílio (sobre a língua latina, ver Sacrosanctum Concilium, números. 36§ 1;54), ou os homens, a verdadeira intenção dos Padres conciliares, como pode ser verificado nas atas do Concílio.

Na confusão hermenêutica de interpretações contraditórias e na confusão das aplicações pastorais e litúrgicas, o único intérprete autêntico dos textos conciliares não é outro senão o próprio Concílio, juntamente com o Papa. Pode-se fazer uma analogia com o confuso clima hermenêutico dos primeiros séculos da Igreja, causados pelas arbitrárias interpretações bíblicas e doutrinárias arbitrárias por parte de grupos heterodoxos. Em sua famosa obra De Praescriptione haereticorum, Tertuliano podia opor-se aos hereges de orientação diferente que só a Igreja possui o "praescriptio", isto é que apenas a Igreja é a legítima proprietária da fé, da Palavra de Deus e da tradição. Com isso, nas disputas sobre a verdadeira interpretação, a Igreja pode recusar aos hereges a limine fori. Somente a Igreja pode dizer, segundo Tertuliano: "Ego sum heres Apostolorum"[73]. Falando de forma análoga, apenas o Magistério supremo do Papa poderá dizer: "Ego sum heres Concilii Vaticani II".

Nas últimas décadas existiram, e até agora existem, dentro da Igreja, grupos que fazem um enorme abuso de caráter pastoral do Concílio e dos seus textos, escritos de acordo com esta intenção pastoral, uma vez que o Concílio não queria submeter ensinamentos próprios definitivos e irreformáveis. Pela mesma natureza pastoral dos textos do Concílio se evidencia que esses textos estão, em princípio, abertos a complementos e a mais detalhes doutrinários.

Dada a experiência, já de varias décadas, de interpretações doutrinárias e pastoralmente equivocadas e contrárias  à continuidade bimilenária da doutrina e da oração da fé, surge a necessidade e a urgência de uma intervenção específica e autorizada do Magistério pontifício para uma interpretação autêntica dos textos conciliares com complementos e esclarecimentos doutrinários, uma espécie de "Syllabus Errorum circa interpretationem Concilii Vaticano II". Há necessidade de um novo Syllabus, desta vez dirigida não tanto contra os erros que vêm de fora da Igreja, mas contra os erros disseminados no seio da Igreja, por parte dos que apoiam a tese da descontinuidade e da ruptura com sua aplicação doutrinal, litúrgica e pastoral. Tal Syllabus deve ser composto de duas partes, a parte que identifique os erros e a parte positiva com as proposições explicativas, complementares e de precisão doutrinária.

São evidentes dois grupos que apoiam a teoria da ruptura. Um deles tenta protestantizar doutrinária, litúrgica e pastoralmente a vida da Igreja. No lado oposto estão aqueles grupos tradicionalistas que, em nome da Tradição, rejeitam o Concílio e se subtraem à submissão ao supremo e vivente Magistério da Igreja, submetendo-se por enquanto tão somente ao chefe invisível da Igreja, à espera de tempos melhores.

O Papa Paulo VI explicou assim durante o Concílio o significado da verdadeira renovação da Igreja: "Nós pensamos sobre essa linha deve desenvolver-se a nova psicologia da Igreja: clero e os fiéis encontrarão um magnífico trabalho espiritual a ser feito para a renovação da vida e da ação de acordo com Cristo, o Senhor; e a esse trabalho nós convidamos nossos irmãos e nossos filhos: aqueles que amam a Cristo e à Igreja estão conosco no sentido de professar mais claramente a verdade, típica da tradição doutrinária que Cristo e os Apóstolos inauguraram; e, assim, o sentido da disciplina eclesiástica e da união profunda e cordial que nos faz a todos confiantes e solidários, como membros de um mesmo corpo "[74].

O Papa Paulo VI, explicando aos homens sobre o Concílio, afirmava em um discurso durante a oitava reunião pública: "A fim de que todos sejam consolados nesta renovação espiritual propomos à Igreja recordar plenamente as palavras e exemplos de nossos dois últimos antecessores, Pio XII e João XXIII, aos que tanto devem a mesma Igreja e o mundo, e para isso dispomos que sejam iniciados os processos canônicos de beatificação desses piíssimos e sublimes e nossos caríssimos Sumos Pontífices. Será, deste modo, apoiado o desejo de que, por cada um deles, tem sido em tal sentido, expressado por muitas vozes; será assim assegurado para a história o patrimônio histórico de sua herança espiritual, impedirá que qualquer outro motivo, que não seja o culto da verdadeira santidade e, portanto, da glória de Deus e para a edificação de sua Igreja, reconstruam  suas autênticas e queridas figuras para nossa veneração e dos séculos futuros ".

Em substância foram dois os impedimentos para a verdadeira intenção do Concílio e seu Magistério pudessem dar frutos abundantes e duradouros. Um se encontrava fora da Igreja, no violento processo de revolução cultural e social dos anos 60, que como tudo poderoso fenômeno social penetrou dentro da Igreja, contagiando com seu espírito de ruptura vastas áreas de pessoas e instituições. O outro impedimento foi manifestado na falta de sábios e ao mesmo tempo corajosos pastores da Igreja que estivessem dispostos a defender a pureza e a integridade da fé e da vida litúrgica e pastoral, não se deixando influenciar por qualquer louvor ou medo: nec laudibus, nectimore.

 O Concílio de Trento afirma já em um de seus últimos decretos sobre a reforma geral da Igreja: "O santo sínodo, movido por tantos males graves que afligem a Igreja, não pode deixar de lembrar que a coisa mais necessária à Igreja de Deus é [...] eleger pastores ideais e adequados; com maior razão sendo que Nosso Senhor Jesus Cristo pedirá contas do sangue daquelas ovelhas que pereceram por causa do mau governo de pastores negligentes e esquecidos de seu dever "[75]. O Concílio prossegue: "Em quanto àqueles que, por qualquer motivo têm, por parte da Santa Sé, algum direito de intervir na promoção dos prelados futuros ou aos que de alguma forma estão envolvido nele [...] o Santo Concílio os exorta e admoesta que recordem, especialmente, que nada pode torná-lo mais proveitoso para a glória de Deus e a salvação das pessoas, que empenhar-se em eleger pastores bons e adequados para governar a Igreja"[76]

Portanto, há verdadeira necessidade de um Syllabus conciliar com valor doutrinal e há também, necessidade de aumentar o número de pastores santos, ousados e profundamente enraizados na tradição da Igreja, alheios a qualquer mentalidade de ruptura já na doutrina, e na liturgia. De fato, estes dois elementos constituem a condição indispensável para que a confusão doutrinária, litúrgica e pastoral diminua significativamente e a ação pastoral do Concílio Vaticano II possa nos trazer muitos e duradouros frutos no espírito da tradição, que se reconecta com o espírito que reinava em todo o tempo, e em todos os lugares e em todos os verdadeiros filhos da Igreja Católica, que é a única e verdadeira Igreja de Deus na Terra.

 


[1]Código de Direito Canônico, canon 1752.

[2] No Ordinário do Missal Romano, antes do oferecimento do cálice, o celebrante mistura vinho e água e diz: “Ó Deus, que criaste miraculosamente a dignidade da substância humana emais maravilhosamente areformaste, faz-nos Pelo mistério desta água e deste vinho, possamos participar da divindade do vosso Filho, que se dignou assumir a nossa humanidade” (N do T).

[3]Constituicãosobre a Sagrada Liturgia SacrosanctumConcilium, n. 10.

[4]Ibidem.

[5] Constituição sobre a Sagrada Liturgia…, o. c., n- 9.

[6]Constituição Dogmática sobre a Igreja Lumen Gentium, n. 14.

[7] Constituição Dogmática sobre a Igreja…, o. c., n. 8. Cf. também n. 28.

[8]Cf. Constituição dogmática sobre a Igreja…, o. c., n. 49.

[9] Constituição Dogmática sobre a Igreja…, o. c., n. 50.

[10] Cf. Declaração sobre a liberdade religiosa Dignitatishumanae, n. 10.

[11]Sacrosanctum Oecumenicum Concilium Vaticanum II. Constitutiones, Decreta, Declarationes, Cittàdel Vaticano 1966, p. 905).

[12]Sacrosanctum Oecumenicum Conclium…, o. c., página 989.

[13] Decreto sobre a atividade missionária da Igreja Ad gentes, n. 8.

[14] Cf. Decreto sobre a atividade…, o. c., n. 7.

[15]Sacrosanctum Oecumenicum Concilium…, o. c., página 861.

[16]Sacrosanctum Oecumenicum Concilium…, o. c., página 864

[17] Declaração sobre alibertade religiosa…, o. c., n. 14.

[18]Ibidem.

[19] Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo atual Gaudium et spes, n. 28.

[20]Sacrosanctum Oecumenicum Concilium…, o. c., página 913.

[21] Decreto sobre o apostolado dos leigos Apostolicam actuositatem, n. 6.

[22] Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo…, o. c., n. 47.

[23]Ibidem.

[24] Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo…, o. c, n. 51.

[25] Cf. Decreto sobre a atividade missionária da Igreja…, o. c., n. 15.

[26] Cf. Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo…, o. c., n. 56.

[27] Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo…, o. c., n. 7.

[28]Cf. Sacrosanctum Oecumenicum Concilium…, o. c., páginas 1064, 1065.

[29]Sacrosanctum Oecumenicum Concilium…, o. c., páginas 1039, 1040.

[30]Sacrosanctum Oecumenicum Concilium…, o. c., páginas 1053, 1054.

[31]Sacrosanctum Oecumenicum Concilium…, o. c., página 1067.

[32] Cf. Decreto sobre a atividade missionária…, o. c., n. 22.

[33] Cf. Constituição dogmática sobre a Igreja…, o. c., n. 36.

[34] Cf. Decreto sobre a atividademissionária…, o. c., n. 24.

[35] SS JOÃO XXIII, Carta Encíclica Paenitentiam agere, II, 2.

[36]Ibidem.

[37]Ibidem, II, 3.

[38]Ibidem.

[39]Ibidem, II, 2.

[40] Constituição dogmática sobre a Igreja…, o. c., n. 11.

[41]Constituição sobre a Sagrada…, o. c., n. 33.

[42]Ibidem, n. 10.

[43] Cf. Decreto sobre a formação sacerdotal Optatamtotius, n. 16.

[44]Summa Theologiae III, q 73, a 3, corpus.

[45]Summa Theologiae III, q. 65, a 3, ad 1: Cf. Presbyterorum ordinis, n. 5.

[46] Constituição sobre a Sagrada Liturgia…, o. c., n. 10.

[47] Ibidem, n. 9.

[48] Declaração sobre a liberdade…, o. c., n. 3.

[49] Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo…, o. c., n. 16.

[50] Ibidem, n. 50.

[51] Ibidem, n. 43.

[52] Ibidem.

[53] Constituição sobre a Sagrada Liturgia…, o. c., n. 9.

[54] Constituição dogmática sobre a Igreja…, o. c., n. 36.

[55] Encíclica Inmortale Dei, 1 de noviembre de 1885: AAS 18 (1885), pp. 166ss. Ídem, Encíclica Sapientiae Christianae, 10 de janeiro de 1890: AAS 22(1889-90), pp. 397ss. Pío XII, Discurso Alla vostra filiale, 23 de marzo 1958: AAS 50 (1958), p. 220.

[56] Ibidem.

[57] Ibidem.

[58] Constituição dogmática sobre a Igreja…, o. c., n. 31.

[59] Cf. Decreto sobre o apostolado dos…, o. c., n. 7.

[60] Constituição dogmática sobre a Igreja…, o. c., n. 35.

[61] Ibidem.

[62] Decreto sobre o apostolado dos…, o. c., n. 16

[63] Cf. Ibidem, n. 17.

[64] Cf. Constituição sobre a Sagrada Liturgia..., o. c., n. 9.

[65] Constituição dogmática sobre a Igreja…, o. c., n. 42.

[66] Sacrosanctum Oecumenicum Concilium…, o. c., páginas 1063, 1064

[67] Ibidem, páginas 881, 882.

[68] Ibidem, página 981.

[69] Cf. Ibidem.

[70] Constituição pastoral sobre a Igreja no mundo…, o. c., n. 42.

[71] Ibidem.

[72] S. S. PÍO XII, Discurso aos cultores de história e arte, 9 de março de 1956. AAS 48 (1956), p. 212.

[73] Praescriptio, 37, 3.

[74] S. S. Paulo VI, Discurso na oitava sessão pública do Concilio Vaticano II, 18 de novembro de 1965, p. 1054. Cf. Sacrosanctum Oecumenicum Concilium…, o. c., página1054.

[75] SESSIO XXIV, Decretum de reformatione, can. 1

[76] Ibidem.

 

 

FONTE


SCHNEIDER, Mons. Athanasius. Propuestas para una correcta lectura del Concilio Vaticano II - Mons. Atanasio Schneider- Disponível em: http://multiespacioelcamino.blogspot.com.br/2011/02/propuestas-para-una-correcta-lectura.html

 

PARA CITAR 


SCHNEIDER, Mons. Athanasius. Propostas para uma leitura correta do Concílio Vaticano II - Disponível em: <http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/concilio-vaticano-ii/diversos/732-propostas-para-uma-leitura-correta-do-concilio-vaticano-ii>. Desde: 11/10/2014. Tradução: Kelly. 

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