A questão do Papa Libério. Novos estudos.

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A questão da queda do papa Libério  ao assinar ou aceitar uma das fórmulas arianas ou semi-arianas de Sirmião é tao antiga quanto o próprio Libério. Ela nasceu das calúnias e da falsificaçao dos escritos de Libério, espalhadas pelos inimigos que ele teve, ou melhor dizendo, inimigos da doutrina da Igreja personificadas nele. Deixando de lado as dúvidas e textos controversos de Santo Atanásio e São Jerônimo, é conhecido como o historiador Rufino, 40 anos depois de Liberio, declarasse de não saber se o retorno à Roma do exilio, se deu  devido à sua  condescendência a vontade de Constâncio em subscrever ou entao devido as suplicas dos romanos.[1]

Não poucos estudiosos católicos modernos, e talvez a maioria, acabaram acolhendo a historia de Sozomeno, segundo o qual, Liberio teria assinado a terceira formula de Sirmiao, católica em tudo, com exceçao que esta, nao trazia a palavra homoousios. Contudo, poucos seguem a opiniao defendida primieramente pelo Corgne (?) no ano 1732, depois pelo bolandista Stilting, entre outros, que Libério não cometeu algum ato que possa ser interpretado como contrário ao Concílio de Nicéia.

As incertezas que ainda existem entre os modernos , depois de tantas pesquisas e estudos, mostram o quão profunda é a ferida que os inimigos de Libério causaram à sua memoria, e o quanto, por isso tenha que voltar a ser bem-vindo aos sinceros amantes da verdade qualquer contribuição nova que se traga para ilustrar a escuridao que nublou os atos deste Pontífice.

E uma contribuição muito valiosa trouxe ultimamente o senhor Luigi Saltet, professor de historia eclesiastica do Instituto Catolico de Tolosa, com a descoberta feita por ele e comprovada, de varias falsificaçoes dos luciferianos, direcionadas justamente para manchar a memória de Libério.


O trabalho de Saltet está incluído em dois artigos que apareceram no Bulletin de littérature ecclésiastique de Toulouse, o primeiro sob o titulo de La formation de la légende des papes Libère et Félix [2], e o outro sob o titulo de Fraudes littéraires des schismatiques Lucifériens [3].

Primeiro, Saltet nos fala das quatro cartas, que foram aceitas no passado como obras de Liberio e que agora, são geralmente reconhecidos como apócrifo e  trabalho dos arianos.

Ele se pergunta quando as quatro cartas foram escritas e se realmente S. Hilario as acolheu na historia dos arianos, ( chamada Opus historicum )que ele mesmo preparava e que chegou ate nòs fragmentada. Em relação ao tempo, observa Saltet, que Loofs , que colocou a obra do falsario no tempo de Liberio, não dá nenhuma razão para este posicionamento. Para nós, o motivo parece claro; depois que terminou o empenho dos arianos em fazer Liberio aceitar com todos os meios, não excluindo aqueles de engano e da violência , as suas formulas, mais ninguem teria interesse em supor aquelas cartas.

Quanto à autenticidade do Opus historicum de santo Hilario,sao conhecidas as objeçoes que os escritores catolicos levantaram, especialmente por causa dessas falsas cartas e alguns comentários e observações que fez o compilador.

As dificuldades seriam removidas, aceitando a hipotese de Saltet, que  o Opus historicum seja primitivamente obra de S.Hilario, mas esta chegou a nos alterada por um luciferiano, inimigo de Liberio e de Hosio, o qual teria suprimido uma carta autentica de Liberio e uma do concilio de Paris no ano 360-361, introduzindo no lugar destas, a falsa carta Studens paci de Liberio e os comentários desfavoráveis a Libério.

A evidencia mais forte de que o manipulador cismatico da obra de S.Hilario , introduziu a falsa carta Studens paci (do fragmento iv), suprimindo  uma  carta verdadeira de Liberio aos Orientais, deriva, segundo Saltet, do contraste evidente e palpavel entre a dita carta pseudoliberiana e as observaçoes que a seguem, que são, certamente, de Santo Hilário.

Na carta Libério anuncia aos Orientais de ter notificado Atanásio para ir a Roma, sob pena de excomunhão, e como ele se recusou a obedecer ao Papa, advertiu os bispos do Oriente a considerá-lo excomungado “alienum esse a comunione mea sive ecclesiae romanae et consortio litterarum ecclesiastica rum”.

As observações de Santo Hilário (por quanto seu texto tenha sidomodificado por copistas) pressupõem uma carta com sentimentos de tudo  contrários aos da carta presente. Começa entao, S.Hilario a louvar a carta como modelo inatingível de santidade e temor de Deus “Quid in litteris non sanctitatis,quid non ex metu Dei eveniens es?t”. Depois censura Potamio e Epicteto, os quais se nota nos atos do Concilio de Rimini, gloriam-se de condenar o Papa e nao quererem escutar o conteudo da sua carta.

Esta, foi enviada mais tarde por Fortunaciano (bispo de Aquileia) a varios bispos, mas sem sucesso.

Afirma depois, que o papa, na sua carta, ou para dar culpa à aqueles para quem escreveu da responsabilidade de negar a comunhao a Anastasio, ou alegando que ele nao queria assumir esta responsabilidade [4], citando as cartas dos bispos egipcios que, assim como tinham pedido para o  papa Julio de restituir a comunhao a Atanasio em exilio, agora pediam para Liberio de conserva-la, como se entende atraves das cartas seguintes, ut de subiectis intelligetur.

 

Esta, è exatamente a linguagem rude e incisiva de Santo Hilario,  e o apelo que ele faz para as cartas seguintes, como testemunham as cartas dos bispos egipcios a Liberio, è confirmado pelo conteudo da carta autentica de Liberio a Constancio, na qual, imediatamente a seguir (no fragmento V), fala precisamente da petiçao de 80 bispos egipcios a favor de S.Atanasio.

Então, Saltet tem total razão quando afirma que a carta falsificada studens paci foi substituída na obra de S.Hilario por uma verdadeira e genuína  de Libério que disse exatamente o oposto desta carta, e que somente sobre esta carta (agora perdida) pode referir-se os comentários acima de Santo Hilario. A proposito das quais podemos constatar algo ate agora pouco considerado, que nessas, S.Hilario desaprova Potamio ( bispo catolico que cedeu aos arianos) e Epicteto, ariano declarado, por ter condenado Libério durante o concilio de Rimini. Autor da substituição, acredita Saltet, tenha sido o mesmo que incluiu no final das 3 cartas falsas de Libério, os anátemas a ele, e o titulo injurioso de apóstata, e que incluiu na coleção de S. Hilário uma carta de Santo Eusébio de Vercelli ao Bispo Gregório de Elvira.

Esta, Saltet prova ser falsa do começo ao fim. . Não temos a intenção de segui-lo na sua demonstração, mas nos basta dizer que ele analisa frase por frase a suposta carta de Eusébio, e mostra que o falsificador tomou algumas pensamentos e expressões da verdadeira carta escrita por Santo Eusébio aos seus “verceleses” durante o exílio em Scythopolis.

Aos indícios de falsidade apresentados por Saltet, queremos incluir outros dois. O primeiro è que S. Eusebio, que é conhecido por ter sido sempre muito suave, embora inflexível nos princípios da fé, e que aprovou no concílio de Alexandria em 362 a regra do perdão aos bispos caidos em Rimini contanto que se retratassem, já tinha certamente estas disposições em 360-361 (antes de novembro de 361), quando se supõe que tenha escrito sua carta ao bispo de Elvira.

Portanto, não é crível que ele se expressou com tanta força contra os Padres da Rimini (embora ele soubesse que caíram por fraqueza, e foram enganados) como se observa na carta acima.

A segunda pista é sugerida por uma observação que encontramos no excelente estudo, publicado ha pouco por F. Cavallera,sobre o cisma de Antioquia. Ele observa que, de acordo com os três historiadores gregos, quando Constâncio morreu, Eusébio e Lúcifer foram exilados no Egito, próximo a Tebas. Mas os três historiadores dependem de Rufino, que não se expressa muito claramente sobre o lugar onde eles estavam, e, em seguida, para o que diz respeito particularmente Eusébio, Rufino afirma repetidamente que Eusébio antes de chegar a Alexandria estava em Antioquia com os partidários de Eustáquio, que convidado ao Concilio de Alexandria ,prometeu aos católicos de Antioquia de conseguir para eles um bispo: "sed Eusebius cum redisset Antiochium,quia digrediens inde promiserat se acturum in concilio ut eis ordinaretur episcopus”.

A passagem de Eusebio por Antioquia parece muito natural, se supusermos que estava em viagem para Alexandria vindo de Capadocia, local do seu segundo exílio, enquanto, se supusermos que era a Tebas ou no Egito quando morreu Constancio, precisaria, para ser verdadeira a afirmação de Rufino, supor que do Egito estava indo para Antioquia, para depois , dali voltar para Alexandria, e depois pela segunda vez, para Antioquia, o que è muito confuso e pouco provável. Por isso, o terceiro exílio de S.Eusebio a Tebas (depois de Scythopolis e Capadocia) é aceitado até agora por todos historiadores sob autoridade da suposta carta a Gregório de Elvira (nos veros tui consacerdotes,tertio laborantes exilio) , agora que provamos ser falsa, torna-se, no mínimo, duvidosa, e ao mesmo tempo dá-nos um novo tópico para suspeitar desta carta.

Não se contentou o manipulador luciferiano de introduzir a falsa carta de S.Eusebio  na coleção de S.Hilario , mas teria também a substituído com outra, que provavelmente seguia o primeiro dos dois documentos que se veem agora no fragmento, e è uma carta do concilio de Paris,em 360-361 aos bispos do Oriente.

Sabemos,diz Saltet, por Santo Agostinho (contra Parmen. I. 7) que os bispos da Galia , em um concilio julgaram benignamente a queda de Hósio, enquanto muito severamente os espanhóis.

É provável que os bispos de Galia ( que nao consta tenham se reunido em outro lugar alem do concilio de Paris 360-361) tenham se expressado a favor de Hosio com uma carta ao episcopado espanhol. O compilador , como um bom luciferiano, odiava Hosio e Libério, e teria suprimido esta carta favorável a Hosio e substituído com a falsa carta de S. Eusebio a Gregório de Elvira, na qual Hosio é chamado de prevaricador, e Gregorio è louvado por ter resistido à ele.

Interessante é tambem a pesquisa de Saltet para estabelecer o autor da carta falsificada de Libério.

Pelo menos três, diz ele, foram os partidos que trabalharam para distorcer a história de Libério: arianos, partidários do antipapa Felix (criado contra Libério em 355 ou 356) e os luciferianos. Não parece que o autor da carta tenha sido um luciferiano, mas ele foi provavelmente um ariano ou um felixiano.

Para completar a sua discussão, Saltet mostra a influência que teve a falsa carta de Libério sobre a notícia biográfica dele em Liber pontificalis. O os dois bispos arianos Ursacio e Valente, aparecem como os autores da libertação do Papa do exílio. Tais deturpações desses dois personagens é devido à falsa carta Quia Scio vos , na qual Libério se recomenda a esses dois lideres da seita, para que possa obter a liberdade.

Quanto ao Gesta Eusebii que Saltet, junto com Duchesne, desejam ser posteriores a Liber pontificalis, gostaríamos de expressar alluma dúvidas. Dado o compromisso que todos os títulos de Roma mostram desde o fim do V seculo, como provou Dufourcq (Les Gasta Martyrum romains), ou desde o principio do VI, de ter a lenda do seu santo padroeiro , parece mais provável que Gesta Eusebii tenha sido composto antes , pois são os mais comuns, e depois, o autor do livro Liberis pontificalis fez um compendio.

No segundo artigo , Saltet apresenta outras falsificações luciferianas, isto é:

  1. duas interpolações na versão latina de uma carta de Santo Atanásio para os solitários. As interpolações tem como objetivo confirmar com a autoridade S. Atanásio, o principio da seita luciferina de evitar qualquer contato com os hereges e com os que se comunicavam com eles.
  2. duas cartas de Santo Atanasio a Lucifer de Cagliari em ocasião do tratado de Lucifer contra Constancio.

Na primeira carta S. Atanásio lhe pede para ler o tratado e na segunda agradece porque lhe foi mandado, e ao mesmo tempo seja na primeira que na segunda carta o patriarca de Alexandria exagera nos louvores ao chefe e ídolo da seita Luciferiana.

A primeira destas cartas se encontra somente no cod.Vaticano 133, no qual se encontra também a segunda carta e todas as obras de Lucifer, onde se deduz que o codigo mesmo reproduza um arquétipo do seculo IV, escrito por causa de algum adepto da seita luciferiana.

  1. um tratado de Trinitate que ja levou o nome de S.Atanasio e que pelos “Maurinhos” foi banido entre as obras ilegitimas do Santo Doutor.

Deste existem duas ediçoes, uma de 7 livros e outra com a inclusão de um oitavo livro e de numerosas interpolações e adições no texto, que na edição dos Maurinhos de 1698 são indicadas com parenteses.

Saltet, depois de ter comparado minuciosamente esta obra com De fide do luciferiano Gregório de Elvira, chegou a conclusão que : a) o autor da primeira e segunda ediçao do livro De Trinitate foi um luciferiano, b) que ele , com um desenho premeditado colocou no seu trabalho o nome de S. Atanásio, c) que a opera De fide de Gregório de Elvira foi composta antes de 383, e foi bem colocada a lucro de outro luciferiano, o padre Faustino de Roma, no seu livro De Trinitate sive de Fide contra Arianos.

NOTAS


 

 

[1] Liberius... «Constantio vivente (Romam) regressus est. Sed hoc utrum acquieverit voluntati suae ad subscribendum, an ad populi romani gratiam, a quo proficiscens fuerit exoratus, indulserit, pro certo compertum non habeo». Hist. eccl., lib. I, cap. 28.

[2] Fascículo 7-8, julho-outubro de 1905.

[3] Fascículo 8-9, outubro-novembro de 1906.

[4] O texto e as variantes de apresentam em dois sentidos: «Ut autem in negata Athanasio sibi potius essent onerosi (variante esset onerosus) remque omnem sibi periculi facerent (variante faceret), dummodo nihil Sardicensi synodo, quo Athanasius absolutus et ariani damnati fuerant, decerperent; litterae ex Aegypto omni atque ab Alexandria missae admonebant, quoniam quales ad Iulium pridem de reddenda exulanti Athanasio communione erant scriptae, tales nunc, ut de subiectis intelligetur, ad Liberium datae sunt de tuenda.

 

PARA CITAR


La Civiltà Cattolica, ano LVIII, vol. I, Roma 1907 pag. 712-717. A questão do Papa Libério. Novos estudos. - Disponível em: < http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/concilio-vaticano-ii/diversos/683-a-questao-do-papa-liberio-novos-estudos >. Desde: 03/06/2014. Tradução: Gabriela Arenare.

 

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