O concílio de Nicéia e a Supremacia de Roma no Cânon VI

Controvérsias
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1 - INTRODUÇÃO


 

Há alguns dias, após uma publicação de uma matéria minha sobre são Cipriano na qual mencionava a adulteração na tradução de um troll protestante no cânon VI do concílio de Nicéia, surgiu a polêmica de qual seria realmente a interpretação desde tal cânon. Um site protestante denominado “E-Cristianismo” para responder a um leitor que os interpelava sobre está tradução que também estava neste site porém sendo a tradução do epítome do cânon, fez uma matéria com uma exegese do texto grego do cânon para identificar qual seria a interpretação correta. Após isso o troll que havia adulterado o cânon, se valeu desta exegese do site “E-cristianismo” para nos dar uma resposta afirmando que não havia adulterado nada.

Pois bem, já respondemos ao troll (Vejam aqui), mostramos novamente a tradução correta e o que realmente queria dizer o concílio de Nicéia, bem como refutamos suas acusações pessoais contra mim. Apesar de já ter respondido quase tudo sobre o texto grego na resposta ao troll, resolvemos aqui pegar a parte séria da coisa que é a resposta à exegese do site “E-cristianismo” e formar uma matéria mais esclarecedora para não restar dúvidas de qual realmente é o significado do Cânon VI do I Concílio de Nicéia.

 

 

2 - ANALISANDO A TRADUÇÃO DO CÂNON VI


 

Vamos ao texto grego e a nossa tradução:

ς′. Τὰ ἀρχαῖα ἔθη κρατείτω τὰ ἐν Αἰγύπτῳ, καὶ Λιβύῃͅ καὶ Πενταπόλει, ὥστε τὸν ἐν Ἀλεξανδρείᾳ ἐπίσκοπον πάντων τούτων ἔχειν τὴν ἐξουσίαν,ἐπειδὴ καὶ τῷ ἐν τῇ Ῥώμῃ ἐπισκόπῳ τοῦτο σύνηθές ἐστιν· ὁμοίως δὲ καὶ κατὰ τὴν Ἀντιόχειαν καὶ ἐν ταῖς ἄλλαις ἐπαρχίαις, τὰ πρεσβεῖα σώζεσθαι ταῖς ἐκκλησίαις. (Cânon VI – Em grego)

“Que o antigo costume no Egito, Líbia e Pentapolis prevaleça, que o Bispo de Alexandria tenha jurisdição em todos estes, uma vez que o mesmo é de costume para o bispo de Roma também. Da mesma forma em Antioquia e as outras províncias, que as Igrejas mantenham seus privilégios.” (Cânon VI)

Limitando nossa atenção para a cláusula ἐπειδὴ ... τοῦτο σύνηθές · vamos no início assegurar-nos de que a nossa tradução e interpretação representa fielmente o original.

O termo σύνηθές de acordo com Hedricus, denota consuetus, familiaris, e é traduzido por Liddell e Scott como habitual, costumeiro. A frase σύνηθές τινι ἐστιν que usa o mesmos termos é equivalente à conhecida expressão latina familiare ou est consuetum mihi: é meu costume. Ela não pode ser traduzida, “É o costume dos outros sobre mim”. Daí renderização de Hefele também citada por Philip Schaff, “Há um costume semelhante para o bispo Romano” é evidentemente incorreta.

Na verdade, Hefele foi influenciado pela versão antiga do Dionísio, o Menor, que tornou a cláusula assim: Quia et Urbis Romm Episcopo parlis mos est. Esta é insatisfatória, pois não há equivalente para parilis no texto grego, e não há equivalente na versão dionisíaca para o grego τοῦτο. A primeira versão latina - que foi lida no Concílio de Calcedônia – vai mais direto ao ponto: Quoniam et Romano Episcopo hmc est consuetudo, o que coincide com a nossa. Escritores protestantes também têm feito uma exegese do texto como temos feito, embora, naturalmente, eles se esforcem para minimizar o significado do texto.

 

TRADUÇÕES PROTESTANTES DO VI CÂNON

Assim Sheppherd traduz:

Uma vez que este é também costume do bispo romano”. (História da Igreja de Roma, p. 63)

Neander:

Uma vez que este é o costume também com o bispo romano.” (Church History, vol. II, p. 162)

Philip Schaff:

uma vez  que o mesmo é de costume para o bispo de Roma também” (NFPF e History of the Christian Church, vol. II., p.275.)

Somos obrigados, então, a assumir, baseados nas próprias traduções protestantes, apesar de suas interpretações non sense, que a nossa tradução é uma reprodução fiel do texto grego.

Depois de ter determinado com a maior precisão possível que o Concílio disse sobre o Romano Pontífice, nosso próximo passo é investigar o significado, o alcance e influência, das palavras do cânone: “Que o antigo costume no Egito, Líbia e Pentapolis prevaleça, que o Bispo de Alexandria tenha jurisdição em todos estes, uma vez que o mesmo é de costume para o bispo de Roma também.

Este cânon nem concede novos privilégios à Sé Apostólica, nem confirma qualquer dos já existentes. Por uma razão ou outra, o Concílio não considerou necessário legislar sobre o Bispo de Roma. Ele fortaleceu as mãos dos Patriarcas de Alexandria e Antioquia, e dos exarcas de Pontus, Ásia e Trácia. No Canon VII concedeu um Patriarcado de Honra ao Bispo da Cidade Santa, mas não se atreveu exercício, de qualquer forma, uma autoridade legislativa sobre a cidade de São Pedro.

 

 

ANALISANDO A INTERPRETAÇÃO DO TEXTO

O núcleo da dificuldade é o pronome demonstrativo τοῦτο, que se traduz como “este” ou “o mesmo” indicando o objeto anteriormente mencionado. “Este é o costume do Bispo de Roma”. Ao que isto se refere? Que o bispo de Alexandria mantenha seu domínio antigo ao longo dessas três províncias, pois isso é também costume do bispo romano.

 

Existem apenas duas interpretações possíveis para esse cânone:

Interpretação possível: De acordo com Belarmino e outros, τοῦτο, refere-se ao Patriarcado de Alexandria, e é para ser exposto assim:

Vera expositio est, Alexandrinum debere gubernare illas provincias, quia Romanus Episcopus ita consuevit; idest, quia Romanus Episcopus ante omnem Conciliorum definitionem consuevit permittere Episcopo Alexandrino regimen Egypti, Libym et Pentapolis; sive consuevit per Alexandrinum Episcopum illas provincias gubernare.” (Bellarmine De Rom. Pont., lib. II., c. XIII.).

Que o bispo de Alexandria, continuará a reger estas províncias, porque este é também costume do Romano Pontífice, isto é, porque o Romano Pontífice, antes de qualquer decreto sinodal, tem repetidamente reconhecido a autoridade do Bispo de Alexandria ao longo deste local do país.

Para São Belarmino que era altamente proficiente no grego, esta interpretação é a mais provável, como Roma tinha também autoridade sobre estes territórios, ele reconhecia que eles pertenciam ao patriarcado de Alexandria antes mesmo de qualquer concílio confirmar isso.

Esta exposição é desagradável para os adversários de supremacia romana, daí eles nos oferecem uma interpretação diferente. Eles fazem τοῦτο referir-se aos patriarcados em geral e expõem a sentença da seguinte forma:

“‘Que Alexandria tenha jurisdição sobre estas províncias, porque o bispo romano também tem um Patriarcado’. Issso ilustra o tipo de poder, referindo-se um poder semelhante exercido pelo prelado romano em sua província.”

Esta interpretação que é basicamente a mesma dada pelo autor do site que estamos respondendo e é totalmente inadmissível, provaremos mais a diante, e que no mínimo a intepretação de Belarmino é a que sem apologia, é a mais correta.

2ª Interpretação possível: A segunda interpretação que é também anossa interpretação posta no texto sobre são Cipriano diz que o texto deve ser exposto da mesma maneira que se entende o texto literalmente:

“Que o antigo costume no Egito, Líbia e Pentapolis prevaleça, que o Bispo de Alexandria tenha jurisdição em todos estes, uma vez que o mesmo costume da autoridade desses territórios é do  bispo Roma também.”

Essa interpretação bate de frente com a interpretação protestante, pois o texto original nos diz:

Que o antigo costume no Egito, Líbia e Pentapolis prevaleça, que o Bispo de Alexandria tenha jurisdição em todos estes, uma vez que o mesmo é de costume para o bispo de Roma também.

Pra os protestantes isso não quer o que quer dizer, para eles quer dizer outra coisa que não se vê no texto. Primeiro o texto diz:

uma vez que o mesmo [ou este, τοῦτο] é de costume para o bispo de Roma também.”

O texto vem com “O MESMO” τοῦτο, Se refere ao que?  Ora se o texto diz “o Bispo de Alexandria tenha jurisdição em todos estes”, então em seguida diz “O MESMO” logo isso quer dizer que o mesmo território que Alexandria tinha poder é de costume Roma também ter.

O pronome τοῦτο está diretamente ligado a palavra anteriormente mencionada “jurisdição” que no texto grego vem como ἐξουσίαν, então o costume era a “jurisdição” sobre “Egito, Líbia e Pentapolis”. Quando passa o discurso para Roma τοῦτο entra para dizer que “este” ou “o mesmo” costume era também para bispo romano também. Fica de se entender que aquilo mesmo que se referia a Alexandria, ou seja a “Jurisdição” dos territórios, era para Roma também.

Eu não entendo como “uma vez que o mesmo é de costume para o bispo de Roma também”, pode significar “o bispo de Roma tem autoridade sobre o seu próprio território também.”.

 

3- ENTENDENDO O CONTEXTO DO CÂNON PARA PODER INTERPRETAR CORRETAMENTE


 

 

A supremacia do Bispo de Alexandria tinha sido contestada pelos bispos de Antioquia (não confundir com o patriarca). Eles tinham questionando, se não em palavras, pelo menos em fatos, sobre o que se baseava a pretensão do patriarca de Alexandria governar e depor bispos no Egito, Líbia e Pentapolis. E que se ele tivesse realmente a autoridade que provasse ela. Porém, o prelado de Alexandria não tinha nenhum documento escrito de qualquer tipo para provar sua autoridade sobre estes territórios. O Concílio de Nicéia, portanto, veio em seu auxílio, decretando que o patriarca e a autoridade dele deveria ser respeitada, e isso por duas razões: primeiro, porque era ἀρχαῖα, ou seja, antigo o costume e, segundo, porque era sancionado pelo constante reconhecimento por parte do Romano Pontífice que também tinha autoridade por lá. Duas razões muito boas.

Prestem atenção os leitores que a controvérsia é entre Alexandria e Antioquia, por que Roma está nesse meio? A resposta a isso veremos a seguir.

Os territórios do Egito, Líbia e Pentapolissempre foram territórios do império romano desde o século I. Líbia e Petapolis e parte do Egito estavam sob o poder de Ptolomeu Apion, filho de Ptolomeu VIII. Quando Ptolomeu Apion morreu em 96 d.C, não tinha nenhum descendente então deu a Roma todo este território.  Então o império Romano ficou com o poder sobre essa área do oriente, e, portanto o bispo Romano legislava diretamente sobre ela.

Como o passar dos anos pela distância da Sé Romana, passou se a dar autoridade sobre essa região ao patriarca de Alexandria, por consentimento do bispo de Roma, já que era difícil legislar diretamente as causas de um território longe do seu.  Depois disso por volta do ano 296 a 300 d.C, o imperador Diocleciano fez uma reforma administrativa, então o império romano deixou de ter autoridade direta sobre o território de Egito, Líbia e Pentapolis. Então, como já era de costume o bispo de Alexandria passou então a ter total autoridade sobre os territórios e o bispo de Roma não precisaria mais legislar diretamente sobre esses territórios, apesar de em causas decisivas poder legislar sobre lá, já que era o primaz, mas a autoridade direta fica com o patriarca de Alexandria.

Acontece que a legislação de Alexandria, sobre esses territórios, não tinha sido decretada formalmente e como os Patriarcados de Alexandria e Antioquia governavam quase o mesmo território (ler mais na Enciclopédia Católica), os bispos de Antioquia questionam o patriarca de Alexandria para provar sua autoridade, pois achavam que Antioquia também teria autoridade. Então o concílio de Nicéia Formaliza isso e decreta que esses territórios são de Alexandria e que Antioquia fique com os seus próprios. E Roma o que faz no meio desse cânon?

O contexto é a chave para entendermos TUDO, pois ao cânon falar:

“Que o antigo costume no Egito, Líbia e Pentapolis prevaleça, que o Bispo de Alexandria tenha jurisdição em todos estes, uma vez que o mesmo é de costume para o bispo de Roma também. Da mesma forma em Antioquia e as outras províncias, que as Igrejas mantenham seus privilégios.” (Cânon VI)

Concorda com a história, e mostra que Alexandria tinha autoridade sobre os territórios e Roma da mesma forma, por que era o mesmo costume, pois desde o início esse território era de Roma.

 

4 - A INTERPRETAÇÃO DO EPÍTOME


 

A interpretação protestante bem como sua exegese é influencia por outra má interpretação do epítome desde mesmo cânon. O epítome, para quem não conhece, é um “resumo” feito por algum autor antigo simplificando o significado de cada cânone.

Vejamos a tradução protestante do epítome

"The Bishop of Alexandria shall have jurisdiction over Egypt, Libya, and Pentapolis.  As also the Roman bishop over those subject to Rome. So, too, the Bishop of Antioch and the rest over those who are under them.  If any be a bishop contrary to the judgment of the Metropolitan, let him be no bishop.  Provided it be in accordance with the canons by the suffrage of the majority, if three object, their objection shall be of no force." (Antiga Epítome do Cânon VI – CCEL – em nota)

O texto diz “As also the Roman bishop over those subject to Rome”, Tradução “Como também o Bispo Romano sobre aqueles sujeitos a Roma”.

Primeiro o texto diz que Alexandria deveria ter jurisdição sobre o Egíto, Líbia e Pentapolis, Focamos então aqui nos termos “Sujeitos a Roma”. Mas ora, quais eram os territórios sujeitos a Roma? Vejamos quais eram:


Extensão do império Romano [1]


 

Todos esses territórios eram governados pelo imperador Romano até a reforma de Dioclesiano, por isso o epítome fala “Sujeitos a Roma”. Os territórios sujeitos a Roma que o epítome fala inclui os mesmos territórios que Alexandria governava "Egito, Líbia e Pentapolis". Portando não se pode separar a história em volta do cânone focando apenas no texto em si do epítome como se imagina a primeira vista.

 

5 - CONCLUSÃO


Como vemos a intepretação do cânon dado no grego por nós, concorda exatamente com a história e com a geografia política da época. Pra se entender um cânone sobre o que quer que seja ou de qualquer concílio, primeiro tem que se pegar o contexto histórico para aplicar à exegese e entender o que o concílio quer dizer.

Apesar da exegese apresentada pelo site protestante, parecer a primeira vista algo que se possa crer como correto, ao passarmos a limpo junto a história e geografia política da época, vemos que pode ser totalmente descartada.

 

NOTAS


 

[1] http://www.roman-empire.net/

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