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A Heresia do Sono da Alma na Igreja Primitiva

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Por volta de meados do século III, surgiu uma heresia que, de forma semelhante ao que hoje pregam certos grupos mortalistas, ensinava que após a morte do corpo, a alma também “morreria”, “pereceria” ou entraria em um estado de inconsciência — um “sono” — até ser ressuscitada juntamente com o corpo no fim dos tempos, durante o juízo final.

O historiador Thomas Wright, em sua obra Early Christianity in Arabia (Cristandade Primitiva na Arábia), identifica a origem dessa perigosa doutrina:

“Agbarus, tão celebrado nos anais dos primeiros cristãos, foi um príncipe do território de Edessa, e o Cristianismo já havia feito algum progresso no deserto na época de Arnóbio. Bispos de Bostra (Basra), considerada como uma cidade árabe, são mencionados nos registros antigos. A tribo dos gassânidas era conhecida por sua precoce adesão à fé cristã; e durante o curto reinado do imperador Filipe, a Arábia foi notada como a mãe de uma heresia perigosa, a qual ensinava que as almas expiravam e sofriam corrupção juntamente com o corpo, e que, na ressurreição geral, ambos seriam revividos juntos.“.” — (Wright, Early Christianity in Arabia, p. 74)
[Fonte: https://archive.org/details/earlychristianit00wrig]

O historiador eclesiástico Eusébio de Cesaréia também menciona essa doutrina, relatando que ela foi combatida em um concílio realizado na cidade de Bostra. Segundo Eusébio, Orígenes esteve presente e conseguiu refutar os defensores do erro:

Apareceram ainda, na Arábia, no tempo a que nos referimos, introdutores de uma doutrina alheia à verdade. Asseveravam que a alma humana neste mundo, no momento final, morre provisoriamente com o corpo e com ele se corrompe, mas que no futuro, por ocasião da ressurreição, reviverá com ele. Foi então convocado um importante concílio. Orígenes foi novamente chamado, e após discursar diante da assembleia sobre a questão disputada, conseguiu alterar o modo de pensar daqueles que haviam sido iludidos.” — (História Eclesiástica, Livro VI, 37)

Essa seita não afirmava literalmente que a alma deixava de existir, mas sim que ela entrava em um estado de inconsciência — uma espécie de “morte temporária” — entre a morte física e a ressurreição. Essa concepção, embora menos radical que o aniquilacionismo, ainda persiste em certos grupos protestantes modernos, que defendem o chamado “sono da alma” como estado intermediário.

A Enciclopédia Católica também registra esse episódio em Bostra:

Em 246 e 247, dois concílios foram realizados em Bostra, na Arábia, contra Beryllus, bispo local, e outros que ensinavam que a alma perecia e só ressuscitava com o corpo. Orígenes esteve presente nesses sínodos e conseguiu convencer os hereges de seus erros.” — (Enciclopédia Católica, verbete “Concílio da Arábia”) [Fonte: http://www.newadvent.org/cathen/01674b.htm]

O patrologista Johannes Quasten, em sua Patrologia (Tomo I, pp. 375–377), resume o episódio da seita arábica:

A reunião, que não teve caráter oficial nem judicial, ocorreu numa igreja na Arábia, por volta do ano 245, com a presença de bispos e fiéis. Orígenes parece ter atuado com plena autoridade como doutor da Igreja.

O historiador protestante Adolf Harnack, em sua obra Mission und Ausbreitung des Christentums (1902), também menciona essa controvérsia. Outro autor que a aborda é Barônio, em seus Anais Eclesiásticos (seções 6–8).

É relevante mencionar que, segundo o teólogo Robert Morey, o aniquilacionismo — a ideia de que os ímpios deixam de existir após a morte ou o juízo final — teve seu primeiro defensor notório em Arnóbio, apologista cristão do século IV:

A teoria do aniquilacionismo, segundo a qual os ímpios passam à inexistência, seja na morte ou na ressurreição, foi apresentada pela primeira vez por Arnóbio, um apologista ‘cristão’ do século IV, de acordo com obras de referência padrão como o Baker’s Dictionary of Theology (p. 184).” — (Morey, Death and the Afterlife, p. 199, 1984)

Anos mais tarde, a negação do inferno eterno — doutrina muitas vezes associada ao “sono da alma” ou ao aniquilacionismo — foi formalmente condenada no Segundo Concílio de Constantinopla, embora no contexto da heresia da apocatástase (restauração universal):

Se alguém diz ou pensa que a punição dos demônios e de homens ímpios é apenas temporária, e um dia terá fim, e que uma restauração (ἀποκατάστασις) abrangerá demônios e homens ímpios, que ele seja anátema.

Anátema a Orígenes e a Adamantius, que estabeleceram estas opiniões em conjunto com a sua doutrina nefasta, execrável e má e a quem pense assim, ou defenda essas opiniões, ou de qualquer forma daqui por diante em qualquer tempo a quem tiver a presunção de protegê-los.— (Segundo Concílio de Constantinopla, Cânon IX)

CONCLUSÃO


A heresia do “sono da alma”, surgida na Arábia no século III, foi amplamente rejeitada pela Igreja primitiva, que reconhecia a imortalidade da alma como parte essencial da fé cristã. A atuação de Orígenes nos concílios de Bostra demonstra não apenas a oposição eclesial a essa doutrina, mas também o compromisso da Igreja em preservar a verdade revelada contra desvios doutrinais.

Embora hoje essa crença reapareça em alguns círculos religiosos modernos — especialmente entre grupos que defendem um “estado intermediário de inconsciência” —, a Tradição da Igreja, os testemunhos dos Padres da Igreja e os concílios antigos permanecem claros: a alma sobrevive à morte do corpo e permanece consciente até a ressurreição final.

O combate a essa heresia desde seus primórdios é um testemunho da fidelidade da Igreja à doutrina apostólica e ao ensinamento de Cristo, que afirmou: Deus não é Deus de mortos, mas de vivos” (Mt 22,32).

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