Quinta-feira, Março 5, 2026
Siga-nos

Sola Scriptura × Cânon Bíblico

12
0

Após Martinho Lutero formular o princípio doutrinário da Sola Scriptura, os protestantes passaram a repetir, ao longo dos séculos, que a Bíblia é a única fonte de fé da qual se podem extrair doutrinas e ensinamentos cristãos. Com base nesse princípio, toda vez que desejam atacar uma doutrina católica, recorrem à pergunta padrão: “Onde está isso na Bíblia?”. Se o católico não consegue apresentar um versículo explícito, concluem, então, que tal doutrina é falsa ou humana.

Entretanto, esse raciocínio revela uma incoerência interna grave. Mesmo que, por hipótese, reduzíssemos toda a Revelação cristã exclusivamente às Escrituras, ainda restaria uma questão fundamental: como saber quantos e quais são os livros inspirados que compõem a própria Bíblia? A resposta a essa pergunta não se encontra em lugar algum dentro das Escrituras. Em outras palavras, a definição e a delimitação do Cânon Bíblico, algo absolutamente essencial para a fé cristã, é um ensinamento que está fora da Bíblia.

Assim, surge um dilema insolúvel para o princípio da Sola Scriptura: se a Bíblia é a única regra de fé, onde a própria Bíblia ensina qual é o seu cânon? Onde está a lista dos livros inspirados que os protestantes utilizam? Como poderiam provar, segundo o princípio adotado por Lutero, que sua Bíblia contém exatamente, e somente, os livros inspirados por Deus? Vejamos alguns exemplos do próprio Lutero e sua incoerência.

No debate de Leipzig, contra o Dr. Johan Eck, (quando Lutero estava tentando salvar resto de reputação de seu amigo Carlostad da humilhação em um debate anterior com Eck), Lutero pede um versículo que prove o purgatório nas Escrituras, rapidamente o Dr. Eck lança II Macabeus 12, 46 como prova explícita do purgatório. Certo de uma vitória, Eck ficou chocado quando Lutero rapidamente quebrou as regras do debate rejeitanto II Macabeus. O que o próprio renomado teólogo protestante Albert Sundberg Jr. chama de “argumento de desespero”:

““Um ano mais tarde Lutero continuou nesta posição em seus debates em Leipzig. Foi enquanto debatendo a doutrina do purgatório que Lutero foi pego em sua própria armadilha. Eck confrontado Lutero com o texto da II Macabeus 12, 46: “Portanto, ele fez expiação pelos mortos, para que pudessem ser livres de seus pecados.” Este texto era a base bíblica sobre a qual a Igreja romana tinha em grande parte baseado a sua doutrina do purgatório. Lutero não pôde evitar a leitura, nem negar que a Igreja tinha aceito este livro. Assim pressionado, Lutero lançou um argumento de desespero. Ele negou o direito da igreja para decidir sobre questões de canonicidade; canonicidade, argumentou ele, é determinada apenas pelo merecimento interno de um livro. (Sundberg, The Bible Canon and the Christian Doctrine of Inspiration. Pg 353-354)

Escolher quais livros aceitar ou rejeitar é, sem dúvida, extremamente conveniente. Nesse sentido, a chamada Sola Scriptura deixa de ser um princípio que busca compreender o que a Escritura realmente ensina e passa a ser, na prática, a imposição daquilo que o intérprete quer que ela diga. O resultado é a construção de argumentos arbitrários, desconectados da fé da Igreja primitiva e, não raro, sustentados mesmo contra o testemunho histórico unânime dos primeiros cristãos, inclusive quando esse testemunho é desfavorável à posição adotada.

Martinho Lutero afirma que para um livro ser canônico ele precisa possuir um suposto “merecimento interno”. Contudo, o que exatamente significa esse “merecimento”? E, mais importante ainda: quem é o juiz capaz de avaliá-lo? Ao retirar da Igreja a autoridade de discernir o cânon, cria-se um ciclo vicioso no qual o indivíduo se torna, ao mesmo tempo, juiz, critério e fonte da própria autoridade. No protestantismo, essa autoridade acaba sendo, em última instância, a vontade subjetiva do próprio intérprete.

O mesmo problema reaparece em sua doutrina da Sola Fide (“somente a fé”). Lutero rejeita a Epístola de São Tiago justamente porque ela refuta de modo direto e inequívoco essa tese, ao afirmar que “o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé” (Tg 2,24). Para escapar dessa contradição, Lutero declara que Tiago não seria um verdadeiro escrito apostólico, alegando que o texto ensinaria uma suposta “justificação pelas obras”.

Assim, quando a Escritura concorda com sua teologia, ela é aceita; quando a contradiz, é rebaixada, relativizada ou descartada. O critério deixa de ser a fé recebida da Igreja apostólica e passa a ser a adequação do texto à doutrina previamente assumida, invertendo completamente a ordem da autoridade cristã. Nos seus prefácios as traduçãões do novo testamento Lutero diz sobre Tiago:

Em primeiro lugar, é terminantemente contra São Paulo e todo o resto da Escritura em atribuir a justificação às obras. Ela diz que Abraão foi justificado por suas obras, quando ofereceu seu filho Isaac, embora em Romanos, São Paulo ensine o contrário, que Abraão foi justificado sem as obras, por sua fé, antes que ele tivesse oferecido seu filho, e prova isso por Moisés em Gênesis 15. Agora, embora esta epístola pode ser ajudada e uma interpretação concebida para essa justificação pelas obras, não pode ser defendida em sua aplicação às obras da declaração de Moisés em Gênesis 15. Pois, Moisés está falando aqui apenas da fé de Abraão, e não de suas obras, como São Paulo demonstra em Romanos. Esta falha, portanto, prova que esta epístola não é o trabalho de qualquer apóstolo.”

Nas Conversas de Mesa (Table Talk), Lutero chega a chamar a Epístola de São Tiago de “epístola de palha”. Do mesmo modo, também dirigiu severas críticas ao livro do Apocalipse, afirmando que nele “Cristo não é nem ensinado nem conhecido”, razão pela qual demonstrava grande desconfiança quanto ao seu valor canônico.

Além disso, Lutero manifestou reservas e críticas a outros livros das Escrituras, como a Epístola de Judas e o livro de Ester, este último por sequer mencionar explicitamente o nome de Deus. Tais posições evidenciam que sua avaliação do cânon bíblico não se baseava na Tradição recebida da Igreja primitiva, mas em critérios pessoais e teológicos previamente estabelecidos.  Mais informações e referências podem ser lidas aqui:https://apologistascatolicos.com.br/lutero-tinha-o-mesmo-canon-biblico-que-seus-seguidores-protestantes-2/

O Cânon Bíblico é, portanto, a verdadeira pedra no sapato do protestantismo, pois demonstra que a Sola Scriptura é uma doutrina autorreferencialmente contraditória. Não apenas não existe um único versículo que afirme que a Bíblia é a única regra de fé, como também a própria existência da Bíblia, tal como a conhecemos hoje, depende de uma autoridade externa a ela: a Tradição viva da Igreja e o Magistério que, ao longo dos séculos, discerniu, preservou e definiu os livros inspirados.

Se a Bíblia fosse autossuficiente nesse sentido, seria razoável esperar que contivesse ao menos uma seção dedicada a enumerar os livros que deveriam compô-la. Mas não há tal lista. Logo, crer somente na Bíblia implica aceitar, implicitamente, uma autoridade fora da Bíblia, exatamente aquilo que a Sola Scriptura pretende negar.

Essa dificuldade já era claramente percebida pelos santos e doutores da Igreja muito antes dos debates modernos. São Francisco de Sales, por exemplo, questionava os protestantes de sua época com notável lucidez:

… Peço-vos, reformadores, digam-me: de onde retirastes o cânon das Escrituras que seguis? Não o recebestes dos judeus, pois os Evangelhos não estão no cânon judaico; nem do Concílio de Laodiceia, pois nele não se encontra o Apocalipse; nem dos Concílios de Cartago ou de Florença, pois neles constam o Eclesiástico e os Macabeus. De onde vem, então, o que recebestes? Sinceramente, tal cânon jamais foi conhecido antes do vosso tempo. A Igreja nunca reconheceu um cânon das Escrituras com mais ou com menos livros do que o vosso. Que probabilidade há de que o Espírito Santo tenha se ocultado durante toda a antiguidade e, após 1500 anos, tenha revelado a certas pessoas particulares a lista correta das Escrituras?(São Francisco de Sales – A Controvérsia Católica)

Diante disso, torna-se evidente que seria muito mais simples, coerente e historicamente honesto aceitar a autoridade da Igreja que Cristo fundou e receber dela o autêntico cânon cristão, do que criar verdadeiros emaranhados de argumentos artificiais para sustentar um princípio que não apenas carece de fundamento bíblico, mas que entra em colapso ao ser confrontado com a própria existência da Bíblia que pretende defender.

A Sola Scriptura, longe de proteger a autoridade das Escrituras, protege as apenas ideias pertinazes do leitor, e acaba por miná-la, mutilá-la e ridicularizá-la, pois separa a Bíblia da Igreja que a gerou, a preservou e a transmitiu fielmente ao longo dos séculos.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigos mais populares