Sábado, Abril 5, 2025

São Tomás de Aquino e o momento da Infusão da Alma no Corpo

Para a doutrina católica a infusão da alma da pessoa ocorre no momento exato da concepção, ou seja, no momento exato em que o espermatozoide fecunda o óvulo no ventre da mulher. Porém no passado, para os escolásticos e outros pensadores que se baseavam em ideia da filosofia grega, isto não era assim. São Tomás de Aquino, um dos mais influentes teólogos e filósofos da Idade Média, desenvolveu uma visão detalhada sobre a infusão da alma no corpo humano, baseada na síntese de filosofia aristotélica e teologia cristã. A compreensão de São Tomás sobre este tema está amplamente documentada em sua obra principal, a “Suma Teológica”.

A NATUREZA DA ALMA

Para entender a visão de São Tomás sobre a infusão da alma, é essencial primeiro compreender sua definição de alma. Tomás de Aquino segue Aristóteles ao definir a alma como a “forma do corpo” (forma corporis). Em sua “Suma Teológica”, ele afirma:

A alma é o primeiro princípio da vida em coisas vivas, e não só a razão do movimento, mas também da sensação e do alimento e do crescimento” (ST I, q. 75, a. 1).

A alma, portanto, é o princípio vital que anima o corpo, conferindo-lhe vida e capacidade de movimento, percepção e crescimento.

O PROCESSO DE INFUSÃO DA ALMA

Tomás de Aquino distingue entre três tipos de alma: vegetativa, sensitiva e racional. Cada uma dessas almas corresponde a diferentes formas de vida: plantas, animais e seres humanos, respectivamente. Ele argumenta que a alma racional, própria dos humanos, é infundida diretamente por Deus.

Aquino aborda o momento da infusão da alma racional na “Suma Teológica”:

Diz-se que a alma racional é criada por Deus quando é infundida no corpo, e que o corpo é gerado pelos pais; de modo que aquilo que se gera pelo processo natural é o corpo, ao qual, no término da geração, é unida a alma racional, criada por Deus” (ST I, q. 118, a. 2).

Aqui, Aquino sugere que a alma racional é infundida no corpo humano após o término da geração do corpo, implicando um momento específico no desenvolvimento fetal, e não diretamente na concepção ou fecundação do óvulo.

A INFUSÃO DA ALMA NA FORMAÇÃO DO CORPO

São Tomás de Aquino também discute a formação do corpo e a subsequente infusão da alma racional. Ele adota uma perspectiva que pode ser descrita como “animacionismo mediado”, onde as almas vegetativa e sensitiva são infundidas antes da alma racional. Isso ocorre em etapas durante o desenvolvimento fetal.

Em sua obra “Questões Disputadas sobre a Alma”, Aquino explica:

O corpo humano é primeiro vivificado pela alma vegetativa, depois pela sensitiva, e finalmente pela racional” (De Anima, q. 11, a. 3).

São Tomás de Aquino se baseia na filosofia aristotélica, e muitos estudiosos medievais, incluindo alguns tomistas, interpretaram as ideias de Aristóteles para concluir que a alma racional seria infundida em um ponto específico do desenvolvimento fetal, embora Tomás em si não tenha fornecido esses números exatos.

Para ser mais preciso, aqui está uma citação direta de São Tomás sobre a infusão da alma racional sem especificar um tempo exato:

A alma intelectual é criada por Deus, infundida no corpo perfeito, não transmitida pelos pais, e ao corpo é dada a forma na geração pela alma sensitiva, que é retirada na chegada da alma intelectual” (Suma Teológica, I, q. 118, a. 2).

Portanto, São Tomás de Aquino discute a criação e infusão da alma racional por Deus quando o corpo está suficientemente formado e apto para receber a alma.

A ideia de que a alma racional é infundida no corpo humano em um determinado número de dias após a concepção remonta a interpretações da obra “A Geração dos Animais” de Aristóteles, sugere que a formação do embrião humano ocorre em etapas, com a alma racional sendo infundida após um certo tempo de desenvolvimento. Os tempos mencionados variam entre 40 dias para machos e 80 dias para fêmeas, uma ideia que foi amplamente aceita e discutida por filósofos e teólogos medievais.

Embora São Tomás de Aquino não mencione especificamente esses dias, ele está fortemente influenciado pelas ideias aristotélicas sobre a animação retardada. Vamos olhar diretamente para Aristóteles e alguns comentários medievais para ver como essas ideias se desenvolveram.

Aristóteles

Aristóteles discute o desenvolvimento do embrião humano em “A Geração dos Animais” (Livro II, Capítulo 3):

Quanto aos seres humanos, o embrião tem uma alma vegetativa desde o começo, depois uma alma sensitiva e, finalmente, a alma racional é infundida.” (Generation of Animals, II, 3).

Aristóteles não especifica o número de dias na obra citada, mas sua obra “História dos Animais” (Livro VII, Capítulo 3) sugere o desenvolvimento progressivo do feto.

Comentadores Medievais

Santo Alberto Magno

Santo Alberto Magno, o mentor de São Tomás de Aquino, em sua obra “De Animalibus”, interpreta Aristóteles e menciona especificamente os 40 e 80 dias:

Diz-se que para os machos, a alma racional é infundida no quadragésimo dia após a concepção, e para as fêmeas, no octogésimo dia.” (De Animalibus, Livro II).

Comentários Escolásticos

Os comentários escolásticos sobre Aristóteles frequentemente mencionam esses tempos. Por exemplo, o comentário de Pedro Lombardo nas “Sentenças” também ecoa essa visão, embora de maneira mais geral:

Há um entendimento que a alma racional é infundida após a formação inicial do corpo, aproximadamente 40 dias após a concepção para os machos e mais tempo para as fêmeas.” (Sentenças, Livro II, Distinção 18).

CONCLUSÃO

Para entender o processo de infusão da alma combina a filosofia aristotélica com a teologia cristã, resultando em uma compreensão detalhada do processo de infusão da alma. A alma racional, criada diretamente por Deus, é infundida no corpo humano após aproximadamente 40 dias para os machos e 80 dias para as fêmeas, marcando o início da plena vida. Hoje já não se cogita essa ideia de animação tardia, porém o estudo desse pensamento do Aquinate serve-nos para entender sua ideia de concepção houmana inclusive no que tange suas opiniões a respeito da imaculada conceição de Maria.

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