Sexta-feira, Março 6, 2026
Siga-nos

Refutando acusações contra o livro da Sabedoria

4
0

É cada vez mais comum encontrar, especialmente na internet, apologistas protestantes tentando justificar a rejeição dos sete livros deuterocanônicos por meio de argumentos frágeis, anacrônicos e, não raro, intelectualmente desonestos. Tais críticas, além de carecerem de base histórica sólida, costumam apoiar-se em acusações superficiais ou claramente equivocadas, que acabam por atingir, por consequência lógica, os próprios livros que esses mesmos críticos aceitam como inspirados. 

Anteriormente já publicamos refutações as acusações contra outros livros aqui, desta vez vamos tratar acusações contra o livro da Sabedoria, que é um livro de mais clara inspiração e utilização pelos apóstolos.  

Acusação:

SABEDORIA DE SALOMÂO (40 a.C). Livro escrito com finalidade exclusiva de lutar contra a incredulidade e idolatria do epicurismo (filosofia grega na era Cristã)”.

Esse é um pequeno comentário, mas que traz diversos erros e inverdades.

Primeiro erro: o livro da Sabedoria não tem nenhuma finalidade de lutar contra o epicurismo, e sim tratar da própria Sabedoria, como já foi explicado.

Segundo erro: o livro da Sabedoria não foi escrito em 40 a.C. A crítica moderna data a inscrição do livro entre o ano 150 a.C e 50 a.C.

Terceiro erro: o epicurismo não é filosofia grega da era cristã, pois ele surgiu no século IV a.C com o filósofo ateniense Epicuro de Samos. O epicurismo é o que conhecemos hoje como “autoajuda”.

Quarto erro: o epicurismo não é nenhuma forma de idolatria, e sim um sistema filosófico, apesar de seus filósofos serem pagãos gregos. Desse modo, o autor do livro não teria por que se preocupar tanto assim com ele a ponto de tê-lo escrito só com a finalidade de combatê-lo. O sistema filosófico do epicurismo buscava acima de tudo encontrar o sossego necessário para uma vida feliz e em paz na qual os temores perante o destino não existem, onde os deuses ou a morte estavam definitivamente eliminados. Nada disso é tratado no livro da Sabedoria.

Acusação:

O Ensino do Purgatório Sabedoria 3, 1-4. A Igreja Católica baseia a sua crença da doutrina do purgatório nestes versículos citados. Pois a igreja interpreta isso, declarando que após suficiente tempo de sofrimento no meio do fogo, poderão passar para o céu. I João 1, 7. Esse ensino aniquila completamente a expiação de Cristo. Se o pecado pudesse ser extinguido pelo fogo, não teríamos necessidade do nosso Salvador.

O protestantismo acaba se vendo diante de uma contradição difícil de contornar quando o assunto é o Livro da Sabedoria. Em determinados momentos, seus defensores recorrem ao texto de Sabedoria 3,1 “as almas dos justos estão nas mãos de Deus, e nenhum tormento as tocará” para afirmar que o livro negaria qualquer ideia de purificação pós-morte, sendo, portanto, incompatível com a doutrina católica do purgatório. Entretanto, mas agora, são os próprios protestantes que, “acusam” o mesmo livro de ensinar o purgatório, usando-o como argumento para rejeitá-lo do cânon, corência é algo que não vemos dentro do protestantismo.

Vamos analisar os versículos citados e os posteriores a eles:

Mas as almas dos justos estão na mão de Deus, e nenhum tormento os tocará. Aparentemente estão mortos aos olhos dos insensatos: seu desenlace é julgado como uma desgraça. E sua morte como uma destruição, quando na verdade estão na paz! Se aos olhos dos homens suportaram uma correção, a esperança deles era portadora de imortalidade, e por terem sofrido um pouco, receberão grandes bens, porque Deus, que os provou, achou-os dignos de si. Ele os provou como ouro na fornalha, e os acolheu como holocausto.” (Sabedoria 3, 1-6).

Essa passagem  diz exatamente o mesmo que Paulo em Coríntios:

Contudo, se o que alguém edifica sobre o fundamento é ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, manifesta se tornará a obra de cada um; pois o Dia a demonstrará, porque está sendo revelada pelo fogo; e qual seja a obra de cada um o próprio fogo o provará. Se permanecer a obra de alguém que sobre o fundamento edificou, esse receberá galardão; se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele dano; mas esse mesmo será salvo, todavia, como que através do fogo.” (I Coríntios 3, 15).

São os mesmos ensinamentos, tanto na Sabedoria, quanto no escrito de Paulo. Nesta, como em todas as acusações já vistas, o acusador demonstra mais uma vez a sua ignorância a respeito das doutrinas católicas. A doutrina do Purgatório de maneira nenhuma aniquila a obra de Cristo, mas muito ao contrário, sabemos muito bem que nada de impuro pode entrar no céu:

Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.” (Mateus 5, 8).

onde nada de impuro entrará”. (Apocalipse 21,27).

Se uma pessoa morre com alguma mancha de pecado, como ela entraria no céu, estando impura? O Catecismo da Igreja Católica ensina:

Os que morrem na graça e na amizade de Deus, mas não estão completamente purificados, embora tenham garantida sua salvação eterna, passam, após sua morte, por uma purificação, a fim de obter a santidade necessária para entrar na alegria do Céu.” (Catecismo da Igreja Católica – Parágrafo 1030).

Logo, a doutrina do purgatório não tem nada de anulação do sacrifício de Cristo, uma vez que o purgatório é justamente para aqueles que foram salvos por Cristo, porém, que morreram com pecados leves.

Se alguém vê seu irmão cometer um pecado que não conduz à morte, que ele ore e Deus dará a vida a este irmão, se, de fato, o pecado cometido não conduz à morte. Existe um pecado que conduz à morte, mas não é a respeito deste que eu digo que se ore.” (I João 5, 17).

Os outros livros das Escrituras ensinam a mesma coisa que o livro da Sabedoria, e também ensinam que certos pecados serão perdoados após a morte:

Se alguém disser alguma palavra contra o Filho do homem, isso lhe será perdoado; mas se alguém falar contra o Espírito Santo, não lhe será perdoado, nem neste mundo, nem no vindouro(Mateus 12,32).

Em verdade te digo que de maneira nenhuma [sairás] dali enquanto não pagares o último ceitil.(Mateus 5,26).

Se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele prejuízo; mas o tal será salvo todavia como que pelo fogo(I Coríntios 3,15).

Será que todos esses livros também são apócrifos e anulam o sacrifício de Cristo? Mais uma vez é constatado que o livro da Sabedoria não tem nada de diferente dos outros livros. Os acusadores querem negar os ensinamentos dos livros simplesmente porque eles não querem aceitar esses ensinamentos.

Acusação:

O corpo como prisão da alma” (Sabedoria 9, 15).

O livro da Sabedoria não ensina nem nunca ensinou o corpo como “prisão da alma”. O que ele faz é sobrepor o valor espiritual em relação ao carnal. Outra vez esta é mais uma acusação que invalida outros livros da Bíblia. A passagem citada diz:

porque o corpo corruptível torna pesada a alma, e a morada terrestre oprime o espírito carregado de cuidados.” (Sabedoria 9, 15).

Se esse versículo ensina algo de errado, então, será obrigatório retirar do cânon das Escrituras a carta aos Romanos e a de II Coríntios, pois estas informam o mesmo:

Sinto, porém, nos meus membros outra lei, que luta contra a lei do meu espírito e me prende à lei do pecado, que está nos meus membros. Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte.” (Romanos 7, 23-24).

Por isso, estamos sempre cheios de confiança. Sabemos que todo o tempo que passamos no corpo é um exílio longe do Senhor.” (II Coríntios 5, 6).

Mas temos confiança e desejamos antes deixar este corpo, para habitar com o Senhor.” (II Coríntios 5, 8).

Será que Paulo está ensinando algo errado? Seriam esses dois livros também apócrifos? Antes de tudo, o acusador acabou dando um “tiro” no próprio “pé”, pois, ao invés de levantar um argumento que invalidaria o livro da Sabedoria, acabou por trazer um argumento contra os próprios livros que ele aceita, pois Paulo propagava os mesmos ensinamentos contidos no livro da Sabedoria.

Acusação:

Doutrina estranha sobre a origem e o destino da alma (Sabedoria 8, 19-20) (preexistência da alma antes de se ter um corpo.)

O texto referido:

Eu era jovem de boas qualidades, coubera-me, por sorte, uma boa alma; ou antes, sendo bom, tinha vindo num corpo sem mancha. Ao me dar conta de que somente a ganharia, se Deus ma concedesse – E já era sinal de entendimento sobre a origem deste favor – dirigi-me ao Senhor e rezei, dizendo de todo meu coração” (Sabedoria 8, 19-21).

Nada há nesse texto que se refira a “preexistência da alma” ou “origem e destino”; tal incriminação demonstra total desconhecimento do texto. Lendo o contexto em que está inserido esse versículo, vemos o autor relatando quando ele pediu a sabedoria e como pediu por ela. 

Nas notas de Rodapé da “Nova Bíblia Americana”, a interpretação do versículo vem da seguinte maneira:

Aqui o escritor sagrado menciona primeiro o corpo, em seguida a excelência espiritual. Deixa claro que este último é o fator que governa o desenvolvimento harmonioso da pessoa humana, ele então inverte a ordem.”

As notas da Bíblia de Jerusalém descrevem:

Este texto não ensina a preexistência da alma como se poderia crer, se fosse isolado do contexto. Ele corrige a expressão do v.19, que parecia dar prioridade ao corpo como sujeito pessoal, e sublinha a proeminência da alma” (Nota ‘e’. pg 860).

Em outras palavras, o escritor está dizendo que ele era bom e que ele não fez coisas para profanarem seu corpo, elevando sua alma e, portanto, apto a receber a “alma” da sabedoria. Uma coisa que nos leva a salientar isso, é que no início desse mesmo livro, o escritor diz a mesma coisa, só que de maneira diferente:

A Sabedoria não entrará na alma perversa, nem habitará no corpo sujeito ao pecado” (Sabedoria 1, 4).

É curioso notar que, embora muitos protestantes não aceitem o Livro da Sabedoria como inspirado, ainda assim se sentem no direito de interpretá-lo e afirmar o que ele supostamente ensina.

O Peso da Comparação com Jeremias e Hebreus

Se realmente se quer defender que Sabedoria ensina a preexistência da alma, seria necessário dizer o mesmo de outros livros aceitos pelos protestantes, como Jeremias e Hebreus.

Em Jeremias lemos:

Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio, eu te consagrei.” (Jr 1,5)

E em Hebreus:

Levi, que recebe os dízimos, também os pagou, por assim dizer, em Abraão; pois ainda estava nos lombos de seu pai.” (Hb 7,9-10)

Ora, Jeremias não existia antes de ser formado, mas Deus já o conhecia em sua presciência eterna. Da mesma forma, Levi não existia de fato quando Abraão pagou os dízimos, mas a Escritura fala de forma figurada, mostrando a continuidade da linhagem.

Curiosamente, para Jeremias e Hebreus os protestantes sempre apelam à presciência de Deus ou à linguagem figurada. Mas quando se trata do Livro da Sabedoria, a mesma leitura razoável desaparece, e o texto é interpretado de maneira arbitrária como se fosse “doutrina platônica”.

Seguindo a mesma lógica usada pelos críticos protestantes, poderíamos então dizer que o Livro de Jó também ensina a preexistência da alma, já que descreve poeticamente sendo “vestido” de pele e carne:

As tuas mãos me formaram e me fizeram… Não me derramaste como leite e não me coalhaste como queijo? De pele e carne me vestistede ossos e nervos me tecesteVida e misericórdia me concedeste; e o teu cuidado guardou o meu espírito.” (Jó 10,8-12)

Contudo, ninguém interpreta esse texto como prova da preexistência da alma. Os próprios protestantes reconhecem aqui uma linguagem figurada, que descreve o processo de formação do ser humano no ventre materno. Ou seja, quando se trata de Jó, admitem sem dificuldade que o texto fala do desenvolvimento do feto e não de uma alma que já existia sendo ves5tida de carne.

O curioso é que essa mesma benevolência interpretativa não é concedida ao Livro da Sabedoria: nele, preferem forçar uma leitura platônica inexistente, em vez de reconhecer o mesmo recurso poético e sapiencial presente em Jó.

Acusação:

Salvação pela sabedoria” (Sabedoria 9, 19).

Esse texto se encontra no versículo 18, e não no 19. O capítulo 8 só vai até o versículo 18:

Assim se tornaram direitas as veredas dos que estão na terra; os homens aprenderam as coisas que vos agradam e pela sabedoria foram salvos.” (Sabedoria 9, 18). 

Mais uma incriminação onde o tiro saiu pela culatra. Se esse versículo está ensinando algo de errado e, por isso, não é canônico, Provérbios e Isaías também não o são, pois fazem o mesmo ensino:

O que confia no seu próprio coração é insensato, mas o que anda em sabedoria, será salvo.(Provérbios 28, 26).

Teus dias estarão em segurança. A sabedoria e o conhecimento garantem a salvação, e o temor do Senhor será o seu tesouro.(Isaías 33, 6).

O que é preciso compreender, é que todos esses versículos estão ensinando que a sabedoria salvará a pessoa das coisas más; nada têm a ver com a salvação eterna da alma, como supõe a crítica protestante.

Acusação:

Criação a partir da matéria, ao invés do nada! (Sabedoria 11, 17.) Esse trecho é brutal, pois contradiz a palavra do Senhor que diz a criação ter sido a partir do nada! (Gênesis 1:1, Salmos 33:6-9 e Hebreus 11:3).

No trecho citado, lê-se o seguinte:

Não teria sido difícil à tua mão todo-poderosa, que criou o mundo da matéria informe, soltar contra eles bandos de ursos ou leões audazes ...” (Sabedoria 11, 17).

Para entender melhor o texto citado, é necessário partir para o original grego:

οὐ γὰρ ἠπόρει ἡ παντοδύναμός σου χεὶρ καὶ κτίσασα τὸν κόσμον ἐξ ἀμόρφου ὕλης ἐπιπέμψαι αὐτοῖς πλῆθος ἄρκων ἢ θρασεῖς λέοντας

A palavra Grega Κοσμος (cosmos), em negrito no texto, significa “universo” ou “ordem” e é a palavra mais antiga usada para se referir a “mundo” ou “universo”. Hoje, essa palavra surge mais comumente como sinônimo para “universo”.

No grego arcaico, cosmos significava ordem. O primeiro a aplicar o termo em referência ao universo foi Pitágoras; ele reconheceu que o universo é inerentemente em ordem e harmonioso. Entretanto, a história da criação Grega original enfatiza o trazer ordem do caos, por isso, essa ideia não era nova, mesmo para ele.

O Novo Testamento também usa a palavra cosmos para significar o conceito de “mundo”. Contudo, a Bíblia também usa o termo, oikoumene, para significar especificamente o mundo desabitado. Oikoumene descreve o mundo como um lugar onde pessoas vivem, enquanto cosmos descreve o mundo como um lugar de ordem.

Jesus Cristo usa a palavra cosmos num contexto muito importante: “Eu sou a Luz do mundo” (João 8, 12). Nesse verso, a palavra “mundo” é cosmos. Portanto, Jesus não está somente se identificando como a fonte de Luz, mas Ele está “também” lembrando aos Seus ouvintes que Ele é a fonte da “ordem” no mundo. (CRIATIONWIKI, 2009).

O outro termo também em negrito “ἐξ ἀμόρφου” (ex amorpho) significa um objeto informe, ou seja, sem forma.

O autor do livro da Sabedoria não tem nenhuma razão para retirar essa matéria informe da criação de Deus, para dizer assim que já existia uma matéria antes, não criada por Deus, mas pensa, sem duvida, na organização ou ordem do mundo a partir da massa caótica que o próprio Deus previamente havia criado. Assim, uma tradução possível poderia ser “deu ordem à matéria informe”. Fazendo a comparação entre esse versículo da Sabedoria e o da criação narrada no Gênesis, vemos que eles nada têm de discordantes, mas são, sim, complementares. Confirme isso vendo os dois livros:

Não teria sido difícil à tua mão todo-poderosa, que criou o mundo da matéria informe, soltar contra eles bandos de ursos ou leões audazes...” (Sabedoria 11, 17).

No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra estava informe e vazia; as trevas cobriam o abismo e o Espírito de Deus pairava sobre as águas.” (Gênesis 1, 1-2).

Como se vê, não há nenhuma diferença entre os textos. É notável que o autor da Sabedoria em vez de usar a palavra “terra”, prefere usar “matéria informe”; já o autor do Gênesis preferiu usar o termo “terra” para essa mesma massa sem forma. Também o livro do profeta Jeremias ensina o mesmo:

Observei a terra, e eis que era sem forma e vazia; também os céus, e não tinham a sua luz.” (Jeremias 4, 23).

Novamente, vemos que não há nenhuma contradição. Somente um obstinado em acusar o livro da Sabedoria, depois de ler isso tudo, ainda continuará com tal pensamento de pé.

CONCLUSÃO

Por fim, todas as acusações aqui vistas e outras que possam surgir a partir de uma leitura vesga protestante, se resumem em: preconceito e falta de inteligência.  No fim das contas descanonizam e atingem os próprios livros que eles consideram canônicos.  

2 COMENTÁRIOS

  1. muito bom esse artigo. livro da sabedoria é no mesmo nível de conhecimento do livro de provérbios e salmos.
    o livro de macabeus contradiz o livro de Eclesiastes. Qual é o verdadeiro?

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigos mais populares