Quinta-feira, Março 5, 2026
Siga-nos

PAPA GELÁSIO E SEU SENTIMENTO SOBRE A PRESENÇA REAL DA EUCARISTIA

4
0

Aqui está como este Papa entendia a Eucaristia: « O sacramento do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo é verdadeiramente uma coisa divina, mas o pão e o vinho permanecem substancialmente na natureza do pao e vinho, e seguramente, a celebração do santo mistério não é outra coisa senão uma imagem ou similitude do sacrifício do Corpo e do Sangue de Jesus» Onde está a unidade romana?”(A. Bost. l. cit., 20.) 

Esta objeção é reproduzida por Blondell, por Basnage e por outros escritores protestantes. Compreendemos que lhes pareceu séria; mas cremos que os apologistas católicos o resolveram completamente, ao menos com relação a infalibilidade do Papa. Fixemos primeiramente o sentido das palavras.

Antes de tudo, é importante reproduzir integralmente o texto:

O sacramento do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, que nós recebemos, é uma coisa divina e torna-nos participantes da natureza divina; todavia a substância ou natureza do pão e do vinho não deixa de existir. Ora celebra-se, na ação dos mistérios, a imagem e semelhança do Corpo e Sangue de Jesus Cristo; e isto faz-nos ver com suficiente evidência que o que cremos, celebramos e tomamos na imagem de Jesus Cristo, devemos crêr em Jesus Cristo mesmo, e que, como pela operação do Santo Espírito estas coisas passam a substância divina, mas conservando as propriedades de sua natureza, elas sublinham-nos também que este mistério principal, quer dizer a Encarnação, que nos torna presente a eficácia e a virtude, consiste no fato em que as duas naturezas permanecem propriamente; e só há um Cristo que é uno, porque ele é inteiro e verdadeiro1

A principal dificuldade está nestas palavras «No entanto a substância ou natureza do pão e do vinho não deixa de existir.» Não queria o autor dizer que o pão e o vinho ficam sempre verdadeiramente na Eucaristia?

Esta palavra substância para Gelásio e os outros autores de seu século, tem diversos sentidos; distinguiremos as quatro seguintes: o primeiro é oposto ao modo, acidente. É assim que é preciso entender este axioma da metafísica: Todo modo supõe uma substância.

O segundo é oposto ao nada. “Nada anula a substância”, diz santo Agostinho, “nada absolutamente nada: quem diz qualquer coisa, diz qualquer substância”2. Neste sentido, as coisas puramente acidentais, tais como o gosto, a cor, a forma, podem portanto ser chamadas substâncias. Os escolásticos os chamam bien quidditas, essência.

A palavra substância emprega-se ainda para designar as qualidades originais, nativas, anteriores ao estado presente que falamos. “O homem pelo pecado, diz santo Agostinho, está decaído de sua substância primitiva.”3

E são Pedro Crisólogo diz-nos que a ressureição tinha mudado a substância do corpo de Jeusus Cristo, mas não na sua personalidade4A substância do homem, diz o papa Gelásio, foi depravada pelo pecado original.5

Finalmente lemos, No Lexicon philologicum de Mathias Martini, que a palavra substância designa algumas vezes uma parte determinada seja a matéria, seja a forma.6 E Ducarge assegura-nos que viu o comentador de santo Irineu meter algumas vezes substância por forma.7

Posto isto, quem impede de crer que Gelásio, na sua passagem que citamos, empregou a palavra substância como sinónimo de qualquer coisa, ou qualidade primeira, ou de forma? O sentido seria portanto este:

O sacramento do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo é verdadeiramente uma coisa divina, e no entanto o pão e o vinho não desaparecem inteiramente; fica ainda alguma coisa, quer dizer as espécies ou aparências.”

O que prova que é realmente o sentido do autor, são as palavras que ele aumente: “O pão e o vinho, pela operação do Espírito Santo, são mudados em substância divina, transeunt in divinam substantiam, mas ficando na propriedade de sua natureza”, quer dizer, conservando seus acidentes. Não está aí exatamente exprimida o dogma da transubstanciação?

Blondell faz ver que:

Gelásio quer provar contra os partisantes de Nestório e de Eutiques a realidade das duas naturezas na pessoa de Jesus Cristo, e que seu argumento para concluir supõe que a Eucaristia contém ao mesmo tempo em substância o Nosso Senhor e a matéria do sacramento

As palavras de Gelásio para ele não exprimiriam portanto a transubstanciação, mas a empanação.  Respondemos que um escritor só pretende as comparações que usa para tornar mais acessível o seu pensamento, sejam igualmente fortes e justas em todas as suas partes; é sufiente que elas estejam no ponto de vista particular sob o qual os considerem.

Os Nestorianos defendiam que era necessário admitir duas pessoas em Jesus Cristo, porque haviam nele duas naturezas. O autor negaa legitimidade desta conclusão, e para sustentar a sua negação ele cita o sacramento da Eucaristia, que inclui a natureza de duas coisas, à saber, Jesus Cristo o corpo, o sangue e a divindade, e do pão o gosto, a cor e a forma, e todavia só contêm realmente em substância Jesus Cristo sozinho.

Esta comparação oferece menos dificuldades ainda, si a aplicamos aos Eutiquianos. Estes hereges:

ensinavam que só havia uma natureza em Jesus Cristo, e concluíam daí que a natureza humana tinha perdido todas as suas propriedades, de sorte que ele naão era mais visível, nem palpável, nem circunscrita; que ela não conservava mais sua espécie, e que ela tinha mudado em natureza divina. Assim o que Gelásio esforça-se particularmente estabelecer é que Jesus Cristo de tudo isto nada perdeu, que ele era palpável depois da sua ressurreição como antes, e que tinha todas as outras qualidades do corpo humano.

Com este propósito, ele alega o exemplo da Eucaristia, na qual os símbolos não deixam de ser palpáveis, visíveis e figurados como antes, e mantêm todas as outras qualidades do pão e do vinho, para daí concluir que o corpo de Jesus Cristo mantinha também as mesmas qualidades. É esta mesma ideia que ele exprime quando diz que a natureza do pão e do vinho não cessam e permanecem, porque esta acumulação de qualidades que permanecem na

Eucaristia chama-se natureza na linguagem dos antigos, como mostramos no artigo de Teodotero.

Numa só palavra, o argumento de Gelásio reduz-se a este raciocínio: Os símbolos na Eucaristia não se tornam pontos invisíveis, impalpáveis, sem figura, sem circunscrição; portanto, o corpo de Jesus Cristo não se torna invisível, sem figura, sem circunscrição e sem as outras qualidades de um corpo humano.

Assim, do que ele reconhece que a natureza comum do pão e do vinho, quer dizer as qualidades destas substâncias, permanecem, não se pode concluir que a natureza individual do pão e do vinho, quer dizer as qualidades destas substâncias, permanecem; não se pode concluir que a natureza individual do pão e do vinho não mudou, uma vez que ele assegura formalmente o contrário dizendo que o pão e o vinho passam neste divina substância, quer dizer no corpo de Jesus Cristo” (Nouvelle Encyclopedie Théologique, 21 – Diction. Ed patrologia, II, Col 963)

Do mesmo modo pode-se dizer que o sacrifício da missa é a imagem do sacrifício da cruz, tanto porque foi instituído em sua memória, quanto porque a vítima que se oferece não é imolada da mesma maneira. Com efeito, No Calvário, Jesus Cristo oferece-se para a redenção do mundo de uma maneira sangrante, no altar ele renova sua oferta para o mesmo fim, mas sem renovar os seus sofrimentos; na cruz, seu corpo foi realmente separado do seu sangue, e sua alma do seu corpo; no altar, seu corpo e seu sangue só podem ser separados de uma maneira mística, e sua morte só pode ser representada figuradamente.

É com este mesmo sentido que é preciso tomar estas palavras de Eusébio de Cesareia: “O sacramento do altar é imagem e o símbolo do corpo de Jesus Cristo8”, falando assim este Padre não cria que a Eucaristia era apenas imagem e simbolismo do Corpo de Nosso Senhor, porque alias exprime claramente a transubstanciação nestes termos. “O Espírito Santo consagra as coisas pré-postas; o pão é feito o precioso corpo de Jesus Cristo, e a bebida seu precioso sangue.”9 Ele queria dizer que a Eucaristia era um destes sinais que têm o privilégio, ao mesmo tempo, de indicar uma coisa e de contê-la, de ser ao mesmo tempo figura e verdade: figura, segundo a forma; verdade, segundo a substância; figura, poraue o pão e o vinho que representam o corpo e o sangue de Jesus Cristo são separados no altar, como seu corpo e seu sangue o foram na cruz, verdade, porque, depois da consagração, o sacramento contèm realmente o corpo e o sangue divino.

Se não houvesse nenhuma figura na Eucaristia, diz Ratramne no seu Tratado do corpo e do sangue de Jesus Cristo, conluiria-se que não há nenhum mistério, e consequentemente nenhuma matéria para a fé. Há figura e verdade, porque o pão, que é feito corpo de Jesus Cristo pelo ministério do padre, mostra fora outra coisa aos sentidos, e uma outra dentro ao espírito dos fiéis: fora, apresenta-se a forma do pão tal como era antes, etc. Mostramos, por tudo quanto foi dito aqui, que o corpo e o sangue de Jesus Cristo, que são recebidos na Igreja pela boca dos fiéis, são figuras segundo a aparência visível, mas segundo a substância invisível é verdadeiramente o corpo e o sangue de Jesus Cristo.

Esta objeção, “a Eucaristia sendo um sinal não pode ser uma realidade” foi feita à Bossuent; ele resolveu nestes termos:

A verdade que contém a Eucaristia naquilo que ela tem no seu interior não impede que ela no Tomo II, seja um sinal naquilo que ela tem no seu exterior e sensibilidade, mas um sinal de tal natureza que, bem longe de excluir a realidade, leva necessariamente consigo, porque com efeito esta frase, este é meu corpo, pronunciada na matéria que Jesus escolheu, é para nós um sinal certo ele está presente; e, embora as coisas pareçam sempre as mesmas para os nossos sentidos, nossa alma julga de maneira diferente a tal ponto que ela não faria si uma autoridade superior não tivesse intervindo. Portanto em vez de que certas espécies e uma certa seguida de impressões naturais que se fazem em nossos corpos acostumaram a nos designar a substância do pão e do vinho, a autoridade daquele a quem nós cremos faz estas mesmas espécies comecem a nos designar uma outra substância.

Pois, escutamos aquele que diz que o que nós tomamos e o que nós comemos é seu corpo; e esta é a força desta frase, que impede que refiramos à substância do pão estas aparências exteriores, e faz-nos referir ao corpo de Jesus Cristo presente; de sorte que a presença de um objeto tão adorável sendo-nos certificada por este sinal, não hesitemos a prestar nossa adoração.10

II.

Estas explicações enfraquecem muito a dificuldade que os autores protestantes tiraram do texto antigo que mencionamos sobre a Eucaristia; estas que vamos fazer desaparecer.

Quando encontramos num autor uma frase que carece clareza, a crítica quer, a justiça, a ustiça exige que se compare com as passagens paralelas onde o autor, tratando o mesmo sujeito, exprime-se de uma maneira menos obscura. Apliquemos este princípio ao caso presente. Vós quereis conhecer os verdadeiros sentimentos do papa Gelásio sobre o sacramento da Eucaristia, sobre o efeito da consagração e sobre a natureza do santo sacrifício da missa; escutai o que diz ele quando trata estas questões:

Só permitimos ao diácono distribuir o sagrado Corpo quando o bispo ou o padre estão ausentes.”11

A admissão à plena comunhão, quer dizer a permissão de assistir à reunião dos fiéis e de receber o sagrado Corpo e o precioso Sangue de Jesus Cristo, termina a penitência canónica.12

Estas expressões de Corpo sagrado e de precioso Sangue, sacri Corporis, sacri Cruoris, encontra-se ainda num canon atribuído ao mesmo Papa, e cujo objeto é de recomendar aos fiéis, por causa das circunstâncias onde se encontrava, de fazer a comunhão sob as duas espécies.13

O Cânon da missa todo inteiro pode ser chamado também em testemunho dos sentimentos de Gelásio sobre a Eucaristia; pois aquele que redigiu algumas das fórmulas que o compõem, e que as transcriu todas, corrigidas e aprovadas.14 Ora, eis como este documento antigo fala do pão e do vinho, matérias do santo sacrifício antes da consagração feita pelo sacerdote:

Nós vos suplicamos, Pai muito misericórdio, e conjuramo-vos por Nosso Senhor Jesus Cristo vosso Filho, aceitar e abençoar estes dons, estes presentes, estes sacrifícios puros e sem mácula que nós vos oferecemos. Nós vos rogamos Senhor, aceitai favoravelmente a veneração que vos prestamos por esta oblação. Ó Deus, que vos seja agradável, nós vos suplicamos, de tornar esta oblação abençoada em tudo, aprovada, válida, razoável, agradável, de sorte que ela se torne para nós o Corpo e o Sangue de Jésus Cristo vosso amadíssimo Filho Nosso Senhor15

As palavras sacramentais foram pronunciadas, o pão e o vinho não são mais uma oblação a preparar, a benir, a santificar; é unicamente o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo:

Nós vos oferecemos à vossa incomparável Magestade os dons que recebemos, a hóstia pura, a hóstia santa, a hóstia imaculada, o pão sagrado da vida eterna, e o cálice da salvação perpétua.- Que ela seja levada pelas mãos do vosso santo Anjo, na da vossa divina Magestade; para que todos, participando deste altar, tomarão o Corpo e o Sangue santíssimo do vosso Filho, sejam cheios de bênçãos e de graças celestes.- Que esta mistura e esta consagração do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo sejam feitas para a vida eterna para nós que as recebemos.- Livrai-me, pelo vosso santo Corpo e vosso precioso Sangue aqui presentes, de todos os meus pecados e de todos os outros males.- Senhor Jesus, que a participação do vosso Corpo, que ouso receber todo indigno que sou, não seja minha condenação.- Senhor, eu não sou digno que entreis em meu coração.- Que o Corpo de Nosso Senhor guarde minha alma para a vida eterna Que vosso Corpo que recebi, ó Senhor, e que vosso Sangue que bebi, apeguem-se às minhas entranhas, etc.16

Assim se manifestava cada dia a piedade do papa Gelásio. Depois destes textos tão claros, o que importa a passagem obscura que nos objetam? No geral, convém-nos saber que as obras de Gelásio chegaram-nos num estado péssimo de estado de conservação:

Suas cartas, diz dom Simon Mopinat, e sobretudo os seus tratados dogmáticos, esperam ainda uma mão ágil que restabeleça as frases corrompidas, e separe o joio do trigo; o texto desaparece por vezes pelo número de falhas, e os comentários contraditórios das críticas até aqui só serviram para aumentar a dificuldade do leitor.17

Talvez a frase que procuramos determinar o sentido faça parte daquelas que a negligência e a ignorância dos copistas alteraram. Mas seria de outra maneira, ela não compromete de nenhuma maneira a autoridade do Papa. Ela é extraída de um Tratado sobre as duas naturezas em Jesus Cristo: não é portanto uma definição de fé que se descobriu, é um raciocínio mais ou menos justo contra Nestório e Eutiques; não se trata de um sumo Pontífice dirigindo sua bula à toda Igreja que a escreveu, trata-se de um autor particular que a inseriu na sua obra. Ora, já dissemos que jamais a escola católica disse que o Papa, considerado como doutor privado, fosse infalível.

III.

À vista do último meio de defesa que iremos desenvolver, o leitor impaciente poderá bem considerar demorado tudo o que precedeu; precisamos portanto observar que é o desejo de disculpar um autor do Vº século que nos levou a examinar intrinsecamente a dificuldade proposta. O texto a explicar, seja quem for o autor, é antigo; não foi portanto sem interesse mostrar o sentido católico. Mas se a ortodoxia do papa Gelásio foi atacada, tínhamos um meio muito simples de a defender: Estas palavras não são do papa Gelásio.

Elas são, dizem Belarmino e Melchior Canus, de Gelásio bispo de Cesareia, o mesmo que fala são Jerônimo no seu Catálogo dos escritores eclesiásticos. Elas são de Genádio, diz Suffride no seu Prefácio às obras deste autor. É a Gelásio de Cyzique que se tem que atribuir, dizem Baronius e Duperron, e eles dão como prova o testemunho de Fócio que atribui a este autor a compilação das atas de Niceia, e as confissões do autor desta compilação que se exibe, no Prefácio, de ter composto um livro contra os eutiqueanos. Para nós, sem deixar a tarefa de estabelecer quem é o verdadeiro autor do Tratado das duas naturezas, vamos indicar os motivos nos quais repousam a convição que temos que não é o Papa Gelásio.

Gelásio bispo de Roma, diz Genádio, compôs contra Nestório e Eutiques um livro importante e muito conhecido.18 Ora, o opúsculo sobre as duas naturezas, Necessarium quoque fuit, que a Biblioteca dos Pais a reproduziu integralmente em sete ou oito páginas19, não merece estas qualificações.

A obra que publicou o papa Gelásio contra Nestório e Eutiques, está dividida em cinco livros, preciosamente conservadas até aos nossos dias nos arquivos da Igreja.20

Quem forneceu o texto em questão só se compõe de um capítulo, sem divisão. O estilo do Papa Gelásio, diz Genádio e Anastásio, é elegante e correto, cauto, elimato sermone; é suficiente com efeito, ler as produções autênticas de seu plume para convencer-se da justeza desta observação. O livro das duas naturezas está escrito num estilo que caracteriza por sua dureza e numerosas incorrecções.

Gelásio, vendo os erros que estavam contidos nos escritos de Eusébio bispo de Cesareia, os tinha proscritos como perigosos; ele conhecia particularmente as obras de são Cipriano, Hilário, Jerónimo, Agostinho, e os de Leão seu predecessor.

O autor do livro das duas naturezas, pelo contrário, conta entre as matérias da doutrina católica o próprio Eusébio, que ele cita frequentemente e com elogios; nunca atribui nada aos Pais latinos que acabamos de nomear, ele cita uma vez só santo Ambrósio e são Damaso, e os cita mal; enquanto que menciona fielmente as palavras de santo Inácio mátir, de Eustaquio de Antioquia, de santo Atanásio, de são Gregório de Nazianzo, de são Basílio, de são Gregório de Nissa, de santo Amfilóquio, de Antioco bispo de Ptolémaïde, e de tantos outros Pais gregos.

Depois de induções tão claras, o que importa a opinião de Frumence e de alguns outros Padres da Igreja? Eles citam esta obra como sendo de Gelásio, porque a encontraram entre suas obras. Não é o único escrito a ser falsamente atribuído a este papa; Cassidório menciona que ‘foi suposto ainda como autor de um livro de Anotações sobre são Paulo, que um herético de seu tempo tinha composto’.

REFERÊNCIAS


1Certè sacramenta quæ sumimus Corporis et Sanguinis Christi divina sunt, propter quod et per eadem divinæ efficimur consortes naturæ: tamen esse non desinit substantia vel natura panis et vini. Et certè imago et similitudo Corporis et Sanguinis Christi in actione mysteriorum celebrantur : satis ergo nobis evidenter ostenditur hoc nobis in ipso Christo Do¬mino sentiendum quod in ejus imagine profitemur, celebramus, sumimus; ut, sicut in hanc, scilicet indivinam transeunt. Spiritu Sancto perficiente, substantiam, permanent tamen in suæ: proprietate naturæ. Sic illud ipsum mysterium principale cujus nobis efficientium virtutemque veraciter repræsentant in quibus constat propriè permanentibus, unum Christum, quia integrum verumque, permanere demonstrant.” (De duabus in Christo naturis.) 

Acabamos de dar este texto difícil e talvez alteramos a tradução que encontramos nos diversos autores. Ela tem o mérito de ser literal, mas deixa a desejar com relação a exatitude e a clareza. No Tratado das duas naturezas em Jesus Cristo, estas expressões: “Corpus et Sanguis Christi,—ipse Christus Dominus,—mysterium principale” todas as três são sinónimas e significam comumente “Jesus Cristo na sua vida mortal, — o Verbo unido a natureza humana, — o mistério da Encarnação.” O sentido desta frase, imago et similitudo Corporis et Sanguinis Christi in actione mysteriorum celebrantur, seria portanto este: o santo sacrifício da Missa, ou seja, o mistério da Eucaristia nos oferece uma imagem e, uma semelhança do mistério da Encarnação e toda passagem deveria traduzir-se desta maneira:

Certo, o sacramento no qual recebemos o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo é divino, e torna-nos participantes da natureza divina; e no entanto nos oferece sempre os modos ou propriedades naturais do pão e do vinho: ora, o mistério da Eucaristia nos oferece uma imagem e uma semelhança do mistério da Encarnação; do que encontramos no primeiro, podemos avaliar o que contem o segundo. Então, assim como na Eucaristia o pão e o vinho são mudados na substância divina sem deixar contudo de manter as propriedades de sua natureza, também na Encarnação as duas naturezas permanecem propriamente, de maneira a fazer um so Cristo que é uno, porque ele é inteiro e verdadeiro

Quanto ao resto deste texto, como vamos ver, pode explicar-se catolicamente, mesmo admitindo as palavras substância do pão e imagem do corpo.

2 Quod nulla substantia est, nihil omnino est; substantia ergo aliquid esse est. (Enarr. in Psalm. 68.) 

3 Per iniquitatem homo lapsus est à substantia in qua factus est. (Ibid.)

4 Ut hoc sic mutasse substantiam, non mutasse personam. (Serm.82.) 

5 Substantiam hominis peccato originali fuisse depravatam, (Epist. ad episc. sic. prov.) 

6 Substantia…, pars substantiæ talis puta materiæ aut formæ. (Lex. phil., art. Subst.) 

7 A Substantia pro forma occurrit apud laud, interpret. (Lib. II, cap 14, n° 6.) 

8 Demonstr. CV, 1. VIII

9 Apud Joan. Damasc. (Sacr. Parall., tit. 29)

10 Busset, Exposição 13.

11 Sacri Corporis praerogativam sub conspectu pontificis son presbyteri nisi bis absentibus, jus non habeat exercendi. (Epist. IX, ad Episc. Luc)

12 Expletis iterum annis secundum judicium culpæ suæ redeat ple-nius a communione, id est consortium cæterorum fidelium et perceptionis sacri Corporis et Sanguinis Christi. (Patrologiæ Cursus compl., t. xix, c. 142.) 

13 Comperimus quod quidam, sumpta tantummodo Corporis sacri por-tione, a calice sacri Cruoris abstineant qui procul dubio, quoniam nes-cio qua superstitione docentur obstringi, aut integra sacramenta percipiant, aut ab integris arceantur : quia divisio unius ejusdemque mysterii sine grandi sacrilegio non potest provenire. » (Patrologiæ Curs. compl., tom, cxxviii, col. 430.)  A superstição que fala neste canon, o papa Gelásio é esta dos Maniqueus que encaravam o vinho como um princípio mau criado pelo demónio, e que jamais era permitido usar. Foi para impedir estes heréticos a se introduzirem nas assembleias cristãs, e ao mesmo tempo para prevenir os fiéis contra os seu erros, que Gelásio sentiu-se obrigado, a exemplo de Leão o Grande, a prescrever a comunhão sob as duas espécies. (Patrologiæ tom CXXVIII, col. 430.) 

14 Fecit hymnos, fecit sacramentorum praefationes et orationes caulo sermone. (Lib, Pontif., Gel.) 

Dans un inventaire de livres qui servaient à la célébration des saints Offices dans l’église abbatiale de Saint-Richer, on lit :
Missels de Grégoire, anciens, trois.
Missel de Grégoire, édition d’Albinus, un.
Missel do Gélase, édition d’Albinus, un.
Missels de Gélase, anciens, dix-neuf.
(Spicileg. d’Acber, t. iv. Patrologiæ tom. CXXVIII, col. 129.) 

15 Quam oblationem, tu Deus,in omnibus, quæsumus, benedictam, adscriptam, ratam, rationabilem, acceptabilemque facere digneris, ut nobis Corpus et Sanguis fiat dilectissimi Filii lui Domini nostri Jesu Christi.

16 Corpus Domini nostri Jesu Christi custodiat animam meam in vi-tam æternam.—Corpus tuum , Domine , quod sumpsi, et Sanguis quem potavi, adhæreant visceribus meis, etc. 

17 Desiderant ejus litteræ, præsertim verb tractatus litteris inserti, vi-rum qui et vitiatis medicinam facere et in dubium vocata vindicare possit. Ita fœdi passim nævi textum deformant, ita multæ ambages pugnan-tesque criticorum censuræ ancipitem lectoris animum tenent. (Cilé par Bianchini. Patrolagiæ tom, CCXXVIII, col. 426.) 

18 Gelasius urbis Romæ episcopus scripsit adversus Eutycheten et Nestorium grande et præclarum volumea et tractatus diversarum in scriptuarum et sacramentorum, limato sermone. (Gennadius, de Script, ecclesiast., cap. 14.) 

19 V. Biblioth. PP., tom, VIII, col. 700. 

20Hic fecit quinque libros adversus Nestorium et Eulychen, qui hodie in bibliotheca et archivio Ecclesiæ continentur. (Lib. Pontif. Gel.)

CÔNEGO BOULANGE.

2 COMENTÁRIOS

  1. A objeção protestante baseada em “Papa Gelásio” é totalmente inválida. O texto é provavelmente espúrio; mesmo se fosse autêntico, nele “substância” significa “aparência”, não essência; e o próprio autor afirma que o pão é transformado na “substância divina”.
    Todos os testemunhos seguros de Gelásio e do Cânon romano provam sua fé firme na Presença Real e na transubstanciação.

    Quando analisamos o texto com rigor histórico, teológico e filológico, verificamos que:

    O texto é mal traduzido e mal entendido. O termo “substância” não tem, no século V, o sentido escolástico posterior. Gelásio (quando realmente cita) defende exatamente o oposto: a conversão real do pão e do vinho. É muito provável que o trecho nem seja do Papa Gelásio, mas de outro “Gelásio”, um autor oriental.

    Os protestantes geralmente citam apenas: “o pão e o vinho permanecem substancialmente na natureza do pão e do vinho”.

    Mas o texto completo diz:

    “O sacramento […] é uma coisa divina […] mas a substância ou natureza do pão e do vinho não deixa de existir.
    […] são mudados em substância divina, transeunt in divinam substantiam, porém conservando as propriedades da sua natureza.”

    Ou seja:

    Gelásio afirma que algo permanece, mas que o pão e o vinho passam à substância divina. O que “permanece” são os acidentes (aparências), não a substância. Isto é exatamente a doutrina católica da transubstanciação.

    A PALAVRA “SUBSTÂNCIA” NO SÉCULO V NÃO SIGNIFICA O QUE OS PROTESTANTES PENSAM

    O termo substantia nos Padres latinos não tinha apenas o sentido filosófico aristotélico (essência). Ele podia significar: Qualquer realidade não acidental (em oposição a “modo”) , Qualquer coisa que exista (em oposição ao nada). Propriedades essenciais ou qualidades “naturais” de algo. Forma visível, figura, aparência. Autores como Santo Agostinho, Crisólogo e o próprio Gelásio usam “substância” para se referir às qualidades sensíveis, à forma exterior, à configuração visível. Assim, quando o texto diz: “a substância do pão e do vinho permanece”. O sentido é: “as aparências sensíveis (cor, gosto, figura) permanecem”.

    E Gelásio reconhece explicitamente: “o pão e o vinho são mudados em substância divina”. Ou seja: a substância deixa de ser pão. Fica apenas a espécie (aparência).

    GELÁSIO CITA A EUCARISTIA PARA REFUTAR OS HEREGES DE SEU TEMPO

    Ele não está definindo a doutrina da Eucaristia. Está usando a Eucaristia como analogia contra duas heresias cristológicas: Nestorianos: diziam que havia duas pessoas em Cristo. Eutiquianos: diziam que havia apenas uma natureza em Cristo

    O raciocínio é: Assim como, na Eucaristia, permanecem as propriedades externas (aparências de pão e vinho), mas existe uma única realidade interiormente (Cristo); Assim também, em Cristo, permanecem as duas naturezas, mas uma única Pessoa. A comparação não pretende ser perfeita em todos os pontos, mas apenas ilustrar um aspecto da doutrina cristológica, não dar um tratado sobre a transubstanciação.

    OS ESCRITOS AUTÊNTICOS DE GELÁSIO PROVAM QUE ELE CRIA NA PRESENÇA REAL

    Nos textos realmente autênticos do Papa Gelásio, ele afirma:

    “sagrado Corpo de Cristo”

    “preciosíssimo Sangue”

    “receber o Corpo e o Sangue santíssimo”

    “a participação deste Corpo nos purifica”

    Além disso, o Cânon da Missa, parcialmente organizado sob seu pontificado, diz claramente:

    “para que esta oblação se torne para nós o Corpo e o Sangue de Jesus Cristo, vosso Filho”.

    E após a consagração:

    “oferecemos o pão sagrado da vida eterna e o cálice da salvação perpétua”.

    Ninguém que não acreditasse na Presença Real teria jamais escrito isso.

    Vários estudiosos católicos e mesmo críticos protestantes reconhecem que a texto não corresponde ao estilo de Gelásio. Possui erros doutrinários e confusões terminológicas estranhas. Corresponde mais a autores orientais que escreviam contra Eutiques. É provavelmente obra de Gelásio de Cesareia, Gelásio de Cízico ou Genádio

    O próprio Belarmino, Barônio e Duperron provam que o tratado verdadeiro de Gelásio tinha cinco livros. O texto citado possui apenas um capítulo. O vocabulário é grego e não latino. O autor cita Padres gregos e ignora os latinos usados por Gelásio

    CONCLUSÃO

    O texto usado pelos protestantes provavelmente NÃO é de Papa Gelásio. E mesmo se fosse, não contradiz a fé católica.

    A objeção protestante cai por três motivos:

    (1) Problema linguístico

    Eles não entendem o uso antigo da palavra substância.

    (2) Problema teológico

    O próprio Gelásio afirma que o pão passa para a substância divina, ou seja: transubstanciação.

    (3) Problema histórico

    O texto dificilmente é do Papa Gelásio, e sim de outro autor.

    E mais: Os escritos autênticos do Papa Gelásio e o Cânon romano comprovam explicitamente sua fé na Presença Real.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Artigos mais populares