São Efrem, o Sírio (c. 306–373) foi um dos maiores teólogos, poetas e doutores espirituais da Igreja antiga. Nascido em Nísibis (atual Turquia) e posteriormente vivendo em Edessa, Efrem se destacou como diácono, exegeta, combatente da heresia e, sobretudo, “Harpa do Espírito Santo”, título que recebeu por sua extraordinária produção de hinos e poemas teológicos.
Reconhecido universalmente por sua santidade, humildade e ortodoxia, foi proclamado Doutor da Igreja pelo Papa Bento XV em 1920. É venerado nas tradições católica, ortodoxa e oriental, sendo considerado um dos maiores Padres da Igreja de língua siríaca.
Em seu testamento espiritual, Efrém expressa de forma tocante sua fé na eficácia das orações pelos falecidos, pedindo aos irmãos na fé que intercedessem por sua alma:
XIII. Vinde, ó meus irmãos, estender-me, pois está decidido que não permanecerei. — Dai-me, como viático, orações, salmos e sacrifícios. — Quando o trigésimo dia cumprir-se, fazei memória de mim, ó meus irmãos, — Visto que os mortos recebem socorro dos sacrifícios que oferecem os vivos. Não vistes, de um lado, o vinho na ânfora e, do outro, o fruto maduro na videira? — Enquanto o fruto vivo amadurece na vinha, o morto agita-se na ânfora. — Quando a cebola exala odor fétido, meus amigos, — Ao mesmo tempo que germina no campo, também brota na casa. — Com muito mais razão os mortos sentem as suas comemorações. Se me disseres, ó Sábio: «Estas são coisas da natureza, E só crerei na natureza se me trouxeres testemunho,» — Tem paciência, e eu trar-te-ei das Escrituras, se quiseres. — Após três gerações, Moisés faz reviver Rúben em suas bênçãos¹. — Se os mortos não recebem socorro, para que servem as bênçãos do filho de Amram? — Os defuntos não sentem nada? Ouvi o que diz o Apóstolo: — «Se os mortos não ressuscitam, por que se batizar por eles²?» — Se os homens da família de Matatias, que cumpriam os santos ofícios — Pelos exércitos, como lestes, expiaram com seus sacrifícios as faltas — Dos que caíram em combate, sendo pagãos em seus costumes³, — Com muito mais razão os sacerdotes do Filho purificarão os falecidos — Com seus santos sacrifícios e as orações de sua boca.
Quando vierdes para minha comemoração, que pessoa alguma faça o mal nem cometa pecado, — Porém, velai, ó meus irmãos, com pureza, castidade e santidade. (Testamento, 72,28:EP 741).
Notas: ¹ Deut., XXXIII, 6. | ² I Cor., XV, 19. | ³ II Мас., ХII, 43-46.
Efrém não apenas reafirma a prática das orações pelos mortos, mas ancora sua argumentação na Sagrada Escritura, especificamente em 2 Macabeus 12 — evidência tradicionalmente rejeitada por muitos reformadores, mas firmemente aceita pela Igreja desde os tempos antigos.
Sua voz, unida à de tantos outros Padres, testemunha a fé viva da Igreja primitiva na comunhão entre vivos e defuntos, e na eficácia espiritual da oração em favor das almas que ainda estão em purificação.
O protestante William Palmer em 1841, (acreditem, utilizado atualmente como autoridade para refutar a posição católica) em sua crítica à doutrina católica do Purgatório, tenta minimizar o testemunho de Santo Efrém, o Sírio alegando que suas palavras “não determinam nada quanto à condição dos mortos” e que a passagem sobre os sacerdotes de Cristo purificarem os defuntos seria “de autoridade duvidosa” por não constar em manuscritos gregos.
“Esta última passagem é de autoria muito duvidosa, pois não aparece em nenhum dos manuscritos gregos de obras de Efrém, somente é encontrado no siríaco.”
Essa argumentação apresenta falhas metodológicas e argumentativas. O argumento se baseia em uma estratégia comum: levantar dúvidas sobre a autenticidade de um trecho para invalidar seu conteúdo. No entanto, a ausência de um texto em manuscritos gregos não significa necessariamente que ele seja uma inserção posterior. A literatura de Efrém foi escrita originalmente em siríaco, e não em grego, o que enfraquece a crítica do protestante.
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Se a obra original foi escrita em siríaco, então a versão siríaca tem mais peso do que a grega.
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A existência de uma versão grega sem esse trecho pode ser explicada por omissões, já que muitas traduções gregas de textos siríacos são parciais e fragmentadas.
Aceita um trecho e rejeita outro por conveniência. O protestante não nega que Efrém acreditava que os falecidos poderiam ser ajudados pelas orações dos vivos. Ele apenas tenta desqualificar a parte mais explícita sobre a expiação dos pecados. Essa abordagem seletiva é inconsistente:
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Se ele aceita que Efrém defendia orações pelos mortos, então já há um reconhecimento de que existe algum tipo de purificação pós-morte.
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Por que confiar na autenticidade de parte da citação, mas rejeitar o restante apenas porque não consta em alguns manuscritos? Isso é cherry picking (seleção tendenciosa da evidência).
Mesmo se ignorarmos a passagem contestada, Efrém ainda ensina que os falecidos podem ser ajudados por oferendas e orações dos vivos. Isso já indica uma crença em um estado intermediário, onde as almas podem ser beneficiadas após a morte.
A objeção não apresenta uma explicação alternativa para essa crença. Se não há um estado intermediário de purificação, por que Efrém e outros Pais da Igreja ensinariam orações pelos mortos? A prática em si já reflete uma mentalidade purgatorial.
Além disso, muitos historiadores patrísticos consideram os escritos siríacos de Efrém autênticos, pois ele era um teólogo siríaco. Descartar um texto apenas porque está em siríaco seria uma forma de preconceito textual, ignorando o contexto da obra original.
CONCLUSÃO
A tentativa de refutar o uso de Efrém como testemunha da crença no Purgatório se baseia em suspeitas sobre um trecho específico, mas não responde ao ponto principal:
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Efrém já acreditava na eficácia das orações pelos mortos, o que implica uma purificação pós-morte.
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A ausência de um trecho em grego não prova que ele seja uma adição tardia, especialmente porque Efrém escreveu originalmente em siríaco.
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A objeção falha ao não oferecer uma explicação alternativa para a prática de interceder pelos mortos.
Mesmo se ignorássemos a parte contestada, o pensamento de Efrém permanece alinhado com a crença em uma purificação após a morte, o que reforça a base patrística da doutrina do Purgatório.
BIBLIOGRAFIA
Link: https://syri.ac/bibliography/1521761861
Overbeck (1865) [den Biesen, 375–376]
- 137–158: Testamentum S.Ephraemi.
- The Testament of Ephrem has been re-edited by Beck in CSCO 334–335 (Sermones 4.4).
- E. Beck, Ed., Des heiligen Ephraem des Syrers Sermones IV [Textus], vol. 1, 2 vol. Louvain: Secretariat du Corpus Scriptorum Christianorum Orientalium, 1973.
- E. Beck, Ed., Des heiligen Ephraem des Syrers Sermones IV [Versio], vol. 2, 2 vol. Louvain: Secretariat du Corpus Scriptorum Christianorum Orientalium, 1973.
- The Testament of Ephrem has been re-edited by Beck in CSCO 334–335 (Sermones 4.4).
Sermones 4 (CSCO 334–335, Scriptores Syri 148–14936).
- No. 4 = Overbeck, 137–158. This is the famous Testament of Ephrem [#173; CPG 3947].
- Partial English translation in J. Gwynn and Barmby, J., A Select Library of Nicene and post-Nicene Fathers of the Christian Church (XIII.2): Gregory the Great, Ephraim Syrus, Aphrahat, vol. 2. Oxford: James Parker & Company, 1898, pp. 305-341., pp. 133–136.
- Edition, with French translation in R. Duval, “Le Testament de Saint Éphrem”, Journal asiatique, vol. 9.18, pp. 234-319, 1901. pp. 234–319.
- There is a further edition of the Syriac text in P. Bedjan, Ed., Liber superiorum, seu Historia Monastica, auctore Thoma, Episcopo Margensi. Liber Fundatorum Monasteriorum in regno Persarum et Arabum. Homiliae Mar-Narsetis in Joseph. Documenta Patrum de quibusdam verae fidei dogmatibus. Paris; Leipzig: Otto Harrassowitz, 1901., pp. 681–696.
Armenian
- The importance of the early Armenian version has already been seen in that it has preserved several important genuine works which had been lost in Syriac. It is likely that the version goes back to the fifth century. A listing of the contents of the four-volume edition (Venice, 1836)47 is given in K. den Biesen, Bibliography of St Ephrem the Syrian. Giove in Umbria [Italy]: [Publisher not identified], 2002., 381–3.
- This is supplemented by L. Mariès and Mercier, C., Eds., Hymnes de saint Éphrem conservées en version arménienne. Texte arménien, traduction latine et notes explicatives. Paris: Firmin-Didot, 1961., and L. Ter Petrossian, Textes arméniens relatifs s. Ephrem [Text], vol. 1, 2 vol. Louvain: Secretariat du Corpus Scriptorum Christianorum Orientalium, 1985.; B. Outtier, Textes arméniens relatifs s. Ephrem [Translation], vol. 2, 2 vol. Louvain: Secretariat du Corpus Scriptorum Christianorum Orientalium, 1985. The latter, however, only contains texts concerning, and not by, Ephrem; these include the Life and the Testament.
REFERÊNCIA COMPLETA
DUVAL, Rubens. Le testament de saint Éphrem, pp. 234-319 (cf. esp. § XIII, pp. 294-295). In: SOCIÉTÉ ASIATIQUE (Barbier de Meynard; A. Barth; R. Basset Chavannes; Clermont-Ganneau; Drouin; Feer; Halévy; Maspero Oppert; Rubens Duval; E. Senart, etc.). Journal Asiatique ou Recueil de Mémoires d’Extraits et de Notices relatifs à l’Histoire, à la Philosophie, aux Langues et à la Littérature des Peuples Orientaux. Neuviène Série. Tome XVIII. Paris: Imprimerie Nationale, jul.-ago. 1901. Link: https://dn790007.ca.archive.org/0/items/journalasiatiqu36fragoog/journalasiatiqu36fragoog.pdf