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Pais da Igreja e as imagens e relíquias sagradas.

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INTRODUÇÃO

A presente matéria tem como objetivo apresentar ao leitor uma pesquisa inédita em língua portuguesa na internet sobre o uso de objetos sagrados pertencentes a Deus e aos Seus santos no cristianismo primitivo, demonstrando como essa prática se manifesta de forma contínua na Tradição desde os primeiros escritos da Igreja.

A ideia de que a Igreja dos primeiros séculos teria sido, de algum modo, contrária a imagens, ícones, relíquias ou estátuas é uma das ficções históricas mais infundadas que existem. Após a conquista da liberdade de culto, ocorreu naturalmente um amplo desenvolvimento da vida cristã. Em vez do confinamento nas catacumbas, os fiéis passaram a construir basílicas grandiosas, adornadas com mosaicos, esculturas e estátuas, nas quais também se preservavam as relíquias dos santos mártires.

Esse desenvolvimento, porém, não representou a introdução de um novo princípio. Os mosaicos apenas expressavam com maior riqueza artística os mesmos temas já pintados nas paredes das antigas catacumbas; do mesmo modo, as grandes estátuas deram continuidade à tradição presente nos sarcófagos esculpidos e nos objetos ornamentais de vidro e metal. Desde esse período até a perseguição iconoclasta, as imagens sagradas estiveram amplamente difundidas em todo o mundo cristão.

Sobre o culto as imagens e relíquias assim define o catecismo da Igreja Católica:

O culto cristão das imagens não é contrário ao primeiro mandamento, que proíbe os ídolos. De fato, a hora prestada a uma imagem se dirige ao modelo Original, e quem venera uma imagem venera a pessoa que nela está pintada. A honra prestada às santas imagens é uma ‘veneração respeitosa’, e não uma adoração, que só compete a Deus: Oculto da religião não se dirige às imagens em si como realidades, mas as considera em seu aspecto próprio de imagens que nos conduzem ao Deus encarnado. Ora, o movimento que se dirige à imagem enquanto tal não termina nela, mas tende para a realidade da qual é imagem.” (Catecismo da Igreja Católica, Parágrafo 2132)

Também o catecismo proíbe qualquer tipo de adoração ou idolatria a imagens:

O primeiro mandamento condena o politeísmo. Exige que o homem não acredite em outros deuses afora Deus, que não venere outras divindades afora a única. A escritura lembra constantemente esta rejeição de “ídolos, ouro e prata, obras das mãos dos homens”, os quais “têm boca e não falam, têm olhos e não vêem…” Esses ídolos vãos tornam as pessoas vãs: “Como eles serão os que o fabricaram e quem quer que ponha neles a sua fé” (Sl 115,4- 5.8). Deus, pelo contrário, é o “Deus vivo” (Jo 3,10) que faz viver e intervém na história.(Catecismo da Igreja Católica – Parágrafo 2112).

O concílio de Trento declara que veneração não deve ser dirigida a uma imagem diretamente como realidade, pois uma imagem apenas representa:

Além disso declara este santo concílio, que as imagens devem existir, principalmente nos templos, principalmente as imagens de Cristo, da Virgem Mãe de Deus, e de todos os outros santos, e que a essas imagens deve ser dada a correspondente honra e veneração, não por que se creia que nelas existe divindade ou virtude alguma pela qual mereçam o culto, ou que se lhes deva pedir alguma coisa, ou que se tenha de colocar a confiança nas imagens, como faziam antigamente os gentios, que colocavam suas esperanças nos ídolos, mas sim porque a honra que se dá às imagens, se refere aos originais representados nelas, de modo que adoremos unicamente a Cristo, por meio das imagens que beijamos e em cuja presença nos descobrimos, ajoelhamos e veneramos aos santos, cuja semelhança é espelhada nessas imagens. Tudo isto está estabelecido nos decretos dos concílios, principalmente no segundo de Nicéia, contra os impugnadores das imagens.” (Concílio de Trento: sessão XXV).

Portanto, tanto os cristãos atuais quanto os antigos não veneravam e honravam as imagens e relíquias sagradas dos mártires e santos em si como realidades, mas a quem as imagens representam, ou seja, ao honrar uma imagem de Cristo ou da Cruz, estamos venerando o próprio Cristo.

Protestantes e outros críticos costumam tentar dissociar as imagens dos santos de suas relíquias. Isso ocorre porque, antes da concessão da liberdade de culto aos cristãos, as expressões devocionais apareciam majoritariamente ligadas às relíquias dos santos, e não tanto a imagens ou pinturas.

Ao separar artificialmente uma coisa da outra, torna-se mais fácil atacá-las isoladamente. Assim, recorrem a textos em que os Padres da Igreja condenam a idolatria pagã, sobretudo em contextos fortemente marcados pelo paganismo grego, ignorando, porém, que esses mesmos Padres veneravam as relíquias dos santos e, inclusive, lhes atribuíam milagres.

As acheiropoieta, ou “imagens não feitas por mãos humanas”, isto é, as próprias relíquias e imagens significam basicamente a mesma coisa, são algo material que pertence ou imita o mártir no intuito de representa-lo ao lhe prestar honra, uma melhor explicação sobre isso veremos nos próprios escritos dos santos padres.

BÍBLIA


Desde a antiguidade judaica, homens santos, bem como objetos associados a eles, eram tratados com reverência, e Deus operava milagres por meio desses sinais visíveis, não por um poder inerente às coisas, mas pela sua própria ação soberana. A Sagrada Escritura deixa claro que nem imagens nem relíquias possuem poder em si mesmas; contudo, Deus, em sua liberdade, pode agir até mesmo por meio de objetos ligados aos seus servos, para manifestar sua glória e fortalecer a fé do povo.

No Antigo Testamento, vemos exemplos claros dessa realidade:

Então Eliseu morreu, e o sepultaram. Ora, bandos de moabitas costumavam invadir a terra no começo do ano. E sucedeu que, sepultando eles um homem, eis que viram um desses bandos; lançaram o homem na sepultura de Eliseu; e, logo que o homem tocou os ossos de Eliseu, reviveu e se levantou sobre os seus pés.” (2 Reis 13,20–21)

Aqui, os ossos do profeta Eliseu tornam-se instrumento da ação divina, mesmo após sua morte, mostrando que a santidade concedida por Deus não é anulada pelo falecimento corporal.

Um dos exemplos mais fortes é a serpente de bronze, ordenada pelo próprio Deus:

Então o Senhor disse a Moisés: ‘Faze uma serpente ardente e coloca-a sobre um poste; todo aquele que for mordido e a olhar, viverá’. Moisés fez, pois, uma serpente de bronze e a pôs sobre um poste; e, quando alguma serpente mordia alguém, este olhava para a serpente de bronze e vivia.” (Números 21,8–9)

Depois disso, os Israelitas começaram a adorar essa serpente de bronze até colocando o nome de Neustã, então a imagem é destruída. Isso mostra que o problema não é ter uma imagem, ou até mesmo milagres ocorrerem através de uma imagem, e sim colocá-lá no lugar de Deus, 

Outro exemplo significativo está ligado à Arca da Aliança, objeto material que, por estar associado à presença divina, era tratado com profundo respeito:

E aconteceu que, quando a arca do Senhor entrou no arraial, todo o Israel jubilou com grande júbilo, de modo que a terra estremeceu.” (1 Samuel 4,5)

Também no caso do rei Saul, vemos Deus agir por meio de um instrumento concreto:

E sucedia que, quando o espírito mau da parte de Deus vinha sobre Saul, Davi tomava a harpa e a tocava com a sua mão; então Saul sentia alívio, ficava melhor, e o espírito mau se retirava dele.” (1 Samuel 16,23)

As relíquias dos apóstolos também já estavam entre os cristãos com milagres acontecendo através delas: 

E Deus fazia milagres extraordinários por meio de Paulo, de sorte que até lenços e aventais que tinham tocado o seu corpo eram levados aos enfermos; as doenças os deixavam, e os espíritos malignos saíam.” (Atos 19,11–12)

Assim, vemos que não existe qualquer proibição bíblica nem para imagens nem para objetos de seus santos, principalmente quando usadas de forma ortodoxa. A proibição lógica é atribuir milagres próprios ao objeto e colocá-los no lugar de Deus.  

Já publicamos um texto mais explicativo sobre isto (pode ser lido aqui). 

AS CATACUMBAS PRIMITIVAS


Depois da partida de Jesus aos céus, os cristãos passaram a serem perseguidos das mais variadas formas. Eram torturados publicamente, lançados ao furor de animais violentos, empalados, crucificados e, até mesmo, queimados vivos. Para redimir e orar pelos seus mártires, os cristãos passaram a enterrá-los nas chamadas catacumbas. Estas funcionavam como túmulos subterrâneos onde os cristãos poderiam fugir dos soldados romanos, entoarem cantos e pintar imagens que manifestavam sua fé. As primeiras catacumbas encontradas são datadas do século II d.C

A pintura elaborada no interior das catacumbas era rodeada de uma simbologia que indicava a forte discrição do culto cristão naquele momento. O que mostra que desde o cristianismo primitivo as imagens eram utilizadas pra expressão de fé e devoção. As imagens mais freqüentes eram o crucifixo, que lembrava o sacrifício de Jesus. A âncora que significava o ideal de salvação. O peixe era bastante comum, (pois peixe em grego é ICTUS eram as mesmas iniciais de: “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”) e diversas passagens bíblicas.

O poeta ibérico cristão, Prudêncio, também lembra que, nos primeiros anos do século quinto, que muitos peregrinos iam para Roma e até mesmo de regiões vizinhas para venerar o túmulo do mártir Hipólito que foi enterrado nas catacumbas da Via Tiburtina.

Abaixo há uma seleção de imagens das catacumbas que ajudam entender como desde os apóstolos as imagens eram utilizadas:

Imagem que retrata a história dos 3 jovens na fornalha cantada pelo livro de Daniel, nas paredes da Catacumba de Priscila em Roma Retratação de Jonas sendo vomitado pela baleia – Catacumba de São Marcelino e Pedro em Roma.
Noé na Arca – Catacumba de São Marcelino e Pedro em Roma. Maria e o Profeta – Catacumba de Priscila em Roma (Século III
O bom pastor –Catacumba de Priscila em Roma (Século III) Peixe Eucarístico (Representação de Jesus) – Crípita de São Gaio e Eusébio
Cristo como bom pastor – Catacumba de Domitila. Afresco com Cristo de barba – Catacumba de Comodila.
DURA-EUROPOS – A POMPÉIA DO DESERTO – HISTÓRIAS DE ROMA
Catacumba dos Santos Marcelino e Pedro na Via Labicana . Cristo
entre Pedro e Paulo. Para os lados são os mártires Gorgonius,
Pedro Marcelino , Tiburtius.
Sinagoga de Dura Europos – Sinagoga repleta de imagens de trechos das escrituras dentre outros.  

 

SINAGOGA E IGREJA DE DURA EUROPOS


A igreja e a sinagoga de Dura-Europos constituem testemunhos arqueológicos decisivos para compreender a prática religiosa e o uso de imagens no Oriente Próximo dos séculos III–IV.

A Sinagoga de Dura-Europos (c. 244 d.C.) apresenta um amplo ciclo pictórico com cenas bíblicas, Moisés, Elias, Davi, entre outros, cobrindo as paredes internas, o que demonstra que o judaísmo da época não apenas tolerava, mas empregava imagens narrativas em contexto litúrgico.

Já a Igreja de Dura-Europos, uma das mais antigas igrejas cristãs conhecidas, conserva afrescos no batistério com temas como o Bom Pastor, a cura do paralítico e as mulheres no sepulcro, evidenciando que os primeiros cristãos também recorreram a imagens com função catequética e simbólica. Conjuntamente, esses achados refutam a ideia de um iconoclasmo original absoluto no judaísmo e no cristianismo primitivo, mostrando continuidade visual e teológica no uso de imagens sagradas.

Ficheiro:Dura Europos fresco Moses from river.jpg – Wikipédia, a enciclopédia livre DURA-EUROPOS – A POMPÉIA DO DESERTO – HISTÓRIAS DE ROMA
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24 Dura Europos Synagogue Stock Photos, High-Res Pictures, and Images - Getty Images The Church in the House in Dura-Europos - The Bible and Culture
Dura-Europos - Bible Odyssey Ancient Christian house church in Dura-Europos Syria

 

 

OS TESTEMUNHOS DOS PAIS DA IGREJA


O MATÍRIO DE INÁCIO DE ANTIOQUIA (110 d.C)


Santo Inácio foi bispo de Antioquia nos séculos I e II. O relato do seu martírio foi escrito por um de seus seguidores que o acompanharam em sua jornada até seu martírio em Roma. Neste relato vemos como a prática da veneração as relíquias dos Santos se deu desde os mais remotos tempos de cristianismo:

Apenas as partes mais duras de suas relíquias sagradas foram deixadas, as quais foram transportadas para Antioquia e envoltas em linho, como um tesouro inestimável deixado para a santa Igreja, pela graça que estava no mártir.” (Martírio de Santo Inácio de Antioquia – Capítulo VI).

O MATÍRIO DE POLICARPO DE ESMIRNA


Policarpo de Esmirna foi um bispo de Esmirna do século II. Um de seus discípulos que escreveu o Martírio relata a seguinte passagem:

Vendo a rixa suscitada pelos judeus, o centurião colocou o corpo no meio e o fez queimar, como era de costume. Desse modo, pudemos mais tarde recolher seus ossos, mais preciosos do que pedras preciosas e mais valiosos do que o ouro, para colocá-los em lugar conveniente. Quando possível, é aí que o Senhor nos permitirá reunir-nos, na alegria e contentamento, para celebrar o aniversário de seu martírio, em memória daqueles que combateram antes de nós, e para exercitar e preparar aqueles que deverão combater no futuro.” (O martírio de São Policarpo de Esmirna – CAPÍTULO XVIII)

Em pleno século II, logo após a era apostólica, temos este importante relato nos referindo a valiosa presença das relíquias dos santos no culto cristão.

ORÍGENES DE ALEXANDRIA (185 – 254)


Orígenes de Alexandria ou Orígenes Adamantio (185-254) foi mestre de famosa Escola de Teologia em Alexandria (Egito) no século III. Embora ele não seja um pai da Igreja, seus escritos são bastante lidos na Igreja desde a antiguidade.

Algumas passagens dos escritos de Orígenes são frequentemente mobilizadas por polemistas para sustentar a tese de que ele seria contrário ao uso de imagens sagradas. Entre elas, costuma-se destacar o seguinte trecho:

São os mais ignorantes os que não se envergonham de dirigir-se a objetos sem vida… E, ainda que alguns possam dizer que esses objetos não são deuses, mas apenas imitações deles e símbolos, é necessário ser ignorante e servil para supor que as mãos vis de artesãos possam modelar a semelhança da Divindade; asseguramos que até o mais humilde entre nós está livre de tamanha ignorância e falta de discernimento.” (Contra Celso, VI, 14)

Não há absolutamente nada nessa passagem que contrarie a doutrina católica acerca das imagens sagradas. Orígenes não condena o uso de imagens enquanto tais, mas afirma um princípio fundamental: a impossibilidade de representar a divindade em si mesma. Sua crítica dirige-se à pretensão — comum tanto no paganismo quanto em certas caricaturas da fé cristã — de que a essência divina, sendo imaterial e incorpórea, possa ser reproduzida por mãos humanas. É nesse sentido que afirma ser “ignorante” supor que artesãos possam modelar a semelhança da Divindade.

Esse ensinamento está em plena consonância com a doutrina católica, expressa no Catecismo da Igreja Católica:

A imagem sacra, o ícone litúrgico, representa principalmente Cristo. Ela não pode representar o Deus invisível e incompreensível.” (CIC 1159)

Com efeito, não se fazem imagens de Deus enquanto Deus, pois Ele é invisível, imaterial e jamais foi visto; fazem-se imagens de Cristo, que foi visto, assumiu um corpo verdadeiro e entrou na história. Longe de rejeitar a noção de imagem, Orígenes a utiliza de modo explícito e positivo, demonstrando que toda imagem representa o original de forma analógica, e não exaustiva, isto é, sem reproduzir todas as suas características.

Isso fica claro quando ele próprio recorre à teoria da imagem e da semelhança ao comentar o Evangelho:

Assim como acontece com imagens e estátuas, as semelhanças não o são em todos os aspectos das realidades às quais se referem. A imagem pintada conserva a superfície e a cor, mas não as cavidades e saliências; a estátua, por sua vez, preserva as protuberâncias, mas não a cor; e, mesmo quando se tenta conservar ambos, ainda assim não se reproduz a profundidade real. Do mesmo modo, quando o reino dos céus é comparado a alguma coisa no Evangelho, a semelhança não se estende a todos os aspectos, mas apenas àqueles necessários ao argumento em questão.” (Comentário ao Evangelho de Mateus, X, 11)

Portanto, longe de rejeitar as imagens, Orígenes reconhece explicitamente seu caráter representativo e pedagógico, afirmando que elas remetem ao original sem jamais esgotá-lo — princípio que está no cerne da teologia cristã da imagem e que será plenamente desenvolvido nos séculos posteriores.

Também fala sobre as relíquias dos santos:

E não é de admirar se um santo, santifique, pela palavra de Deus e pela oração, a comida de que participamos, quando até mesmo as próprias vestes com as quais ele está vestido são santas. Os lenços e aventais de Paulo tinha muita santidade de sua pureza, que, quando aplicado aos órgãos do doente, se afastavam doenças, e restaurava a saúde, e de Pedro, o que devo dizer, a cuja própria sombra do corpo tinha tanta santidade, que quem, não ele, mas a sua sombra apenas tocava, era ao mesmo tempo aliviado de todos os males. [Atos 05, 15]” (Comentário sobre Epistola aos Romanos, PG XIV).

TERTULIANO (204 d.C)


Tertuliano é frequentemente invocado como argumento em favor do iconoclastismo. Contudo, dificilmente pode ser considerado uma fonte sólida para essa posição. Isso se deve não apenas ao seu conhecido rigorismo em diversos pontos marcado por leituras excessivamente literais, mas também às contradições internas presentes em seu próprio pensamento.

Em sua obra Sobre a Modéstia, Tertuliano menciona explicitamente a existência de imagens, inclusive em objetos litúrgicos como cálices, algo que também é testemunhado por São Jerônimo, sob a designação de sarcomarias. Diz Tertuliano:

Terás liberdade para começar pelas parábolas, nas quais tens a ovelha perdida, novamente procurada pelo Senhor e carregada de volta sobre os seus ombros. Que até mesmo as pinturas em vossos cálices se apresentem para mostrar se, também nelas, resplandece o sentido figurado dessa ovelha (a aparência exterior, para ensinar): se o objeto visado nessa restauração é um pecador cristão ou um pecador pagão.(Sobre a Modéstia, 7)

Essa obra pertence ao período montanista de Tertuliano, no qual ele ataca severamente um bispo,  possivelmente norte-africano ou romano, por absolver cristãos do pecado de adultério. Para Tertuliano, tal absolvição era inadmissível à luz do rigorismo montanista. Ainda assim, o texto constitui um dos testemunhos mais antigos de que a Igreja Católica já utilizava imagens, inclusive em contexto litúrgico e em conexão com seus mistérios sacramentais.

É verdade que Tertuliano, em vários momentos, associa imagens à idolatria, e esses textos são frequentemente explorados por autores protestantes como evidência de uma suposta proibição geral de imagens na Igreja primitiva. No entanto, essa postura não reflete um consenso eclesial, mas antes o rigorismo pessoal de Tertuliano, exacerbado em sua fase montanista.

A contradição torna-se ainda mais evidente em sua obra Contra Marcião. Os marcionitas questionavam como seria possível conciliar as imagens presentes no Antigo Testamento com uma leitura rigorista do Segundo Mandamento. Como rejeitavam completamente o Deus do Antigo Testamento, evitavam o problema pela raiz. Tertuliano, por sua vez, precisou responder, e o fez criando uma categoria especial de imagens legítimas, capazes de manifestar o poder daquilo que prefiguravam:

A serpente de bronze e os querubins de ouro não violavam o Segundo Mandamento. Seu significado. Da mesma forma, ao proibir que se fizesse semelhança de todas as coisas que estão no céu, na terra e nas águas, Ele também declarou as razões, proibindo toda manifestação material de idolatria latente. Pois Ele acrescenta: “Não te prostrarás diante delas, nem as servirás”. A forma da serpente de bronze, porém, que o Senhor posteriormente ordenou a Moisés que fizesse, não oferecia pretexto para idolatria, mas destinava-se à cura daqueles que eram afligidos pelas serpentes ardentes. Nada digo sobre o que era simbolizado por essa cura. Assim também, os querubins e serafins de ouro eram puramente ornamentos, à semelhança da arca; adaptados à ornamentação por razões totalmente alheias a qualquer condição de idolatria, razão pela qual a criação de uma semelhança é proibida. e eles evidentemente não estão em desacordo com esta lei de proibição, porque não são encontrados naquela forma de semelhança em referência à qual a proibição é dada. (Contra Marcião 2:22).

Aqui, Tertuliano interpreta corretamente Êxodo 20, reconhecendo que os querubins e a serpente de bronze não se enquadram na categoria das “semelhanças proibidas”. Com isso, ele contradiz sua própria leitura rigorista anterior.

O mesmo argumento aparece novamente no Livro III:

Por que, mais uma vez, o mesmo Moisés, depois de proibir a semelhança de tudo, colocou a serpente de ouro na haste e, enquanto ela estava pendurada ali, propôs-a como objeto a ser contemplado para a cura? Não pretendia ele também mostrar aqui o poder da cruz de nosso Senhor (…)?” (Contra Marcião 3,18)

Dessa forma, Tertuliano não apenas admite imagens não idólatras, mas também lhes atribui valor tipológico e pedagógico, antecipando uma leitura cristológica e simbólica que mais tarde será central na defesa das imagens.

Tertuliano observava que os pagãos chamavam os cristãos de “adoradores da cruz” (Ad Nationes, cap. 12). Em vez de rejeitar a acusação, ele responde de forma irônica, dizendo que, nesse sentido, os pagãos seriam seus “correligionários”, pois também veneravam objetos religiosos feitos de madeira. A diferença, segundo ele, é que os pagãos cultuavam figuras humanas esculpidas, enquanto os cristãos não adoravam uma imagem, mas viam na própria cruz, enquanto madeira, o seu significado simbólico.

Quanto àquele que afirma que somos o sacerdócio de uma cruz, nós o reivindicaremos como nosso correligionário. Uma cruz é, em seu material, um sinal de madeira; entre vocês também o objeto de adoração é uma figura de madeira. Só que, enquanto para vocês a figura é humana, para nós a madeira é sua própria figura” (Ad Nationes, cap. 12).

O historiador e Padre ortodoxo Steven Bigham sintetiza com precisão a ambiguidade do pensamento tertulianista:

Qual é, portanto, o resultado dos escritos de Tertuliano sobre a questão das imagens? A ambiguidade permanece. Ele aceitou a equação ‘imagem = ídolo’, mas também aceitou imagens não idólatras. Justificou estas últimas não apenas apelando a um preceito divino extraordinário, mas ampliando a categoria de imagens permitidas que escapavam ao alcance do Segundo Mandamento. Assim, tendo aceitado — cerca de 500 anos antes da crise iconoclasta — o argumento essencial dos iconódulos quanto às imagens do Antigo Testamento, Tertuliano só pode ser invocado com grande dificuldade como testemunha de uma suposta hostilidade dos primeiros cristãos a toda arte figurativa.” (Atitudes dos Primeiros Cristãos em Relação às Imagens, p. 127)

Em suma, longe de sustentar um iconoclastismo consistente, Tertuliano oferece um testemunho complexo, ambíguo e, em muitos pontos, favorável à distinção clássica entre imagem e idolatria — distinção que se tornaria fundamental na tradição cristã posterior.

CONCÍLIO DE ELVIRA


O próximo exemplo de uma suposta crítica patrística levantada por polemistas contra as imagens sagradas vem do cânon 36 do Sínodo local de Elvira (Espanha / Granada), por volta do início do século 4.

Ordenamos que não haja pinturas na Igreja, de modo que aquele que é objeto de nossa adoração e veneração não será pintado nas paredes” (Cânon 36).

O latim original do cânon é:

Placuit picturas in ecclesia esse non debere, ne quod colitur et adoratur in parietibus depingatur.

Bigham, entre muitos outros, sugerem a seguinte e mais precisa tradução:

Pareceu bem que as imagens não devem estar nas igrejas, pois o que é venerado e adorado não seja pintado nas paredes.” (Cânon 36)

Esta fraseologia é freqüentemente é mostrada como um elemento contra a veneração das imagens como uma prática da Igreja Católica. Binterim, De Rossi e Hefele interpretam essa proibição como contrária ao uso de imagens apenas nos grandes templos, para evitar que os pagãos pudessem zombar das cenas sagradas representadas lá e do que elas significam. Von Funk, Dom Leclerq Termel acreditam que o concílio não comentava sobre a ilicitude ou ilegalidade do uso de imagens, mas é uma medida administrativa, simplesmente proíbe para evitar que os convertidos do paganismo incorressem em qualquer risco de recaída em idolatria, ou fossem ofendidos com alguns excessos supersticiosos, dado que não são aprovados de forma alguma pela autoridade eclesiástica. (Ver Von Funk em “Tübingen Quartaldchrift”, 1883, 270-78; Nolte em “Rev. des Sciences ecclésiastiques”, 1877, 482-84; Turmel em “Rev. du clergé français”, 1906, XLV,508).

Bigham propõe alguns pensamentos úteis (pg. 161-166):

Ambos os iconoclastas e iconófilos citaram este cânon em favor de suas próprias posições na história da Igreja. Como tal, não é um exagero dizer que ninguém sabe exatamente o contexto ou significado deste cânone, tornando-o controverso como um pedaço de ‘evidência’ para qualquer posição. Na melhor das hipóteses, é forragem interessante para a discussão… Este cânon mostra que os cristãos do período pré-Niceno destinguiam entre imagens e ídolos, por seu uso da palavra ‘picturas’.

O medo de imagens sacras sendo profanadas Durante a perseguição de Diocleciano é a explicação mais plausível, e é possivelmente ligada com Cânon 52 do mesmo Sínodo:

Qualquer um que escreve frases escandalosas em uma igreja deve ser condenado.

Durante os períodos de perseguição, os itens sagrados relevantes para a assembleia litúrgica foram mantidos nas casas dos fiéis, só para serem levados ao prédio da igreja para o momento de adoração. Isto inclui tudo, desde o pão, água, vinho e óleo dos Mistérios, o livro próprio Evangelho. A “pequena entrada” do Evangelho na presente liturgia é um lembrete de que o bispo, presbítero ou diácono iria a pé do santuário para a nave e recuperava os Evangelhos e outros escritos sagrados de quem quer que estivesse “escondendo-os” em casa naquela semana. Essas práticas iniciais nos lembram da perseguição que ocorreu com freqüência variável na Igreja primitiva, e da necessidade de proteger o que é venerado. Logo Elvira não pretendia proibir imagens e sim protege-las da profanação.

O cânone 60, curiosamente proíbe a quebra de ídolos:

Se alguém quebra um ídolo e é então punido com a morte, ele ou ela não pode ser colocado na lista de mártires, uma vez que tal ação não foi sancionada pelas Escrituras nem pelos apóstolos.

Com o cânon 60 se trona claro o intuito do cânon 36, que era a não profanação das imagens sagradas, ou seja, assim como os bispos queriam que as imagens da Igreja fossem preservadas, por isso proibiram que elas fossem colocadas nas igrejas para não serem profanadas, da mesma forma queriam que os cristãos respeitassem as imagens dos pagãos, trata-se de uma responsabilidade do cristão, preservar as imagens sagradas dos pagãos e também não desrespeitar os pagãos, fazendo com as imagens deles, o mesmo que eles queriam fazer com as imagens sagradas.

LACTÂNCIO (240-320)


Outro texto primitivo que alguns tentam usar contra as imagens e ícones sagrados é de Lactâncio, presente em suas Instituições divinas. Lucio Célio Firmiano Lactâncio foi um autor entre os primeiros cristãos que se tornou um conselheiro do Constantino I. Lactâncio nasceu na África do Norte e foi discípulo de Arnóbio de Sica. A citação sobre imagens utilizada deste autor é:

É indubitável que onde quer que há uma imagem não há religião. Porque se a religião consiste de coisas divinas, e não há nada divino a não ser nas coisas celestiais, segue-se que as imagens se acham fora da esfera da religião, porque não pode haver nada de celestial no que se faz da terra … não há religião nas imagens, mas uma simples imitação de religião.(Instituições Divinas 2, 19).

Lactâncio não é propriamente um Padre da Igreja, mas um escritor cristão primitivo. Ainda assim, essa passagem está plenamente de acordo com a doutrina católica, e exprime exatamente o mesmo princípio que encontramos, séculos depois, no Concílio de Trento, conforme já citado na introdução.

Quando Lactâncio afirma que “não há religião nas imagens”, ele não condena o seu uso, mas define corretamente a sua natureza. A imagem não é religião em si mesma, nem é objeto de culto enquanto tal; ela é uma imitação, isto é, uma representação que remete ao modelo original. É precisamente essa “imitação de religião” que torna possível o uso legítimo das imagens: elas mostram, recordam e representam aquilo que é objeto da fé — sobretudo Jesus Cristo e os mistérios e práticas da religião cristã — sem jamais se confundirem com eles.

Assim, não se faz religião por meio das imagens, nem se encontra nelas algo de divino por natureza; usa-se a imagem como meio pedagógico e memorial, nunca como fim. Dizer que não há religião nas imagens é apenas afirmar que a religião não se identifica com o objeto material, mas com a realidade espiritual que ele significa. Trata-se, portanto, de lógica elementar, e não de uma rejeição das imagens.

Além disso, convém lembrar que a teologia de Lactâncio é limitada nos aspectos estritamente teológicos, sobretudo quando comparada à tradição patrística posterior. Também por essa razão, Lactâncio não é contado entre os Padres da Igreja, mas entre os escritores eclesiásticos, distinção reconhecida pela própria tradição católica.

EUGÊNIO DE LAODICÉIA (335 d.C)


Eugêncio foi bispo por 25 anos e faleceu 335 d.C, Eugênio iniciou seu episcopado em 310.

Visto que ele afirma ter “reconstruído […] com tudo o que a ornamenta ao redor…”, não é impossível que “pinturas e mosaicos” já existissem na igreja de Laodiceia, ou ao seu redor, antes dessa data. O texto atesta a existência de imagens associadas a uma igreja ao menos no ano de 335 e, muito provavelmente, antes dessa data. O que essas imagens representavam? Infelizmente, é impossível sabê-lo.

[Depois disso], passei algum tempo na cidade dos laodicenos, onde, pela vontade do Deus todo-poderoso, fui feito bispo e, durante vinte e cinco anos completos, exerci o episcopado com grande mérito. Também reconstruí toda a igreja desde os alicerces, com tudo o que a ornamenta ao redor: os pórticos, os pórticos quádruplos, as pinturas, os mosaicos, a fonte, o vestíbulo e todos os trabalhos de cantaria. Em suma, tendo edificado tudo, estando prestes a deixar a vida humana, fiz para mim uma cerca e um sarcófago, sobre o qual mandei escrever tudo o que precede [para o meu túmulo] e [para o túmulo] da elite da minha família.” (Epitáfio de Eugênio de Laodicéia)

ATANÁSIO DE ALEXANDRIA (296 -373 d.C)


Atanásio de Alexandria (296 -373 d.C) foi bispo de Alexandria e o mais proeminente teólogo do século IV. Em seu relato sobre a vida de Santo Antônio ele diz que quem olhasse para suas relíquias, isto é, suas roupas, estava olhando para o próprio Antônio:

Mas cada um daqueles que receberam a pele de carneiro do beato Antônio e a roupa usada por ele, guardam como um tesouro precioso. Pois mesmo a olhar para eles é como se fosse para contemplar Antônio; e quem está vestido nelas, parece com alegria portar suas admoestações. (Atanásio vida de Santo Antônio parte 91).

Usando a comparação da imagem do rei mostra que olhando para uma imagem, estamos olhando e reconhecendo o original e quem reverencia ou detrai uma imagem, é o mesmo de está fazendo a quem a imagem representa:

O Filho sendo da mesma substância do Pai, Ele pode justamente dizer que ele tem o que o Pai tem. Por isso, foi adequado e apropriado que, após as palavras “Eu e o Pai somos um” (Jo 10, 30), ele acrescentar, “Crede-me: estou no Pai, e o Pai em mim. Crede-o ao menos por causa destas obras.”. (Jo 14, 11) Ele já havia dito a mesma coisa. “Quem Me vê, vê o Pai”. (Jo 14, 9). Há uma e a mesma mente nestas três palavras. Saber que o Pai e o Filho são um, é saber que ele está no Pai e o Pai está no Filho. A divindade do Filho é a divindade do Pai. O homem que recebe este entende “que aquele que vê o Filho, vê o Pai”. Pois a divindade do Pai é vista no Filho. Isto será mais fácil de entender a partir do exemplo da imagem do rei que mostra a sua forma e semelhança. O rei é a semelhança de sua imagem. A semelhança do rei está indelevelmente impressa na imagem, de modo que qualquer um olhando para a imagem vê o rei, e mais uma vez, qualquer um olhando para o rei reconhece que a imagem é a sua semelhança. Sendo uma imagem indelével, a imagem pode responder a um homem, que manifesta o desejo de ver o rei depois de contemplá-lo, dizendo: “O rei e eu somos um. Eu estou nele e ele em mim. O que você vê em mim você vê nele, e o homem que olha para ele olha para o mesmo em mim.” Ele, que venera a imagem, venera o rei nela. A imagem é a sua forma e semelhança.” (Santo Atanásio contra os arianos – Livro III.)

São João Damasceno preserva uma citação de pseudo-Atanásio (obra de autoria desconhecida, mas atribuída a Atanásio) mostra de forma clara o mesmo argumento que o atual catecismo da Igreja católica nos trás:

Nós, que somos fiéis, não adoramos imagens como deuses, como os pagãos fizeram – Deus me livre – mas nós marcamos nosso amor desejando somente ver o rosto da pessoa representada na imagem. Assim, quando ela for destruída, estamos acostumados a jogar a imagem como madeira no fogo. Jacó, quando estava para morrer, adorou no cajado de José [Gênesis LXX 47, 31], não honrando o cajado, mas seu dono. Da mesma forma que queremos cumprimentar as imagens, assim como gostaríamos de abraçar as nossas crianças e os pais para mostrar o nosso carinho.(Cem capítulos dirigidos a Antíoco, o prefeito, segundo Pergunta e Resposta -. Cap. XXXVIII).

Este mesmo argumento foi repetido por São Tomás no século XIII:

O culto da religião não se dirige às imagens em si como realidades, mas as considera em seu aspecto próprio de imagens que nos conduzem ao Deus encarnado. Ora, o movimento que se dirige à imagem enquanto tal não termina nela, mas tende para a realidade da qual é imagem.” (Suma Th. II-II, 81, 3, ad3. apud CIC §2132).

E hoje é repetido pelo catecismo da Igreja no século XX, mostrando que o ortodoxo ensino sobre as imagens sagradas, está presente na Igreja desde sempre:

O primeiro mandamento condena o politeísmo. Exige que o homem não acredite em outros deuses afora Deus, que não venere outras divindades afora a única. A escritura lembra constantemente esta rejeição de “ídolos, ouro e prata, obras das mãos dos homens”, os quais “têm boca e não falam, têm olhos e não vêem…” Esses ídolos vãos tornam as pessoas vãs: “Como eles serão os que o fabricaram e quem quer que ponha neles a sua fé” (Sl 115,4- 5.8). Deus, pelo contrário, é o “Deus vivo” (Jo 3,10) que faz viver e intervém na história.(Catecismo da Igreja Católica – Parágrafo 2112).

PEDRO DE ALEXANDRIA (260-311 d.C)


Pedro I de Alexandria foi o Arcebispo de Alexandria entre 300 a 311 d.C. Em seus atos genuínos nos conta a seguinte história de como tinha posse das relíquias sagradas dos santos e como colocaram na Igreja dedicada a virgem Maria:

Nesse meio tempo um corpo astral de senadores daqueles que estão engajados no serviço de transporte público, vendo o que havia acontecido, pois estavam perto do mar, preparoou um barco, e de repente apoderaram-se das relíquias sagradas, eles colocaram nele, e escalando o Pharos por trás, por um quartel que tem o nome de Leucado, eles vieram para a igreja da Santíssima mãe de Deus e sempre Virgem Maria, que, como se começou a dizer, ele tinha construído no quartel oeste, em um subúrbio, um cemitério dos mártires.” (Atos Originais de Pedro de Alexandria)

BASÍLIO MAGNO


Nasceu por volta do ano 329 em Cesaréia da Capadócia. Chegou a ser um dos Padres da Igreja grega que mais brilharam no século IV. Morreu em torno do ano 379. Em sua Epistola 360 nos dá uma clara forma de como a Igreja primitiva venerava as imagens sagradas:

Confesso a aparência do Filho de Deus na carne, e a santa Maria como a mãe de Deus, que deu à luz segundo a carne. E eu recebo também os santos apóstolos e profetas e mártires. Suas semelhanças eu reverencio e beijo com homenagem, pois elas são transmitidas dos santos apóstolos e não são proibidas, mas, pelo contrário, pintadas em todas as nossas igrejas.” (Epístola 360).

Alguns estudiosos modernos levantam dúvidas quanto à autenticidade da Epístola 360, tradicionalmente atribuída a São Basílio Magno, sobretudo porque o texto foi amplamente utilizado como argumento contra os iconoclastas durante os debates do II Concílio de Niceia. Sustenta-se, nesse sentido, que o vocabulário e a formulação não corresponderiam ao estilo basiliano e que o texto poderia ter sido produzido no contexto da controvérsia iconoclasta.

Todavia, tal hipótese encontra sérias dificuldades. Em primeiro lugar, a linha argumentativa da epístola é plenamente coerente com outros escritos autênticos de Basílio, nos quais a realidade da Encarnação fundamenta a legitimidade das representações sagradas. Além disso, essa mesma passagem já era citada cerca de cinquenta anos antes por São João Damasceno, o que a coloca cronologicamente bem antes do auge da crise iconoclasta. Some-se a isso o fato de que nenhuma contestação à autenticidade da epístola é conhecida na Antiguidade, nem entre defensores nem entre opositores das imagens.

Diante desse conjunto de evidências, coerência doutrinal, recepção patrística antiga e ausência de controvérsia nos primeiros séculos, não há razão sólida para rejeitar a autenticidade da Epístola 360, que permanece como um testemunho significativo da veneração das imagens na tradição cristã antiga.

Em seu tratado sobre o Espírito Santo dirigido a Anfilóquio usa a mesma argumentação da sua carta 360, para falar da adoração ao Pai através do Filho:

Como, então, se há um e um, não há dois deuses? Porque falamos de um rei e da imagem do rei, e não de dois reis. A majestade não é cindida em duas, nem a glória dividida. A soberania e a autoridade que reinam sobre nós são uma só, e assim também a doxologia que atribuímos não é plural, mas una, porque a honra prestada à imagem remonta ao protótipo. Ora, aquilo que num caso a imagem é por imitação, no outro caso o Filho o é por natureza; e assim como, nas obras de arte, a semelhança depende da forma, do mesmo modo, no caso da natureza divina e não composta, a unidade consiste na comunhão da divindade.” (Sobre o Espírito Santo para Anfilóquio, Capítulo XVIII,45).

A mesma lógica de ao que se dirige a imagem se refere ao original é usada em seu comentário a Isaias:

Quando o diabo viu o homem feito à imagem e semelhança de Deus, depois, como ele não podia lutar contra Deus, ele desabafou sua maldade sobre a imagem de Deus. Da mesma forma, um homem irritado pode apedrejar a imagem do rei, porque ele não pode apedrejar o Rei, atinge a madeira que tem sua semelhança.” (Comentário sobre Isaias)

Também ao pregar sobre São Barlaão, mártir de Antioquia, durante uma celebração litúrgica realizada em sua festa, na própria cidade de Antioquia (Síria), o autor da homilia convida pintores a honrarem o santo por meio de imagens, afirmando que a arte pictórica seria capaz de glorificá-lo mais adequadamente do que suas próprias palavras. O texto narra o martírio de Barlaão e foi composto em Antioquia, no final do século IV. Essa homilia é atribuída tanto a João Crisóstomo quanto a Basílio de Cesareia; para os fins desta exposição, seguiremos a atribuição a Basílio, embora, seja qual for o autor, o testemunho permaneça igualmente válido.

O pregador afirma:

A natureza das coisas dolorosas foi transformada depois da cruz. Já não acompanhamos a morte dos santos com lamentos, mas dançamos junto aos seus túmulos em assembleias piedosas. Pois a morte é apenas um sono para os justos, ou melhor, uma partida para uma vida melhor.

Por isso, os mártires se alegram quando são mortos. O desejo de uma vida mais feliz aniquila a dor do massacre. O mártir não fixa o olhar nos perigos, mas nas coroas da vitória. Não se entristece com os açoites, mas conta os prêmios. Não vê os algozes açoitando-o aqui embaixo, mas contempla os anjos aclamando-o do alto. Não considera a condição passageira do perigo, mas a eternidade da recompensa.

Mesmo entre nós, ele já goza de uma magnífica retribuição, pois é aplaudido pelas aclamações piedosas de todos e atrai, desde o seu túmulo, multidões incontáveis. Foi isso, portanto, o que hoje se celebrou no bravo Barlaão.

Aqui já se encontra uma prova clara da veneração dos santos e de suas relíquias, pois o mártir é celebrado junto ao seu túmulo e atrai multidões de fiéis. Em seguida, o texto fornece também um testemunho explícito em favor das imagens, quando Basílio declara:

Mas por que diminuo o vencedor com meu balbucio infantil? Cedamos, então, o seu louvor a línguas mais elevadas! Chamemos trombetas mais sonoras que os mestres! Levantai-vos agora, pintores ilustres de feitos heroicos! Glorificai com vossa arte a imagem mutilada do general! Iluminai com as cores da vossa habilidade este vencedor, que por mim foi descrito com tons menos brilhantes! Que eu me retire vencido por vós ao delinear os triunfos do mártir! Alegra-me ser vencido hoje por tal vitória do vosso poder!

Que eu veja por vós a luta contra o fogo representada com maior precisão! Que eu veja o combatente retratado ainda mais jubiloso em vossa imagem! Que também os demônios chorem agora, aflitos pelos feitos do mártir em vossa obra! Que mais uma vez a mão ardente seja mostrada derrotando-os! E que também Cristo, o Senhor do combate, seja representado no painel!

A Ele seja a glória pelos séculos dos séculos. Amém.” (Pregação sobre Barlaão, PG XXXI). [http://csla.history.ox.ac.uk/record.php?recid=E00672]

Tem-se aqui um testemunho inequívoco da legitimidade e do valor das imagens sagradas na prática cristã do século IV: elas são apresentadas como meio de glorificação do mártir, de transmissão de sua história e de edificação dos fiéis, culminando inclusive na representação do próprio Cristo, “Senhor do combate”.

[…] Recordar-vos-ei a sua memória e vos representarei seus feitos de maneira abreviada, como num quadro, para vossa utilidade. Os pintores e os oradores sabem trazer à luz, pelo pincel e pela eloquência, as ações memoráveis dos grandes homens, a fim de animar os outros a imitá-los; a pintura produz aproximadamente o mesmo efeito que a história e a palavra; expondo diante de vossos olhos as ações brilhantes dos mártires, encorajarei a seguir seus passos aqueles que, de algum modo, se lhes assemelham pela coragem.” (Sermão XVII: Panegírico dos Quarenta Mártires)

[…] Em todo caso, assim como os pintores, quando pintam uma imagem a partir de outra imagem, lançam frequentemente os olhos para o modelo e se esforçam por fazer passar seus traços para a própria obra, do mesmo modo o homem que se empenha em tornar-se perfeito em todas as partes da virtude deve lançar os olhos sobre a vida dos santos como sobre estátuas vivas e atuantes e, pela imitação, tornar seu o bem que neles existia.” (Carta II: A seu amigo, Gregório)

Sobre as relíquias Sagradas:

Se eu for capaz de encontrar qualquer relíquia dos mártires, rezo para que eu possa participar de seu esforço sincero.” (Carta 49)

Se você enviar as relíquias dos mártires para casa, você vai faz bem; como você escreve que a perseguição está, até agora, fazendo mártires para o Senhor.” (Carta 155)

Ele pegou as relíquias com toda reverência, e ajudou os irmãos em sua preservação. Estas relíquias que você recebe com uma alegria equivalente à angústia com que seus guardiões se separaram delas e as enviou a vós.” (Carta 197 parte 2)

EUSÉBIO DE CESARÉIA


Eusébio de Cersaréia foi bispo de cesaréia no século IV. Foi um grande admirador do imperador Constantino e também de Orígenes de Alexandria.

Eusébio é mais um escritor usado na tentativa de desqualificar as imagens sagradas. A sua citação que usam é a seguinte:

E não é estranho que tenham feito isto os pagãos de outro tempo que receberam algum beneficio de nosso Salvador, quando indagamos que se conservavam pintadas em quadros as imagens de seus apóstolos Paulo e Pedro, e inclusive do próprio Cristo, coisa natural, pois os antigos tinham por costume honrá-los deste modo, sem distinção, como a salvadores, segundo o uso pagão vigente entre eles.” (História Eclesiástica 7,18:4;).

Esta passagem devidamente fora do seu contexto é alegando como que Eusébio está afirmando que o uso de imagens é de costume pagão, porém a citação completa diz o seguinte:

Mas já que fizemos menção a esta cidade, creio que não é justo passar por alto um relato digno de memória inclusive para nossos descendentes. De fato, a hemorrágica, que pelos Evangelhos sabemos que encontrou a cura de seu mal por obra de nosso Salvador, diz-se que era originária desta cidade e que nela se encontra sua casa, e que ainda subsistem monumentos admiráveis da boa obra nela realizada pelo Salvador:

Efetivamente, sobre uma pedra alta, diante das portas de sua casa, alça-se uma estátua de mulher, em bronze, com um joelho dobrado e com as mãos estendidas para a frente como uma suplicante; e em frente a esta, outra do mesmo material, efígie de um homem em pé, belamente vestido com um manto e estendendo sua mão para a mulher; a seus pés, sobre a mesma pedra, brota uma estranha espécie de planta, que sobe até a orla do manto de bronze e que é um antídoto contra todo tipo de enfermidades.

Dizem que esta estátua reproduzia a imagem de Jesus. Conservava-se até nossos dias, como comprovamos nós mesmos de passagem por aquela cidade.

E não é estranho que tenham feito isto os pagãos de outro tempo que receberam algum benefício de nosso Salvador, quando perguntamos por que se conservam pintadas em quadros as imagens de seus apóstolos Paulo e Pedro, e inclusive do próprio Cristo, coisa natural, pois os antigos tinham por costume honrá-los deste modo, simplesmente, como salvadores, segundo o uso pagão vigente entre eles .” (História Eclesiástica 7, 14, 1-4)

Logo vemos pelo contexto que Eusébio no trás que os pagãos imitavam aquilo que era Cristão, só que da forma que já vinham do costume pagão que eles tinham. Eusébio menciona que é relato “digno de memória” os monumentos da mulher hemorrágica que eram representados nas cidades, e os pagãos seguiam este exemplo só que segundo o uso deles.

Em seu quinto livro sobre as provas do Evangelho, mostra como os cristãos reverenciavam as imagens:

Assim, até agora os habitantes valorizam o lugar onde as visões apareceram a Abraão (Gn 1, 1) como divinamente consagrado. A árvore de terebintina ainda pode ser vista, e aqueles que receberam a hospitalidade de Abraão são pintados na imagem, um de cada lado, e o estrangeiro de maior dignidade no meio. Ele seria uma imagem de nosso Senhor e Salvador, a quem até mesmo os rudes homens reverenciam, cujas palavras divinas eles acreditam. […] Foi Ele quem, por meio de Abraão, semeou as sementes da piedade nos homens. Na semelhança e hábito de um homem comum, ele se apresentou a Abraão, e deu-lhe conhecimento de seu pai.” (Eusébio de Cesarea, de se quinto livro das Provas do Evangelho, em “Deus apareceu a Abraão junto ao carvalho de Mambre”.)

AMBRÓSIO DE MILÃO


Santo Ambrósio descreve em uma carta como São Paulo apareceu a ele uma noite, e ele o reconheceu pela semelhança de seus quadros que eram pintados.

Na terceira noite, estando o corpo enfraquecido pelos jejuns, não dormindo, mas em estado de assombro, apareceu-me uma terceira pessoa, semelhante ao bem-aventurado apóstolo Paulo, cujo rosto eu aprendera por meio de uma pintura, a tal ponto que ele próprio falava comigo, enquanto os outros permaneciam em silêncio, dizendo:

“Estes são os que, seguindo minhas advertências, desprezaram propriedades e riquezas e seguiram as pegadas de Nosso Senhor Jesus Cristo, nada desejando do que é terreno ou carnal; perseverando por dez anos no serviço de Deus nesta cidade de Milão, mereceram chegar a isto: tornar-se mártires de Cristo… “(Epistola II, 22 na PL, XVII, 821).

GREGÓRIO DE NISSA


Entre os Padres capadócios, Gregório de Nissa ocupa lugar central na reflexão cristã sobre a imagem, a semelhança e a participação da criatura no arquétipo divino. Em sua obra Sobre a Criação do Homem, ele desenvolve uma antropologia profundamente marcada pela noção bíblica de que o homem foi criado à imagem de Deus, empregando analogias artísticas, como a escultura e a pintura, para explicar como a imagem participa da dignidade do original sem se confundir com ele. Essa abordagem oferece um fundamento teológico sólido para compreender o valor das representações, não como substitutos do divino, mas como meios de referência e participação, ideia que mais tarde seria decisiva na defesa cristã das imagens sagradas.

Assim como na forma humana, os escultores tem uma poderosa compreensão do caráter da forma e estabelecem a dignidade real com a insígnia de purpura, e até mesmo a semelhança é comumente chamada de rei, assim é com a natureza humana, como ela foi criada para governar sobre outras criações, foi feito como um tipo de animação ou imagem, participando do original em dignidade e nome.” (São Gregório de Nissa, a partir da “Sobre a Criação do homem”)

A beleza divina não está estabelecida, nem em forma, graciosidade de desenho ou coloração, mas é contemplada em bem-aventurança sem palavras, de acordo com a sua virtude. Então assim pintores transferem formas humanas a tela através de determinadas cores, colocando em tons adequados e harmoniosos para a imagem, de modo a transferir a beleza do original para a semelhança.(Ibdem, Capítulo V)

No « Discurso sobre a divindade do Filho e do Espírito », São Gregório testemunha a existência de uma imagem do sacrifício de Isaac, bem como a emoção que essa cena lhe suscitava. Essa imagem aparentemente não era rara à época, pois São Gregório afirma ter “visto muitas vezes essa paixão representada em pintura…”.

Em seguida, o pai [Abraão] amarra o filho [Isaac]. E Isaac não resiste ao que vai acontecer. Ele se entrega ao pai, permitindo-lhe fazer o que quiser. A qual dos dois devo admirar mais? Àquele que impõe as mãos sobre o filho por amor a Deus? Ou àquele que obedece ao pai até a morte?

Ambos rivalizam entre si: um elevando-se acima da natureza; o outro considerando mais penoso resistir ao pai do que morrer. Primeiramente, Abraão amarra Isaac com cordas. Muitas vezes vi a imagem dessa cena dolorosa representada em uma pintura e não consegui passar diante dela sem chorar, pois a arte coloca a história claramente diante dos olhos.

Isaac está estendido aos pés do pai, junto ao altar, ajoelhado, com as mãos amarradas atrás das costas. Abraão encontra-se atrás de Isaac, também ajoelhado, e com a mão esquerda puxa-lhe os cabelos para trás, inclinando-se sobre o rosto do filho. Olhando-o com compaixão, dirige a mão direita, armada com um punhal, para degolar Isaac, estando já a ponta do punhal a tocar-lhe a garganta. É então que se faz ouvir uma voz divina, ordenando a Abraão que detenha a sua mão.” (Discurso sobre a divindade do Filho e do Espírito)

O « Elogio de São Teodoro » nos situa em um martyrium, no qual sabemos, segundo o testemunho de outros autores, que era habitual ver o mártir representado por meio de imagens. Esse texto nos mostra que, em 381, data em que São Gregório proferiu o elogio, encontravam-se nessa igreja quatro tipos de imagens:

  1. representações de animais esculpidas em madeira;

  2. uma imagem pintada de uma cena histórica, a saber, o martírio de São Teodoro;

  3. nessa mesma imagem pintada, uma representação direta de Cristo;

  4. mosaicos no pavimento, cujo conteúdo não é especificado.

Os outros corpos mortos causam repulsa a muitos, e ninguém passa com prazer ao lado de um túmulo; mas, se por acaso e contra toda expectativa se depara com um túmulo aberto e se veem as coisas informes que nele se encontram, é tomado pelo nojo e soltam-se profundos gemidos sobre a condição da humanidade, afastando-se rapidamente.

Ao contrário, se alguém entra em um lugar como este em que hoje se encontra a nossa assembleia — onde se conserva a memória do justo e seus santos restos —, é arrebatado pela magnificência de tudo o que vê. Ele contempla o edifício cuja grandeza, esplendor radiante e beleza de ornamentação o transformam em um verdadeiro Templo de Deus, ricamente trabalhado com arte.

[Vê-se como] o carpinteiro esculpiu a madeira em forma de animais, como o canteiro de pedras poliu as lajes, lisas como prata, como o pintor, pelo ápice de sua arte, representou as imagens que ilustram as virtudes do mártir: sua firmeza, seus sofrimentos, as formas selvagens dos carrascos, os insultos, o forno ardente, o fim felicíssimo do atleta e o Cristo em forma humana que preside a tudo.

O artista executou essas imagens para nós como em um livro que fala por meio das cores, explicando com clareza e em detalhes as lutas do mártir. Ele iluminou o templo com abundância de cores e de luz, pois até mesmo a imagem silenciosa na parede sabe falar e ser extremamente útil.

Aquele que dispõe as pequenas pedras do mosaico faz do piso sobre o qual se caminha um espaço digno de narrativa. E aquele que é agradavelmente tocado pelos olhos por essas imagens sensíveis deseja agora aproximar-se do túmulo e tocá-lo, acreditando ser santificado e abençoado por esse contato.“(Elogio de São Teodoro)

Na « Carta 16, 14 »: A Anfilóquio, São Gregório faz alusão a “representações habituais” em uma capela comemorativa. Ele não especifica o que nelas é representado. À luz dos dois outros textos — São Teodoro e Divindade do Pai e do Filho —, não é impossível, e de fato é bastante provável, se os especialistas estiverem corretos, que as imagens representassem os quarenta mártires de Sebaste. O termo habituais é particularmente significativo, pois, qualquer que fosse o conteúdo das imagens, elas não constituíam uma novidade.

A entrada é construída com pedras brancas, formando uma ornamentação adequada, e sobre essas pedras veem-se madeiras de porta artisticamente trabalhadas, nas quais estão representadas algumas imagens, segundo o costume, ao longo das molduras da cornija.

Quanto a todos os materiais de construção, é evidente que cabe a nós fornecê-los, mas é a arte que dará forma à matéria. Além disso, há uma galeria que circunda o edifício, na qual se encontram quarenta colunas — não menos —, todas elas claramente obra de um canteiro de pedras.” (“Carta 16, 14”: A Anfilóquio)

ASTÉRIO DE AMASEIA (380 d.C)


Astério de Amaseia foi um bispo e pregador cristão do século IV, atuante na cidade de Amaseia, na região do Ponto (atual Turquia). É conhecido principalmente por suas homilias, que revelam grande habilidade retórica, sólida formação clássica e profundo compromisso pastoral.

Em sua écfrase sobre Eufêmia (mártir de Calcedônia), descreve uma pintura em tela que retrata o martírio da santa; a imagem está exposta em um pórtico perto do túmulo da santa em Calcedônia (noroeste da Ásia Menor, perto de Constantinopla). Escrita em grego, provavelmente em Amasea (Ponto, norte da Ásia Menor), no final do século IV.

Saindo de casa e caminhando um pouco com alguns conhecidos em direção à praça pública, entrei ali no templo de Deus, onde rezei com toda tranquilidade. Em seguida, enquanto caminhava, cheguei a uma das galerias cobertas e vi ali uma pintura. A visão desta me arrebatou por completo. Dir-se-ia que a obra era de Euphranor³ ou de algum dos antigos, daqueles que elevaram grandemente a pintura, transformando tábuas quase em seres vivos. Mas aqui, se quiseres — pois agora temos tempo para a narração — explicar-te-ei a pintura, pois nós, filhos das Musas, também possuímos cores que em nada são inferiores às dos artistas. […] 

O pintor, ele próprio um homem piedoso, utilizando todo o poder de sua arte, pintou numa tela a história [do martírio de santa Eufêmia] e fixou sua santa obra ao redor do túmulo. Eis a descrição da obra.

Um juiz estava sentado num trono elevado e olhava a virgem com um olhar hostil e malicioso, pois a arte, quando quer, pode impregnar a matéria inanimada com a semelhança da cólera. Havia guardas do magistrado e muitos soldados, escribas portando tábua e estilete; um deles, erguendo a mão, olhava com veemência para a acusada, desviando completamente o rosto [de sua tábua], como se lhe ordenasse falar mais claramente, para que, esforçando-se por ouvir, não escrevesse algo falso e censurável.

A virgem estava de pé e vestia uma túnica cinzenta e um manto, significando assim [sua adesão à] filosofia. O pintor julgou-a bela aos olhos, mas a mim parece que ela estava adornada de virtudes. Dois soldados a conduziam até o juiz: um a puxava, o outro a empurrava. A aparência da virgem era harmoniosamente temperada pela modéstia e pela firmeza, pois, de um lado, ela baixava a cabeça em direção ao chão, como se corasse diante do olhar dos homens; mas, de outro, mantinha-se impassível e nada temia diante do combate [que se aproximava].

O rosto mostrava ao mesmo tempo piedade e cólera, algo que eu até então havia admirado [nas obras de] outros pintores ao ver o drama daquela dama da Cólquida⁴, a que está prestes a matar os próprios filhos: ela divide o rosto entre piedade e ira. Um dos olhos mostra a cólera, mas o outro revela a mãe que poupa [os filhos] e estremece. Agora, porém, transferi minha admiração daquela pintura para esta. Admiro o artista porque soube misturar ainda melhor o brilho das cores, combinando ao mesmo tempo a modéstia e a coragem, duas atitudes que, segundo a natureza, são contraditórias.

A representação prossegue: alguns algozes, nus ou com túnica curta, começaram seu trabalho. De um lado, um deles segura a cabeça [de Eufêmia] e a inclina para trás, apresentando ao outro o rosto da virgem pronta para ser torturada. De outro lado, um segundo, que está ao lado, arranca-lhe os dentes de pérola. Um martelo e uma broca eram os instrumentos do suplício. Agora choro, e uma emoção intensa interrompe meu discurso, pois o artista coloriu de modo tão claro as gotas de sangue que, verdadeiramente, dirias que, como lágrimas, elas escorriam de seus lábios.

Depois de tudo isso, vinha a prisão, e novamente a venerável virgem aparece sentada sozinha em suas vestes cinzentas, levantando as mãos para o céu e invocando Deus, que socorre os que se encontram em meio aos terrores. E acima da cabeça daquela que orava apareceu o sinal diante do qual a lei dos cristãos [os incita a] prostrar-se⁵ e com o qual se assinalam⁶, símbolo — creio — do sofrimento que a aguardava. Ali, um pouco mais adiante, após algum tempo, o pintor acendeu um grande fogo e, servindo-se aqui e ali da cor vermelha, deu corpo às chamas com cores impactantes. Colocou-a no meio das chamas, com as mãos estendidas para o céu, sem que qualquer tormento aparecesse em seu rosto; ao contrário, ela se alegrava por partir para a vida incorpórea e venerável.

Aqui, o pintor encerrou [a pintura] e eu, o meu discurso. É tempo de tu, se quiseres, comparares a própria pintura [com a minha descrição], para poderes julgar com toda exatidão se não ficamos muito aquém [do mérito da pintura] com a nossa explicação.

[http://csla.history.ox.ac.uk/record.php?recid=E00477]

Esse tipo de uso das imagens e da memória da vida dos mártires era bastante comum nesse período, como se vê, por exemplo, nas diversas homilias de São Basílio Magno, nas quais ele descreve e incentiva explicitamente a representação pictórica dos mártires como forma de honra, instrução e edificação dos fiéis.

Cabe trazer o comentário do Padre ortodoxo Steve Bigham: 

Astério acredita que tanto os pintores quanto os oradores possuem a capacidade de narrar dignamente uma história santa. Ele chama o pintor de “piedoso” e sua imagem de “obra santa”, revestindo já o artista e a obra de uma auréola ainda mais elevada do que a dos artistas e das obras da Antiguidade, que já eram altamente estimados.

O bispo de Amaseia testemunha — sendo este, nesse aspecto, o primeiro testemunho de que temos conhecimento — que, por volta do ano 400, os cristãos se prostravam diante da cruz e faziam o sinal da cruz. Ao fim de seu suplício, santa Eufêmia não era representada em sofrimento, dores ou agonia, mas antes cheia de alegria. Isso é, ao menos, um prenúncio das imagens que viriam a mostrar as pessoas já banhadas na luz do Reino de Deus.

A última frase do texto parece conceder uma pequena vantagem à pintura em relação à palavra para representar a nobreza do martírio. De todo modo, cabe aos fiéis julgar.” (Early Christian Atitudes Toward Images)

EGERIA DE CONSTANTINOPLA (+ 384 D.C)


Egéria, também conhecida como Echeria, Eteria, Aetheria e Etheria, foi um autora do século IV que ficou conhecida por seu livro de viagens, conhecido como “A peregrinação aos locais santos”. Tudo parece indicar que nasceu na Galécia, ou segundo outros na Aquitânia.

Em seu livro relata como os cristãos tinham o costume de beijar a cruz, e tinham tanta reverência que alguns chegavam até mesmo arrancar pedaços com os dentes para levarem consigo:

E, uma vez colocados sobre a mesa, o bispo, sentado, aperta com as suas mãos as extremidades do santo lenho e os diáconos, que se mantêm de pé, ao redor, observam. O lenho é assim guardado porque é costume que todo o povo se aproxime, tanto os fiéis quanto os catecúmenos, um a um, e, inclinando-se para a mesa, beijem o santo lenho e passem. E porque dizem ter alguém, não sei quando, cravado os dentes no santo lenho, roubando-lhe um pedaço, por isso é assim guardado agora pelos diáconos que se postam em volta, para que ninguém, chegando, ouse fazê-lo de novo.

Assim, pois, todo o povo passa; inclinando-se todos, um de cada vez, tocando primeiro com a testa e depois com os olhos a Cruz e o título, e beijando a Cruz, afastam-se; ninguém, porém, estende a mão para tocá-la. Ora, depois que todos beijam a Cruz e passam, um diácono, de pé, segura o anel de Salomão e a ânfora da qual se ungiam os reis. Beija-se a ânfora e contempla-se o anel. Até a sexta hora passa todo o povo, entrando por uma porta, saindo por outra, visto que isto se dá no lugar onde, na véspera, isto é, na quinta-feira, se fez a Oblação.” (Egéria de Constantinopla – Peregrinação aos Locais Santos, XXXVII, 3-4)

EPIFÂNIO (315-403)


Um dos mais conhecidos escritores primitivos citados por iconoclastas, é Epifânio de Salamissa, que foi bispo da cidade de Salamina e metropolita da ilha de Chipre no final do século IV d.C. Ficou muito famoso por ser um forte defensor da ortodoxia cristã. Na época da controvérsia iconoclasta surgiram vários escritos atribuídos a sua autoria. Uma delas é uma suposta tradução de são Jerônimo em sua carta 51:

achei ali uma cortina pendurada nas portas da citada igreja, pintada e bordada. Tinha uma imagem de Cristo ou de um dos santos; não recordo precisamente de quem era a imagem. Vendo isto, e opondo-me a que a imagem de um homem fosse pendurada na igreja de Cristo, contrariamente ao ensinamento das Escrituras, a rasguei” (São Jerônimo, Carta 51, 9;).

Esta é a parte final introduzida na carta de Epifânio ao imperador Teodósio. Alguns protestantes se baseiam nesta suposta tradução de São Jerônimo para o latim para afirmar que Epifânio era contra as imagens. Existem várias inconsistências nesta suposta tradução que invalidam totalmente a sua autenticidade.

1 – A carta em latim era o único manuscrito conhecido até o século XIX. O historiador protestante Philip Schaff quando traduziu do latim para o Inglês, ainda não tinha a versão grega original descoberta por Daniel Serruys no início do século XX que difere em pontos chaves da tradução latina.

2 – A suposta tradução é escrita em latim pobre e rústico, incompatível com o belo e polido latim de São Jerônimo, portanto esta versão latina possuída hoje, não é a mesma versão traduzida por são Jerônimo que foi perdida com o tempo.

3 – George Ostrogorsky, autor ortodoxo, provou claramente a completa farsa da versão latina, que segundo ele foi produzida na época da controvérsia iconoclasta, levando o nome de Jerônimo, por partidários da heresia iconoclasta para terem apoio na Tradição da Igreja, forjaram escritos e atribuíram a Epifânio.

4 – Embora George Ostrogorsky também considere falsa a parte da versão grega que menciona o caso da curtina como adição posterior, a pesquisadora Charles Murray comparando a versão grega com a Latina, afirma que o caso da cortina existiu em grego, só que relatado de uma forma totalmente diferente e que vendo isso os iconoclastas pegaram o relato e adulteraram o acontecido para lhes favorecer.

A Versão grega que Segundo Murray é autentica, traz o relato da seguinte forma:

Nós vimos uma lamparina queimando. Nós perguntamos sobre e fomos informados que ali havia uma Igreja. Nós fomos lá para orar e encontramos uma cortina pendurada em frente a porta. Na cortina havia alguma coisa idolátrica na forma de homem. Eles disseram que ali era talvez uma representação de Cristo ou de um dos santos; Eu não lembro. Sabendo que estas coisas são detestáveis em uma Igreja, eu rasguei a cortina e sugeri que fosse usada como roupa de enterro para uma pessoa pobre.” (Tradução da versão grega)

Vemos aqui a total diferença entre a versão grega original e a tradução pobre latina. Se a parte final na versão grega for autêntica, ela não nos mostra absolutamente nenhuma rejeição de Santo Epifânio às imagens. Como Murray argumenta, os fiéis daquela Igreja que ele visitava, colocaram uma cortina de um ídolo em forma de homem, que eles pensavam ser algum santo ou Cristo. Portanto Epifânio rasgou a cortina por que ali estava um ídolo, que é totalmente proibido nas Igrejas e não por que ter imagens era contrário as escrituras como sugere a falsificação latina iconoclasta.

Também São João Damasceno, Teodoro Estudita, e Nicéforo de Constantinopla demonstram a total falsidade e incompatibilidade doutrinária das obras atribuidas a Epifânio que circulavam entre os iconoclastas.

Para uma melhor apreciação do caso de Santo Epifânio recomendo a leitura da obra magistral: “Epifânio de Salamissa: Um doutor da Iconoclastia? A Destruição de um Mito.” em inglês, escrito por Steven Bigham, que pode ser adiquirido no Amazon.

JOÃO CRISÓSTOMO (347 – 407 d.C)


São João Crisóstomo é doutor da Igreja, nascido em Antioquia, em 347 d.C, morreu em Commana em Pontus em 14 de Setembro de 407. É considerado o mais proeminente Doutor da Igreja Grega e o maior pregador que já subiu em um púlpito cristão.

Sobre as imagens sagradas ele ensina:

Por essa razão, quando a condição é humilde, a Escritura afirma ousadamente a honra; mas onde a natureza é mais elevada, ela se abstém. “A Imagem do Invisível” é ela mesma também invisível, e invisível do mesmo modo, pois de outro modo não seria imagem. Porque uma imagem, na medida em que é imagem, também entre nós, deve ser exatamente semelhante, por exemplo, quanto aos traços e à aparência.

Entre nós, porém, isso de modo algum é possível, pois a arte humana falha em muitos aspectos — ou melhor, falha em todos, se examinada com rigor. Mas onde Deus está, não há erro nem falha.” (Terceiro Comentário sobre Colossenses.)

Como em imagens a imagem apresenta a forma de um homem, mas não sua força, de modo que o original e a semelhança têm muito em comum, a semelhança é o homem.” (Comentário sobre os Hebreus – Cap. XVII.)

Ele expressa a presença de imagens e elementos artísticos nas igrejas não apenas era aceita, mas teologicamente integrada à catequese e à vida espiritual da Igreja antiga:

Pois, como um incêndio devastador, ou como um raio lançado do alto, eles caíram sobre o teto da Igreja, e, no entanto, não despertam ninguém; mas, enquanto a casa de nosso Pai está em chamas, nós dormimos, por assim dizer, um sono profundo e estúpido. E, contudo, quem há que não seja tocado por esse fogo? Qual das estátuas que estão na Igreja? Pois a Igreja não é outra coisa senão uma casa construída das almas de nós, homens.
Ora, essa casa não possui a mesma honra em todas as suas partes, mas, das pedras que a compõem, algumas são brilhantes e resplandecentes, enquanto outras são menores e mais opacas do que elas, ainda que superiores a outras. Ali podemos ver muitos que ocupam o lugar do ouro, o ouro que adorna o teto. Outros, por sua vez, conferem a beleza e a graça produzidas pelas estátuas. Muitos vemos que se erguem como colunas. Pois ele costuma chamar também os homens assim, por causa de sua beleza, acrescentando eles muita graça, e tendo suas cabeças revestidas de ouro.(Homilias sobre Efésios 10, c. 400 d.C.)

Crisóstomo fala naturalmente de estátuas, ouro, colunas e ornamentos dentro da Igreja e não o faz para condená-los, mas para usá-los como analogia positiva da vida cristã. Isso é decisivo do ponto de vista apologético: se as imagens fossem consideradas intrinsecamente idolátricas, ele jamais as tomaria como referência pedagógica legítima para explicar a dignidade, a diversidade e a beleza dos membros da Igreja.

Mais ainda: ao afirmar que a Igreja é “uma casa construída das almas”, ele não opõe o espiritual ao visível, mas os integra. O templo material, adornado com ouro, colunas e estátuas, é um sinal sensível da realidade invisível da Igreja viva. Assim, as imagens não competem com Deus, mas servem à contemplação do que Deus realiza nos homens.

Falando sobre as imagens dos reis e como elas os representam, usa também a doutrina católica para explicar como um honra dirigida a uma imagem do rei, é a mesma coisa de está honrando o rei:

Os Reis colocam troféus vitoriosos diante de seus generais conquistadores; governantes erguem monumentos orgulhosos de seus cavaleiros, e os homens bravos, com o epitáfio como uma coroa, usam a matéria para o seu triunfo. Outros, ainda, escrevem os louvores dos conquistadores em livros, que desejando mostrar que seu próprio presente no louvor é maior do que aqueles elogiado. E oradores e pintores, escultores e pessoas, governantes e cidades e lugares aclamam o vitorioso. Ninguém nunca fez imagens do desertor ou do covarde.”(Sobre Terceiro Salmo, por David, e Absalão)

As efígies reais são mostradas não só sob ouro e prata, e os materiais mais caros, mas a forma real em si, até mesmo em cobre. A diferença da matéria não afeta a dignidade do personagem esculpido, nem um material mais vil diminui a honra do que é grande. A Figura real é sempre uma consagração; não diminuí pela matéria, exalta a matéria.” (São João Crisóstomo sobre os Macabeus.)

Sobre as relíquias sagradas, mostra como elas, servem de inspiração e como tem o poder de realizar milagres:

…é possível para ele que vem para cá com a fé para colher o fruto de muitas coisas boas. Pois não os corpos apenas, mas as próprias sepulturas dos santos têm sido preenchidas com graça espiritual. Porque, se no caso de Eliseu que isso aconteceu, e um cadáver quando tocou o sepulcro, estourou as ligaduras da morte e voltou à vida novamente, muito melhor agora, quando a graça é mais abundante, quando a energia do espírito é maior, é possível que alguém tocando um sepulcro, com fé, deve ganhar um grande poder, daí por esta razão Deus permitiu-nos os restos mortais dos santos, desejando por eles nos levar à mesma emulação, e para nos dar uma espécie de refúgio, e um consolo seguro para os males que estão sempre nos ultrapassando. Por isso peço a todos vocês, se alguém está desanimado, em caso de doença, ou insultado, se em qualquer outra circunstância da vida, se na profundidade dos pecados, venha cá com a fé..(Homilia sobre o Santo Inácio, 5;)

Para além dos assuntos que foram mencionados, há um outro, sobre o qual alguns não estão menos perplexos, perguntando dentro de si o que conta Deus permitiu que um homem possuir tal confiança Nele dele, cujos ossos e relíquias expulsaram demônios, cair em tal estado de fraqueza, pois não é apenas que Ele estava doente, mas constantemente, e por um período de tempo. . . (Homilia I, Sobre as estátuas ao povo de Antioquia, 5;)

AURÉLIO PRUDÊNCIO (348 – 410 d.C)


Aurélio Clemente Prudêncio ou só Prudêncio foi um poeta cristão romano. É considerado o maior poeta cristão da Antiguidade tardia.

Prudêncio, também lembra, nos primeiros anos do século quinto, que muitos peregrinos iam para Roma e até mesmo de regiões vizinhas para venerar o túmulo do mártir Hipólito que foi enterrado nas catacumbas da Via Tiburtina. Seus poemas podem ser lidos aqui e aqui. Também mostra e retrata com esplendor das pinturas que haviam nas catacumbas romanas.

Interessante lermos o comentário de Ralph Martin tradutor dos poemas de Aurélio: 

Já se fez referência à influência de Ambrósio de Milão sobre o pensamento e o estilo de Prudêncio. Há, porém, uma segunda influência, ainda mais poderosa, que merece ao menos uma breve menção: a arte cristã das Catacumbas. À parte declarações explícitas — como as que se encontram, por exemplo, no Peristephanon XI —, é evidente que Prudêncio possuía conhecimento direto de Roma e, em particular, das CatacumbasEm toda a sua poesia encontramos indícios do profundo impacto que as pinturas e esculturas da Roma subterrânea exerceram sobre sua imaginação. As representações hoje bem conhecidas, que adornam os vestígios das Catacumbas, sugeriram-lhe muitas das alusões, vinhetas pitorescas e descrições vívidas presentes em seus poemas.

Assim, a história de Jonas — tema recorrente que simboliza a Ressurreição —, a história de Daniel, com seus evidentes consolos para uma época de mártires, o Bom Pastor e a negação de Pedro podem ser mencionados entre os numerosos temas reproduzidos na arte cristã primitiva e transpostos pelo poeta para seus versos. O simbolismo do Galo, da Pomba e do Cordeiro, carregado aos ombros do Bom Pastor, é um elemento que retorna constantemente nas composições líricas e nos hinos martiriais de Prudêncio, o que faz dele uma das mais valiosas autoridades sobre a arte cristã do século IV.” (The Hymns of Prudentius translated by R. Martin Pope)

DIONÍSIO AREOPAGITA (PSEUDO-DIONÍSIO)


Dionísio Areopagita ou Pseudo-Dionísio é o nome pelo qual é conhecido o autor de um conjunto de textos que exerceram, segundo os historiadores da filosofia e da arte, uma forte influência em toda a mística cristã ocidental na Idade Média. O autor se apresenta como Dionísio, o ateniense membro do Areópago, o único convertido por São Paulo (em Atos 17, 34), no Século I. Mas os textos foram escritos por um teólogo bizantino sírio do fim do século V originalmente em grego, depois traduzidos para o latim por João Escoto Erígena.

Em vez de anexar a concepção comum às imagens, devemos olhar para o que elas simbolizam, e não desprezes a marca divina e caráter que eles retratam, como imagens sensíveis de visões misteriosas e celestiais.” (Carta ao bispo Tito.).

Temos tomado a mesma linha. Por um lado, através da linguagem velada da Escritura e com a ajuda da tradição oral, as coisas intelectuais são entendidas através de entes sensíveis, e as coisas acima da natureza por parte das coisas que são. Formas são dadas para o que é imaterial e sem forma, e a perfeição imaterial está vestida e multiplicada em uma variedade de diferentes símbolos.” (Sobre os nomes Divinos).

Agora, se as substâncias (ousiai) e ordens acima de nós, das quais já fizemos menção reverente, estão sem corpos, sua hierarquia é de sentido intelectual e superior. Nós fornecemos pela variedade de símbolos sensíveis a ordem visível, o que está de acordo com a nossa própria medida. Esses símbolos sensíveis nos levam naturalmente a concepção intelectual, a Deus e Seus atributos divinos. Mentes espirituais formam suas próprias concepções espirituais, mas somos levados à visão divina por imagens sensíveis.”. (Hierarquia Eclesiástica.)

Imagens sensíveis, de fato, manifestam coisas invisíveis.” (Carta a São João Apóstolo e Evangelista.)

Embora estes textos não sejam originalmente escritos por Dionísio no século I, eles datam do século IV e já nos mostram toda a filosofia católica a respeito das imagens formada e clara.

PAULINO DE NOLA (420 d.C)


Paulino de Nola, também conhecido como Pôncio Âncio Merópio, foi ordenado presbítero em 394 e, em 409, tornou-se bispo de Nola, na região da Nápoles. Homem de grande sensibilidade pastoral e artística, Paulino financiou mosaicos e pinturas que representavam cenas bíblicas e figuras de santos para as igrejas de sua cidade.

Posteriormente, descreveu detalhadamente esse programa iconográfico em seus poemas (Carmina), sobretudo no Carmen 27, e também em diversas cartas dirigidas a amigos eclesiásticos, entre eles Santo Agostinho e Sulpício Severo. Nessas obras, Paulino evidencia uma concepção madura da arte sacra como instrumento catequético, destinada a instruir os fiéis, especialmente os simples e iletrados, por meio da contemplação visual dos mistérios da fé.

Nas galerias porticadas, onde um único pórtico, estendido em longo traçado, se prolonga num amplo espaço, três acessos próximos se abrem lateralmente e três portas se escancaram com grades correntesNo centro, nomes piedosos assinalam mártires pintados, cuja glória igual resplandeceu em sexos diversos. Mas as duas alas, abertas à direita e à esquerda, a pintura fiel adorna com duas histórias em cada umaUma apresenta os feitos sagrados de santos varões: , provado pelas feridas; Tobias, provado pela cegueira. A outra é ocupada pelo sexo feminino: a ilustre Judite, e juntamente com ela a poderosa rainha EsterO espaço interior sorri com ornamentos variados, alegre sob os telhados, aberto à luz serena, com fachadas claras e, abaixo, circundado por colunas brancas. No centro exposto brilha uma fonte luminosa, protegida por uma torre de bronze com cobertura gradeada.” (Poema XXVIII)

São tantas as referencias de Paulino de Nola as imagens nas Igrejas em nola nesta época que é desnecessário citarmos aqui, até por questões de esforço em traduzir do latim, faremos isso em um texto separado. 

AGOSTÍNHO DE HIPONA (430 d.C)


Santo Agostinho refere-se várias vezes a fotos de nosso Senhor e os santos nas igrejas, por exemplo, contra Fausto diz que a cenas da história de Abraão são pintadas em diversos lugares:

Pois Abraão sacrificar seu filho por conta própria é uma loucura chocante. Seu feito sob o comando de Deus prova-o fiel e submisso. Isto é tão alto proclamado pela própria voz da verdade, que Fausto, vasculhando ansiosamente por alguma falha, e reduzindo a última a acusações caluniosas, não tem a ousadia de atacar esta ação. É quase impossível que ele possa ter esquecido desta ação tão famosa, que se repete com a mente de si mesmo, sem qualquer estudo ou reflexão, e é de fato repetido por tantas línguas, e retratratado em tantos lugares, que ninguém pode fingir fechar os olhos ou os ouvidos a ela.” (Contra Fausto XXII, 73)

Fala que Jesus, Pedro e Paulo eram pintados em muitos lugares, e era honrada a memória dos apóstolos:

Pois, quando eles inventaram em suas mentes dizer que Cristo escreveu tal estirpe como esta aos Seus discípulos, eles se lembraram daqueles de Seus seguidores que poderiam ser melhores tomadas por pessoas a quem poderia mais facilmente ser crido como sendo os destinários do que foi escritos por Cristo, os indivíduos que haviam mantido tido com ele mais amizade. E assim Pedro e Paulo lhes ocorreu, eu acredito que, só porque em muitos lugares tiveram a chance de ver esses dois apóstolos representados em imagens ambos em companhia com Ele.Pois Roma, de uma maneira especialmente honrada e solene, elogia os méritos de Pedro e de Paulo, por este motivo, entre outros, a saber, sofreram [martírio] no mesmo dia.(Harmonia dos Evangelhos Livro I, Capítulo X)

Fala sobre a Honra aos relicários dos Mártires:

Mas, no entanto, nós não construímos templos, e ordenamos sacerdotes, ritos e sacrifícios para estes mesmos mártires, porque não são nossos deuses, mas o seu Deus é o nosso Deus. Certamente honrarmos seus relicários, como os memoriais dos santos homens de Deus que se esforçaram para a verdade, mesmo até morte de seus corpos, para que a verdadeira religião pudesse ser conhecida, e as religiões falsas e fictícias expostas. (Cidade de Deus, livro VIII, capítulo 27)

Dos milagres que as relíquias dos mártires fazem:

Quando o bispo Projectus estava trazendo as relíquias do glorioso mártir Estevão às águas do Tibilis, uma grande multidão de pessoas veio para encontrá-lo no santuário. Há uma mulher cega suplicou que ela fosse levada ao bispo que estava carregando as relíquias. Ele deu a ela as flores que ele estava carregando. Ela levou, aplicou-as a seus olhos, e imediatamente viu.” (Cidade de Deus, Livro XXII).

Porque até agora milagres são realizados em nome de Cristo, seja por seus sacramentos, pelas orações ou relíquias dos seus santos, mas eles não são tão brilhantes e visíveis a provocar-lhes a serem publicados com tal glória como acompanharam os antigos milagres.(Cidade de Deus Livro XXII, 8)

Quão forte são as suas súplicas por você, que reside no mesmo país nesta terra em que estas senhoras, pelo amor de Cristo, renunciaram as distinções deste mundo, Eu também peço-lhe para rebaixar e receber com o mesmo amor com o qual Eu ofereci a minha saudação oficial, e se lembre de mim em suas orações. Estas senhoras carregam consigo relíquias do abençoado e gloriosíssimo mártir Estevão: Vossa Santidade sabe dar a devida honra a estes, como temos feito.”(Carta 212).

E da celebração da memória dos mártires e do auxílio de sua oração:

Um povo cristão celebra unidos em solenidade religiosa o memorial dos mártires, tanto para encorajar e ser imitado quanto para que possamos participar de seus méritos e serem auxiliados pelas suas orações. Mas é tal que os nossos altares estão definidos para qualquer dos mártires – mas apenas em sua memória -, mas ao próprio Deus, o Deus dos mártires.” (Agostinho, Contra Fausto o maniqueísta).

Santo Agostinho também lança a base teológica para os tipos de culto, que são distintos na doutrina católica:

Mas que o Espírito Santo não é uma criatura, é muito simples por aquela passagem acima de todos os outros, onde somos ordenados para não servir a criatura, mas ao Criador, não no sentido em que somos ordenados a “servir” um ao outro pelo amor, que é douleuein [dúlia] em grego, mas naquele em que só Deus é servido, que está latreuein [latria] em grego. De onde eles são chamados de idólatras, pois ofertam imagens o que é devido a Deus. Pois é este serviço sobre o qual é dito: “Tu adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele darás servirás”. Pois isso também é encontrada mais claramente nas Escrituras Gregas, que têm latreuseis. Ora, se somos proibidos de servir a criatura com tal serviço, visto que está escrito, mais a criatura do que o Criador, então com certeza o Espírito Santo não é uma criatura, a quem esse serviço é dado por todos os santos; como diz o apóstolo: “Porque somos nós a circuncisão, que serve ao Espírito de Deus”, que está em grego latreuontes. Pois até mesmo os exemplares mais latinos o têm assim.(Sobre a Santíssima Trindade Livro I, 6, 13 ).

Em sua resposta a Fausto Maniqueista que acusava os cristãos de idolatria e de transformarem os mártires em ídolos, ele mostra novamente que o culto cristão aos mártires e santos é de Dulia, e que difere do culto supremo a Deus, que é Latria. E diz que a noção raza de que adoramos os mártires como ídolos é advinda de poesias pagãs:

Quanto à nossa honra que damos à memória dos mártires, e a acusação de Fausto, que os adoramos, ao invés de ídolos, eu não deveria me importar em responder este tipo de acusação, se não fosse por uma questão de mostrar como Fausto, em seu desejo de lançar opróbrio sobre nós, ultrapassou as invenções maniqueístas, e caiu descuidadamente em uma noção popular que encontrou na poesia pagã, embora ele seja tão ansioso para se distinguir dos pagãos […] O que é propriamente o culto divino, que os gregos chamam de latria, e para o qual não existe uma palavra em latim, tanto na doutrina, quanto na prática, damos somente a Deus. Pois este culto pertence a oferta de sacrifícios, como podemos ver na palavra idolatria, que significa que a doação deste culto aos ídolos. Assim nós nunca oferecemos ou exigimos que qualquer um ofereça, sacrificios a um mártir, para uma alma santa, ou a qualquer anjo. Qualquer um que cair neste erro é instruído pela doutrina, seja na forma de correção ou de cautela.” (Resposta a Faustus o maniqueísta – Livro XX, 21)

Existem também citações de Santo Agostinho que juntamente com a má interpretação da doutrina católica, alguns tentam argumentar colocando santo Agostinho contra o uso das imagens, e ainda afirmam que o argumento dele, é contrário ao de São Tomás de Aquino, tentando colocar os dois doutores em oposição. A citação de Santo Agostinho, usada, se encontra no comentário Sobre o Salmo 96, 7:

Confundidos sejam todos os que servem imagens esculpidas (Salmo 96,7). Porventura não fez isso acontecer? Porventura não foram confundidos? Não são eles diariamente confundidos? Pois imagens esculpidas são as imagens trazidas pela mão. Por que são todos os que servem imagens esculpidas, confundidos? Porque todas as pessoas têm visto Sua glória. Todas as nações agora confessam a glória de Cristo: que aqueles que adoram pedras se envergonhem. Porque as pedras estavam mortas, encontramos uma pedra viva, na verdade essas pedras nunca viveram, de modo que elas não podem ser chamadas até mesmo mortas, mas a nossa pedra está vivendo e já viveu com o Pai, e Ela morreu por nós, Ele reviveu, e vive agora, e a morte não tem mais domínio sobre ela. (Romanos 6, 9). Esta glória dele, nações reconheceram, eles deixam os templos, e correm para as igrejas. Será que eles ainda buscam adorar imagens de escultura? Será que eles não escolheram a abandonar seus ídolos? Eles foram abandonados por seus ídolos. Quem se glórifica nos seus ídolos. Mas há um certo opositor que parece ele próprio aprendeu, e diz: ‘Eu não adoro essa pedra, nem que a imagem que é sem sentido…Eu não adoro esta imagem, mas eu adoro o que eu vejo, e servi-lo a quem eu ver não. Quem é esse? Uma divindade invisível,’ ele responde, ‘que preside essa imagem.’ Ao dar esta conta de suas imagens, eles parecem-se disputantes capazes, porque não adoram ídolos, e ainda adoram demônios. As coisas, porém, irmãos, diz o Apóstolo, que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios, e não a Deus, sabemos que o ídolo não é nada, e que o que os gentios sacrificam, as sacrificam aos demônios e não a Deus, e não quero que sejais participantes com os demônios. Deixe-os, portanto, não se desculpar por esse motivo, que não são dedicados a ídolos insensatos, pois eles são bastante dedicados aos demônios, o que é mais perigoso. Porque, se eles apenas estavam adorando ídolos, pois não iriam ajudá-los, para eles não machucá-los, mas se você adorar e servir a demônios, eles mesmos serão os vossos mestres…” (Salmo 96, 7)

De modo algum o argumento de Santo Agostinho vai contra o argumento de São Tomás. O que Agostinho diz no final é que mesmo com o argumento que os pagãos utilizavam para justificarem que não adoram a pedra, continuam adorando ídolos, pois seja a pedra ou algo invisível representado pela pedra continua sendo ídolo. E, mesmo com esta argumentação, eles continuavam adorando ídolos, pois material ou não, é ídolo, o que difere totalmente da argumentação de São Tomás de Aquino que diz respeito à veneração e não adoração dos anjos e santos. Santo Agostinho não anula a forma da argumentação dos pagãos (que se mostra similar a de são Tomás), mas mostra que é apenas uma desculpa que não serve para justifica-los, pois ídolo é ídolo seja feito palpável ou não.

É curioso como alguns dão autoridade ao argumento de Santo Agostinho, em um contexto totalmente diferente da teologia bem mais madura de São Tomás, sem levar em conta o contexto, que diz respeito a ídolos e não a qualquer imagem. Não seria o inverso, de Santo Tomás refutar Agostinho em sua compreensão teológica mais avançada, se eles estivessem discordantes? Apesar de nenhuma das argumentações dos santos se contradizerem? Esta fraseologia Agostiniana só prova que a prática adoração não era generalizada, só se aplica entre os abusos dos ignorantes nos cultos pagãos, o que não é nenhuma novidade, mas uma verdade que é evidente em todo tempo e lugar.

Também santo Agostinho mostra em seu livro “A Doutrina Cristã” que ninguém erra fazendo uma imagem desde que se tenha um propósito, e claro, este propósito não pode ser a adoração delas.

Mas no que diz respeito a imagens e estátuas, e outras obras deste tipo, que servem como representações das coisas, ninguém comete um erro, especialmente se eles são feitas por artistas qualificados, mas cada um, assim que vê as semelhanças, reconhece as coisas que são de semelhanças”. (Doutrina Cristã livro II, Capítulo 25, Parágrafo 39)

Portanto, temos em santo Agostinho um grande defensor e incentivador do uso das imagens e relíquias sagradas.

TEODORETO DE CIRRO (393 – 457 d.C)


Em sua história eclesiástica escreve:

Quando os artistas pintam em painéis e nas paredes os acontecimentos da história antiga, que tanto encantam os olhos, e manter brilhante por muitos anos a memória do passado. Historiadores substituem livro por painéis, descrições brilhante por pigmentos, e, assim, tornam a memória de eventos passados, mais fortes e permanentes, pois a arte do pintor é arruinada pelo tempo.” (História Eclesiástia de Teodoreto de Cirro I, 1)

MARIA DO EGITO (344 – 421 d.C)


Maria do Egito ou Santa Maria Egipcíaca ou Santa Maria Egípcia foi uma asceta dos séculos IV e V que se retirou para o deserto após uma vida de prostituição. É uma mulher muito conhecida nos primeiro séculos de cristianismo.

E assim permaneci chorando, quando vi acima, um ícone da Santíssima Mãe de Deus. E voltando para ela meus olhos do corpo e da alma eu disse:

‘Ó Senhora, Mãe de Deus, que deste à luz na carne a Deus, a Palavra; eu sei, ó quão bem eu sei, que não há nenhuma honra ou louvor para vós quando alguém tão impura e depravada como eu, olha para teu ícone, ó sempre Virgem, que mantiveste vosso corpo e alma na pureza. Certamente inspiro desprezo e desgosto ante vossa pureza virginal. Mas já ouvi que Deus, que nasceu de vós, se tornou homem para chamar pecadores à conversão. Então, ajude-me, pois não tenho outro auxílio. Ordene que os portais da igreja se abram para mim. Permita-me ver a venerável Árvore na qual Ele que nasceu de vós, sofreu na carne e na qual Ele derramou seu preciosíssimo Sangue pela redenção dos pecadores e para mim, indigna como sou. Seja minha testemunha fiel diante de Teu Filho que eu nunca mais corromperei meu corpo na impureza da fornicação, mas tão logo eu veja a Árvore da Cruz, renunciarei ao mundo e às suas tentações e irei onde quer que me conduzas.’

Assim falei e como se recobrasse nova esperança, com fé firme e sentindo alguma confiança na misericórdia da Mãe de Deus, deixei o lugar onde tinha ficado rezando. E fui novamente, misturada à multidão que fazia seu caminho dentro do templo. E ninguém parecia impedir-me, ninguém estorvou minha entrada na igreja. Fiquei possuída de tremor e estava quase à beira do delírio. Tendo chegado tão próximo das portas, o que eu não conseguira antes, como se a mesma força que me impedira agora abrisse caminho para mim, eu agora entrava sem dificuldade e me encontrei no lugar santo. E então vi a Cruz Vivificante. Vi também os Mistérios de Deus e como o Senhor aceita o arrependimento. Jogando-me ao chão, adorei aquela terra santa e tremendo, beijei-a. Então saí da igreja e fui àquela que prometeu ser minha segurança, ao lugar onde eu selei meu voto. E dobrando meus joelhos diante da Virgem Mãe de Deus dirigi a ela estas palavras:

‘Ó Amável Rainha (filagaqe despoina), vós mostrastes-me vosso grande amor por todos os homens. Glória a Deus, que aceita o arrependimento de pecadores através de vós. O que mais posso lembrar ou dizer, eu que sou tão pecadora? É hora para mim, ó Senhora, de cumprir meu voto, de acordo com o vosso testemunho. Agora, conduza-me pela mão pelo caminho do arrependimento!(Da Vida de Santa Maria do Egito.)

JERÔNIMO (347-420)


São Jerônimo foi um grande tradutor e doutor da Igreja nos séculos IV e V.

Jerônimo descreve sobre as imagens dos Apóstolos como ornamentos bem conhecidos: 

In cucurbitis vasculorum quas vulgo saucomarias vocant, solent apostolorum imagines adumbrari.” (Comentário Sobre o Profeta Jonas Capítulo IV, 15)

Na verdade, nas próprias abóboras dos vasos, que comumente chamamos de Saucomarias, costumam-se retratar as imagens dos apóstolos: e delas ele também tomou o nome.“(Comentário Sobre o Profeta Jonas Capítulo IV, 15)

A palavra “Sucomarias” foi usada aqui para representar tipos de recipientes (taças ou copos) onde se colocavam vinhos e bebidas na antiguidade, São Jerônimo já nos mostra como era comum em sua época as representações dos apóstolos até mesmo nas taças. Assim esclarece o LEXICON TOTIUS LATINITATIS AEGIDIO FORCELLINI LUCUBRATUM. VOL. 4. A ED. QUARTA:

“SĀCOMĀRĬUS, a, um, adjetivo. Que serve para medir, ou que usamos para medir a capacidade dos vasos. Hieronym. in Jon. 4. 15: ‘Um certo Cantherlus, há tempos em Roma, diz-se que me acusou de sacrilégio, pelo qual transplantei uma hera no lugar de uma abóbora: temia, evidentemente, que, se em vez de abóboras crescessem heras, ele bebesse em segredo e na escuridão, onde quer que estivesse. E, de fato, com aquelas mesmas abóboras, os vasos, que comumente chamam de sacomatias, costumam representar as imagens dos Apóstolos; e delas ele também tomou o nome. Na edição, erroneamente se lê saucomarias, que é uma palavra sem sentido: pois aqui Jerônimo parece aludir àqueles pequenos vasos de abóbora, que os taberneiros usam para servir vinho aos bebedores, no fundo dos quais antigamente, como às vezes ainda hoje, as imagens dos Santos ou dos Apóstolos são representadas. V. Inscript. Fabrett. p. 593″

Sobre as relíquias sagradas Escreve:

Ela correu para os santuários dos mártires, despercebida. Essas visitas deram-lhe prazer, e ainda mais porque ela nunca foi reconhecida.(Carta 24, 4)

Onde quer que nós veneramos os túmulos dos mártires, nós colocamos suas cinzas sagradas aos nossos olhos; Até mesmo tocamos, se pudermos, com nossos lábios.” (Carta 46, 8)

Nós veremos a fonte em que o eunuco foi imerso por Felipe. Vamos fazer uma peregrinação a Samaria, e lado a lado, venerar as cinzas de João Batista, de Eliseu, e de Obadias.” (Carta 46, 13)

Nós somos, portanto, culpados de sacrilégio quando entramos nas basílicas dos Apóstolos? Foi o imperador Constantino I culpado de sacrilégio quando ele transferiu as relíquias sagradas de André, Lucas e Timóteo para Constantinopla?(Contra o Vigilancio, 5).

Refuta e trata como herege Vigilancio que dizia que os cristãos adoram ossos de gente morta:

Você me diz que Vigilâncio (cujo nome Acordado é uma contradição: ele deveria antes ser descrito como Dormilancio) abriu novamente seus lábios fétidos e está derramando uma torrente de veneno imundo sobre as relíquias dos santos mártires, e que ele chama-nos quem os estima divulgadores de cinzas e idólatras que prestam homenagem aos ossos de homens mortos. Desgraçado infeliz! Que lamenta sobre todos os cristãos […] nós, é verdade, nos recusamos a cultuar ou adorar, não as relíquias dos mártires, mas o sol, a lua, os anjos e arcanjos, os Querubins e Serafins e “cada nome que se nomeia, não só neste mundo, mas também no que está por vir.” Pois nós não podemos “servir a criatura mais do que o Criador, que é bendito eternamente.” Ainda nós horramos as relíquias dos mártires, para que possamos adorá-Lo aquele de quem mártires são. Nós honramos os servos para que sua honra possa ser refletida sobre o seu Senhor. (São Jerônimo – Carta 109, 1)

Vigilâncio, era um presbítero da Gália (Aquitânia), começou a pregar contra várias práticas da Igreja. Ele atacou especificamente a veneração das relíquias, chamando aos cristãos “adoradores de cinzas” (cinerarii) e idólatras. Ele argumentava que os restos mortais deviam ser enterrados e esquecidos, pois os santos estavam mortos e não escutavam nada, e não envolvidos em seda ou colocados em relicários de ouro.

Jerónimo refuta isto com a Bíblia, afirmando que Deus «não é Deus de mortos, mas de vivos». Ele diz que os mártires “seguem o Cordeiro para onde quer que Ele vá” (Apocalipse 14:4). Se os Apóstolos e mártires podiam rezar pelos outros enquanto estavam na terra, cheios de preocupações, muito mais o podem fazer agora, depois de terem alcançado a coroa da vitória em Cristo. Para provar que Deus valoriza os restos mortais dos Seus santos, Jerónimo recorre ao Antigo Testamento. Ele cita o episódio em que os ossos do profeta Eliseu ressuscitaram um morto (2 Reis 13:21). Se os ossos secos de um profeta tinham tanto poder pela graça de Deus antes da vinda de Cristo, quanto mais valor terão os restos daqueles que foram templos do Espírito Santo e morreram por Jesus?

Jerónimo usa um argumento de autoridade histórica. Ele desafia Vigilâncio, perguntando se todos os bispos do mundo estão errados. Menciona o exemplo do Imperador Constantino e de outros imperadores que transladaram os restos mortais de Santo André, São Lucas e Timóteo para Constantinopla com a máxima reverência, e lembra como os cristãos de Roma se reuniam junto aos túmulos de São Pedro e São Paulo.

Como pode ver, quando Lutero e Calvino (e o humanista Erasmo) começaram a atacar as relíquias no século XVI, eles estavam essencialmente a ressuscitar a velha heresia de Vigilâncio. E a resposta da Igreja foi voltar a usar a mesma defesa de São Jerônimo.

CIRÍLO DE ALEXANDRIA (444 d.C)


São Cirílo foi tão grande defensor dos ícones que seus adversários o acusaram de idolatria (ver Schwarzlose, “Der Bilderstreit” I, 3-15).

Mesmo que façamos imagens de homens piedosos, não é para que possamos adorá-los como deuses, mas para que, quando os vemos, possamos ser levados a imitá-los; e se fizermos imagens de Cristo, é para que nossas mentes possam voar alto ansiando por Ele.” (Comentário aos Salmos: No Salmo 113B(115):16)

NILO DE ANCIRA (430 d.C)


São Nilo de Ancira († c. 430), abade e discípulo de São João Crisóstomo, destacou-se pela difusão da doutrina ascética em seus escritos. Faleceu nas proximidades da atual Ancara, na Turquia.

Em uma de suas cartas, repreende um amigo que pretendia ornamentar a igreja com figuras de cabras e outros animais, considerando tal prática pueril; exorta-o, em vez disso, a substituir esses ornamentos por cenas das Sagradas Escrituras e a erigir uma cruz, como sinal central e pedagógico da fé cristã.

Eu, porém, estabeleci algo próprio de um espírito verdadeiramente viril: no santuário, voltado para o oriente, erigir uma única cruz, própria da santíssima morada. Por essa única cruz salutar, todo o gênero humano é libertado da servidão, e a esperança salvífica das nações, antes desesperadas, resplandece por toda parte.

Além disso, pelas narrativas da Antiga e da Nova Aliança, representadas por toda parte pela mão de um excelente artista, o santuário é plenamente completado, de modo que até mesmo os rudes nas letras e os ignorantes da leitura das divinas Escrituras, ao contemplarem as figuras das ações mais nobres daqueles que serviram verdadeiramente a Deus, as conservem na memória e, a partir de suas obras gloriosas e ilustres, elevem-se do visível ao invisível, avançando gradualmente.

Mas, numa casa aberta a todos, dividida em muitas e diversas celas, é suficiente que em cada cela se coloque uma única cruz venerável, pois julgo que não se deve dar atenção ao que é supérfluo.(Epist. IV, 56) [https://www.documentacatholicaomnia.eu/04z/z_1815-1875__Migne__PG_079_(00-00)_Nili_Abbatis_Opera_Omnia_et_Alii__GM.pdf.html]

GREGORIO MAGNO (540-604 dC)


São Gregório Magno foi bispo de Roma no Século VI. Em seus escritos é um ferrenho defensor do uso das imagens e relíquias sagradas na Igreja. Em seu livro III, carta 33 a Dinamio, mostra como Dinamio recebia a intercessão de Pedro, e como enviou uma cruz abençoada com a benção de Pedro:

Nós agora lhe enviamos como a Bênção do Santíssimo apóstolo Pedro uma pequena cruz, na qual estão inseridos os benefícios de suas correntes, a qual, pois uma vez colocada no seu pescoço: mas que eles perdoem seus de pecados para sempre.” (Livro III Carta 33).

Também fala das relíquias sagradas de São Paulo que foram pedidas pelo imperador para serem colocadas em um novo templo que estava sendo erguido no palácio, e que não as daria, pois elas e as de São Pedro faziam grandes miladres e causavam terror nas pessoas:

A serenidade de sua piedade, conspícuosa por zelo religioso e amor à santidade, pediu-me com os seus comandos para enviar-lhe a cabeça de São Paulo, ou alguma outra parte de seu corpo, para a igreja que está sendo construída em honra do mesmo São Paulo no palácio. E, sendo desejoso de receber seus pedidos, exibindo a mais pronta obediência para que eu possa aumentar mais o seu favor a mim, eu estou muito angustiado porque não posso nem me atrevo a fazer o que você deseja. Pois os corpos dos apóstolos São Pedro e São Paulo brilham com tão grandes milagres e terrores em suas igrejas que não se pode mesmo ir rezar lá sem grande temor. Em suma, quando o meu antecessor, de abençoada memória, estava desejoso de mudar a prata que estava sobre o corpo sagradíssimo do bem-aventurado apóstolo Pedro, embora a uma distância de cerca de 15 pés do mesmo corpo, um sinal de não pouco temor apareceu a ele.” (Livro IV- carta 30)

Escreve sobre a venerável cruz e a imagem de Maria que foi posta em uma sinagoga a força, mas manda tirá-las com todo zelo e devolver a sinagoga para os judeus que lhe foram reclamar:

Os judeus que vieram para cá de sua cidade queixaram-nos que Pedro, que foi levado pela vontade de Deus, de sua superstição ao culto da fé cristã, tendo levado consigo certas pessoas desordenadas, no dia após de seu batismo, isto é, no dia do Senhor e do festival pascal, com grave escândalo e sem o seu consentimento, tomaram posse de sua sinagoga em Caralis, e colocaram lá a imagem da mãe de nosso Deus e Senhor, a venerável cruz, e a veste branca (birrum) com o qual ele tinha sido vestido quando ele se levantou da fonte. Quanto a tal coisa também as cartas dos nossos filhos, o glorioso Magister militum Eupaterius, e o magnífico governador, piedoso no Senhor, concordaram em atestar o mesmo. E acrescentam ainda que este tinha sido advertido por você, e que o referido Pedro tinha sido proibido de se aventurar nisto. Ao saber isso, elogiei te bastante, pois, como se tornou um verdadeiro e bom padre, você desejou que nada fosse feito onde só culpa poderia surgir. Mas, uma vez que por não ter em nada misturado-se nestes atos errados, você mostra que o que foi feito desagradou-lhe, nós, considerando a tendência de sua vontade neste assunto, e ainda mais o seu julgamento, viemos exortar-vos que, depois de ter remover dali com reverência a imagem e cruz, você deve restaurar o que foi violentamente tirado;” (LIVRO 9, CARTA VI – A Januário, Bishop de Caralis (Cagliari))

Assim como o concílio de Trullos, que veremos mais adiante, São Gregório chama a cruz de “venerável cruz” indicando claramente a veneração que era devida a santa cruz.

Em algumas passagens de suas obras alguns retiram do contexto e insinuam que Gregório era contra as imagens, uma destas é condenação a adoração de imagens em sua epístola sétima:

Soubemos, irmão, que tendo observado algumas pessoas adorando imagens, haveis destruído e expulso essas imagens das igrejas. Vos louvamos por vós terdes mostrado zeloso já que nada feito de mãos deve ser adorado, porém somos da opinião que não devíeis ter quebrado estas imagens. A razão pela qual se usam as representações nas igrejas é a de que aqueles que são iletrados possam ler nas paredes o que não podem ler nos livros. Portanto, irmão, devíeis tê-las conservado, proibindo ao mesmo tempo ao povo que as adorasse.(Epístola 7,2:3).

O papa nada mais está falando do que a doutrina católica de sempre. Como pode Gregório ser contra as imagens sagradas se ele mesmo diz que não elas não eram para ser quebradas e não serem adoradas? Como vimos desde o início o catecismo da Igreja Católica diz que nenhuma imagem é para ser adorada e da mesma forma Gregório o faz.

São Gregório fala também que as imagens tinham também o cunho educativo, e repreende Sereno bispo de Massília por ter arrancado as imagens da Igreja, por que algumas pessoas estavam quase adorando-as, então fala que as imagens não são para adoração, mas servem também como algo didático para os analfabetos, e que eram pintadas nos lugares veneráreis desde a antiguidade.

Mas, ao mesmo tempo colocando de lado a consideração de nossas advertências salutares, tu vir a ser culpado, não só em teus atos, mas nos teus questionamentos também. Porque, na verdade isso havia sido relatado para nós que, inflamado de zelo imprudente, tu quebrastes as imagens de santos, sob o argumento de que elas não deveriam ser adorados. E, de fato, em que tu as proibiu ser adoradas, nós te louvamos por completo, mas nós te culpamos por tê-las quebrado. Dizer, irmão, qual padre já se teve notícia fazendo o que fizeste? Se nada mais, nem deveria ter esse pensamento contido em ti, de modo a não desprezar outros irmãos, supondo-te só para tu mesmo ser o único santo e sábio? Pois a adorar uma imagem é uma coisa, mas aprender através da história de uma imagem o que é a ser adorado é outra. Pois o que a escrita apresenta aos leitores, a imagem apresenta para os ignorantes que veem, uma vez que até mesmo o ignorante ver o que eles devem seguir; na qual os analfabetos lêem. Assim, e, principalmente as nações, é uma imagem, em vez de leitura. E isso deveria ter sido atendido principalmente por ti que vives entre as nações, a fim de que, quando inflamado inconsiderávelmente por um zelo reto, tu deverias ofender as mentes selvagens. E, vendo que a antiguidade não sem razão admitiu que as histórias de santos fossem pintadas em lugares veneráveis(….)

E então, no que diz respeito às representações pictóricas que foram feitas para a edificação de um povo sem instrução, a fim de que, embora ignorante das letras, eles possam virar os olhos para a história em si saber o que tinha sido feito, deve-se acrescentar que porque tu vistes que estas vieram a ser adorados, tu estivesses tão comovido que mandou serem quebradas. E isso deve ser dito a eles, por esta instrução pois as imagens foram feitas antigamente, se alguém deseja tê-los na igreja, eu permito-as por todos os meios, tanto para serem feitas quanto para se ter. E explicar-lhes que não era a própria visão da história que o quadro estava pendurado para atestar que te desagradou, mas a adoração que tinham sido indevidamente prestadas as fotos. E com essas palavras apazigua tu suas mentes; recordá-os a um acordo contigo. E se alguém ser fazer imagens, de maneira nenhuma, proibi-o, mas por todos os meios proibir a adoração de imagens. Mas se a tua Fraternidade cuidadosamente admoestá-os que a partir da visão do evento retratado eles devem pegar o ardor de compunção, e prostrar-se em adoração da Toda-Poderosa Santíssima Trindade. (LIVRO 11, CARTA XIII. A Sereno, Bispo de Massilia (Marselha).)

Aqui mais uma vez ensina exatamente aquilo que é da doutrina católica, como mostramos na introdução, aquilo mesmo que ensina o concílio de Trento. Não se deve adorar as imagens, mas venera-las, e também utiliza-las como forma educativa.

GREGÓRIO DE TOURS


Gregório de Tours conta que uma mulher franca, que construiu uma igreja de Santo Estevão, mostrou os artistas que pintaram as paredes como eles deveriam representar os santos fora de um livro:

Sua esposa construiu uma basílica de Santo Estêvão fora dos muros da cidade. E, desejando ornamentá-la com cores variadas, mantinha um livro sobre o colo, lendo as histórias dos feitos antigos e indicando aos pintores o que deveriam representar nas paredes.” (hist. suíço., II, 17, PL, LXXI, 215). [https://www.thelatinlibrary.com/gregorytours/gregorytours2.shtml]

CONCÌLIO TRULLO (692 d.C)


Este concílio regional conhecido como concílio in Trullo foi um concílio realizado em Constantinopla em 692 d.C, ele é assim denominado por que foi realizado no mesmo salão da cúpula onde foi realizado o Sexto Concílio Ecumênico. Também é conhecido como concílio Quinisexto, pois foi convocado para estabelecer as regras de disciplina que nem o Quinto, nem o Sexto Concílio Ecumênico estabeleceram. Neste concílio foram ratificados vários cânones de outros concílios.

Desde que a cruz vivificante nos mostrou a Salvação, devemos ter o cuidado para prestamos a devida honra para aquela pela qual nós fomos salvos da antiga queda. Portanto, na mente, na palavra, no sentindo prestem veneração (προσκύνησιν) para ela, mandamos que a figura da cruz, que alguns têm colocado no chão, seja totalmente removido dali, de modo que o troféu da vitória conquistada para nós não seja profanada pelo pisoteio sob os pés de quem caminha sobre ela. Portanto, aqueles que a partir deste momento representam na calçada o sinal da cruz, Decretamos que sejam excomuncados.”(Canon LXXIII).

A nota do protestante Philip Schaff, na sua tradução deste concílio diz:

Este Canon define que a imagem de a cruz é para ser ‘dada veneração (προσκύνησις) do intelecto, das palavras, e do sentido,’, isto é, a cruz é para ser venerada com culto interior da alma, é a de ser venerado com a cultura exterior do louvor, e também com atos sensatos, tais como beijos, inclinação profunda, etc.(Nota Philip Schaf – NPNF)

O cânon LXXXII do concílio de Trullos dá nos dá a prova cabal que a igreja primitiva venerada os santos ícones e imagens:

Em algumas imagens dos veneráveis ícones, um cordeiro é pintado para o qual o Precursor aponta seu dedo, que é recebido como um tipo de graça, indicando de antemão por meio da Lei, o nosso verdadeiro Cordeiro, Cristo nosso Deus. Abraçando, portanto, os tipos e sombras como símbolos da verdade, e os padrões dados à Igrejas antigas, nós preferimos “graça e de verdade”, recebendo-a como o cumprimento da lei. No fim, portanto, que “o que é perfeito” pode ser delineado aos olhos de todos, pelo menos na expressão de cor, que o decreto que a figura em forma humana do Cordeiro que tira o pecado do mundo, Cristo, nosso Deus, seja doravante exibida em imagens, em vez de o cordeiro antigo, para que todos possam entender, por meio das profundezas da humilhação do Verbo de Deus, e para que possamos recordar a nossa memória da sua conversa na carne, sua paixão e morte salutar , e sua redenção, que foi feita para o mundo inteiro.” (CANON LXXXII).

A nota do protestante Philip Schaff:

A partir deste cânone, um século antes da controvérsia iconoclasta, a prevalência das imagens é evidente, então a partir do cânone do mesmo sínodo que diz respeito à veneração devida à imagem da cruz (número lxxiii.), Aprendemos que o ensinamento da Igreja no que diz respeito ao culto relativo foi o mesmo que foi posteriormente estabelecido, de modo que a acusação de inovação, às vezes precipitadamente interposta contra o Sétimo Concílio Ecumênico, não tem fundamento na realidade seja como for.” (Nota Philip Schaff – NPNF).

Deste modo a argumentação de um protestante acaba tanto com as acusações dos próprios protestanes, quanto dos iconoclastas de séculos atrás. Como vemos, quem quer que diga que o II concílio de Nicéia trouxe algo novo a Igreja, não procede com a realidade.

SÃO JOÃO DAMASCENO (730 d.C)


João de Damasco, também conhecido como João Damasceno, foi um padre e monge sírio. Nasceu e cresceu em Damasco, mas passou a maior parte da sua vida adulta em Jerusalém. Foi ferrenho defensor das imagens escreveu uma incomensurável obra na defesa das imagens, inclusive refuta 50 anos antes o conciliábulo de Hieria e mostra centenas de citações de outros pais antigos a favor das imagens, refutando as falsas citações apresentadas pelos iconoclastas.

Sua obra é a conhecida “APOLOGIA CONTRA OS QUE CONDENAM IMAGENS SAGRADAS”, (traduzimos para o português) na qual ele refuta e esclarece todas as acusações sobre o uso das imagens sagradas e nos trás uma centena de testemunho dos pais anteriores a ele.

Nesta obra ele também explica a diferença entre uma imagem e um ídolo e diz:

1º Ponto – O que é uma imagem?

Uma imagem é uma semelhança e representação de alguém, que contém em si mesmo a pessoa que está representada. A imagem não é para ser uma reprodução exata do original. A imagem é uma coisa, a pessoa representada outra, a diferença é geralmente perceptível, porque o assunto de cada um é o mesmo. Por exemplo, a imagem de um homem pode dar a sua forma física, mas não seus poderes mentais. Ela não tem vida, nem pode falar, sentir ou mover. Um filho sendo a imagem natural de seu pai é um pouco diferente, pois ele é um filho, não um pai.

2º Ponto – Para que propósito uma imagem é feita?

Cada imagem é uma revelação e representação de algo escondido. Por exemplo, o homem não tem um conhecimento claro do que é invisível, o espírito que está sendo velado para o corpo, nem das coisas futuras, nem de coisas além e distante, porque ele está circunscrito pelo lugar e tempo. A imagem foi concebida para um maior conhecimento e para a manifestação e popularização de coisas secretas, como um benefício puro e ajudar a salvação, de modo que ao mostrar as coisas e torná-las conhecidos, podemos chegar as coisas ocultas, desejar e imitar o que é bom, rejeitar e odiar o que é mau.

Um dos padres mais conhecidos do oriente, refuta os iconoclastas e mostra claramente o que é uma imagem e qual seu propósito. Por isso foi perseguido e condenado pelo imperador, após sua morte é condenado pelo conciliábulo de Hieria que fazia as vezes do imperador.

CONCÍLIÁBULO DE HIERIA – O CONCÍLIO DOS ICONOCLASTAS (754 d.C)


Antes de começarmos a falar sobre a invalidade do conciliábulo de Hieria reunido por hereges iconoclastas, temos que entender o que estava por trás da perseguição iconoclasta que gerou este concílio.

A origem do movimento contra a veneração das imagens tem sido muito discutida. A história mais certa é que teve início por influência muçulmana no oriente. Para os muçulmanos, qualquer tipo de imagem, estátua, ou representação da forma humana é um ídolo abominável, o que é, como já vimos, evidentemente contrário a bíblia.

Tudo começou com Leão III o Isauriano, que era um valente soldado com um temperamento autocrático. Qualquer movimento que exitava sua simpatia era, com certeza, aplicado com severidade e crueldade. Ele já tinha cruelmente perseguido os judeus e seguidores de Paulo. Ele também era suspeito de inclinações em relação ao Islã. O Khalifa Omar II (717-20) tentou convertê-lo, sem sucesso, exceto na medida em que o convenceu de que as imagens eram ídolos. Os cristãos inimigos das imagens, nomeadamente, Constantino de Nacolia, então, facilmente ganharam seus ouvidos. O imperador chegou à conclusão de que as imagens eram o principal obstáculo para a conversão de judeus e muçulmanos, a causa da superstição, fraqueza e divisão de seu império, e eram contrárias ao Primeiro Mandamento.

A campanha contra as imagens como parte de uma “reforma” geral da Igreja e do Estado.

A idéia de Leo III era “purificar” a Igreja, centralizá-la, tanto quanto possível sob o Patriarca de Constantinopla, e assim reforçar e centralizar o Estado do império. Houve também uma forte tendência racionalista entre lá Iconoclastas imperadores, uma reação contra as formas de piedade bizantina que se tornava mais pronunciada a cada século.Este racionalismo ajuda a explicar seu ódio aos monges. Uma vez persuadido, Leão começou a impor sua idéia impiedosamente. Constantino de Nacolia veio para a capital no início de seu reinado, ao mesmo tempo, João de Synnada escreveu ao patriarca Germano I (715-30), advertindo-o que Constantino causou uma perturbação entre os outros bispos da província pregando contra o uso de imagens sagradas. Germano, o primeiro dos heróis contra a heresia iconoclasta (suas cartas em Hardouin, IV 239-62), em seguida, escreveu uma defesa da prática da Igreja dirigida a outro iconoclasta, Thomas de Claudiópolis (l.c 245-62). Mas Constantino e Thomas tinha o imperador do seu lado. Em 726 Leão III publicou um decreto declarando que as imagens eram ídolos, proibidos por Êxodo 20, 4-5, e ordenando que todas as imagens nas igrejas fossem destruídas. Imediatamente os soldados começaram a cumprir suas ordens, devivdo a isso distúrbios foram provocados por todo o império. Havia uma famosa foto de Cristo, chamado Christos antiphonetes, sobre o portão do palácio em Constantinopla. A destruição da imagem provocou um motim entre as pessoas. Germano, o patriarca, protestou contra o decreto e apelou para o papa (729). Mas o imperador o depôs traidor (730) e nomeou Anastácio (730-54), anteriormente Syncellus do Tribunal patriarcal, e um instrumento da vontade do Governo, em seu lugar. Os opositores mais firmes dos Iconoclastas em toda essa história foram os monges. É verdade que houve alguns que tomaram o lado do imperador, mas como um corpo o monaquismo oriental estava firmemente leais ao antigo costume da Igreja. Leão, portanto, juntou a sua iconoclastia uma feroz perseguição aos mosteiros e, eventualmente, tentou suprimir monaquismo completamente.

O papa na época era Gregório II (713-31). Mesmo antes de ter recebido o apelo de Germano recebeu uma carta do imperador ordenando-lhe para aceitar o edital, e destruir imagens em Roma, e convocar um concílio geral para proibir o seu uso. Gregório respondeu, em 727, por uma longa defesa das imagens. Ele explica a diferença entre elas e ídolos, com alguma surpresa que Leão não o entendeu. Ele descreveu o uso legal e da reverência pretasda as imagens pelos cristãos. Ele culpou a interferência do imperador em assuntos eclesiásticos e sua perseguição aos que veneravam as imagens. Um concílio não foi querido; tudo que Leão tinha a fazer era parar de perturbar a paz da Igreja. Quanto à ameaça de Leão que iria a Roma, quebrar a estátua de São Pedro (aparentemente a famosa estátua em bronze de São Pedro), e tomar o papa como prisioneiro, Gregório responde ela, apontando que ele pode escapar facilmente na Campagna, e lembrando o imperador quão fútil e agora abominável para todos os cristãos era a perseguição de Constance de Martinho I. Ele também diz que todas as pessoas no Ocidente detestaram ação do imperador e nunca consentirá em destruir as imagens em seu comando (Greg. II, “Ep. Que eu ad Leonem”). O imperador respondeu, continuando a sua argumentação dizendo que nenhum concílio geral ainda não tinha dito uma palavra em favor de imagens e que ele mesmo era imperador e sacerdote (basileus kai lereus), portanto, tem o direito de fazer decretos sobre tais assuntos. Gregório escreve de volta lamentando que Leão ainda não via o erro de seus caminhos. Quanto aos antigos concílios gerais, eles não pretendem discutir todos os pontos da fé, não era necessário naqueles dias defender o que ninguém atacou. O título de Imperador e Sacerdote tinha sido concedido como um elogio a alguns soberanos por causa de seu zelo em defender a própria fé que Leão agora atacava. O papa declara-se determinado a resistir a tirania do imperador a qualquer custo, ainda que ele não tenha defesa, mas a oraria para que Cristo enviasse um demônio para torturar o corpo do imperador para que sua alma fosse salva, de acordo com 1 Coríntios 5, 5.

Entretanto, a perseguição durou no Oriente. Monastérios foram destruídos, os monges mortos, torturados, ou banidos. Os Iconoclasts começaram a aplicar seu princípio as relíquias também, para quebrar santuários abertos e queimar os corpos de santos enterrados nas igrejas. Alguns deles rejeitaram toda a intercessão dos santos. Estes e outros pontos (destruição de relíquias e rejeição de orações aos santos), embora não necessariamente envolvidos no programa original foram a partir deste momento, geralmente (não sempre), acrescentados à iconoclastia. Enquanto isso, São João Damasceno seguro contra a ira do imperador que seguia regras do Khalifa, estava escrevendo escrito no mosteiro de São Saba sua famosa apologia “Contra aqueles que dcondenam as imagens sagrados”. No Ocidente, em Roma, Ravenna, e Nápoles, o povo levantou-se contra a lei do imperador. Este movimento anti-imperial é um dos fatores do rompimento entre Itália e do antigo império, a independência do papado, e o começo dos Estados Pontifícios. Gregório II já se recusou a enviar os impostos para Constantinopla e se nomeou o dux imperial no Ducatos Romanus. A partir deste momento o papa torna-se praticamente soberano do Ducatus. A ira do imperador contra asos que veneravam imagens foi reforçada por uma revolta que eclodiu nessa época em Hellas, ostensivamente em favor dos ícones. Um certo Cosmas foi levantado como imperador pelos rebeldes. A insurreição foi rapidamente esmagada (727) e Cosmas foi decapitado. Após isto, um novo e mais grave edital contra imagens foi publicado (730), e a fúria da perseguição foi redobrada.

O Papa Gregório II morreu em 731. Ele foi sucedido por Gregório III, que continuou na defesa das imagens sagradas exatamente no mesmo espírito do seu antecessor. O novo papa enviou um sacerdote, George, com cartas contra a iconoclastia para Constantinopla. Mas George quando chegou, estava com medo de apresentá-las, e voltou sem ter cumprido a sua missão. Ele foi enviado pela segunda vez na mesma missão, mas foi preso e encarcerado na Sicília pelo governador imperial. O imperador agora prosseguiu com sua política de ampliar e fortalecer o seu próprio patriarcado de Constantinopla. Ele concebeu a idéia de torná-la tão grande quanto todo o império sobre o qual ele ainda realmente governava. Isauria, local de nascimento de Leão, foi tomada de Antioquia por um decreto imperial e adicionada ao patriarcado bizantino, acrescentando também Metropolis, Selêucia, e cerca de vinte outras sés. Leão ainda pretendeu retirar Ilíria do Patriarcado romano e adicioná-lo à de Constantinopla, e confiscou todos os bens da Sé Romana em que ele poderia colocar suas mãos, na Sicília e sul da Itália. Isto, naturalmente, aumentou a inimizade entre a cristandade oriental e ocidental. Em 731 Gregório III convocou um sínodo de noventa e três bispos na Basílica de São Pedro, em que todas as pessoas que quebraram, contaminaram, ou tomaram imagens de Cristo, da Sua Mãe, os apóstolos e outros santos foram declarados excomungados. Outro legado, Constantino, foi enviado com uma cópia do decreto e de sua aplicação ao imperador, mas foi novamente preso e encarcerado na Sicília. Leão, em seguida, enviou uma frota para a Itália para punir o papa, mas foram destruídos e dispersos por uma tempestade. Enquanto isso, todo o tipo de calamidade aflitos do império; terremotos, pestilência, fome e devastaram as províncias, enquanto os muçulmanos continuaram a sua carreira vitoriosa e conquistaram mais territórios.

Leão III morreu em junho de 741, em meio a esses problemas, sem ter mudado sua política. Sua obra foi continuada por seu filho Constantino V (Copronymus, 741-775), que se tornou um perseguidor ainda maior de que venerava imagens do que tinha sido seu pai. Assim como Leão III morreu, Artabasdus (que tinha casado com a filha de Leão) aproveitou a oportunidade e aproveitou-se da impopularidade do Governo iconoclasta para levantar uma rebelião. Declarando-se o protetor dos ícones sagrados ele tomou posse da capital, havia se coroado imperador pelo fléxivel patriarca Anastácio e restaurou imediatamente as imagens. Anastácio, que tinha sido colocado no lugar de Germano, como candidato Iconoclasta, agora voltava ao caminho bizantino de costume, ajudou a restauração das imagens e excomungou Constantino V como um herege e negador de Cristo. Mas Constantino marchou sobre a cidade, tomou-a, cegou Artabasdus e começou uma furiosa vingança sobre todos os rebeldes e defensores das imagens (743). Seu tratamento de Anastácio foi um exemplo típico da forma como esses imperadores posteriores se comportavam com os patriarcas através dos quais eles tentavam governar a Igreja. Anastácio foi açoitado em público, cego, levado vergonhosamente pelas ruas, obrigado regressar à sua iconoclastia e finalmente reintegrado como patriarca. O homem miserável viveu até 754. As imagens restauradas por Artabasdus foram novamente removidos. (ENCICLOPEDIA CATÓLICA – 1917)

A convocação arbitrária e a invalidade do conciliábulo

Em 754 Constantino, tamando a idéia original de seu pai convocou um grande sínodo em Constantinopla, que era considerado como o sétimo Concílio Geral. Cerca de 340 bispos participaram, como a Sé de Constantinopla estava vacante pela morte de Anastácio, Teodósio de Éfeso e Pastilias de Perge presidiu. Roma, Alexandria, Antioquia e Jerusalém se recusaram a enviar legados, uma vez que ficou claro que os bispos foram convocados apenas para executar comandos do imperador. O evento mostrou que os patriarcas haviam julgado corretamente. Os bispos no Sínodo servilmente concordaram com todas as exigências de Constantino. Eles decretaram que as imagens de Cristo ou são Monofisita ou nestorianas, pois – uma vez que é impossível representar sua divindade – elas querem confundir ou divórciar Suas duas naturezas. A única representação legítima de Cristo é a Sagrada Eucaristia. Imagens de santos foram igualmente abominadas, e foi declarado blasfemo representar pela madeira morta ou pedra quem vive com Deus. Declararam que todas as imagens eram uma invenção dos pagãos – e eram na verdade ídolos, como mostrado . Alguns textos dos Padres também são citados em apoio da iconoclastia. Quem venera imagem foi declarado idólatras, adoradores de madeira e pedra, os imperadores Constantino e Leão foram declarados luzes da fé ortodoxa, os nossos salvadores da idolatria. Um maldição especial foi pronunciada contra três defensores principais de imagens – Germano, o ex-Patriarca de Constantinopla, João Damasceno, e um monge, George de Chipre. O sínodo declarou que “a Trindade destruiu estes três” (‘Atos do Concílio iconoclasta de 754″ em Mansi XIII, 205 m²).

Os bispos finalmente elegeram um sucessor para a Sé vacante de Constantinopla, Constantino, Bispo de Sylaeum (Constantino II, 754-66), que era, claro, uma criatura do Governo, preparada para continuar sua campanha.

Os decretos foram publicados no Fórum em 27 de agosto de 754. Depois disso, a destruição de imagens continuou a se intensificar. Todos os bispos do império eram obrigados a assinar os atos do sínodo e a jurar acabar com os ícones em suas dioceses. Os seguidores de Paulo eram bem tratados, enquanto quem defendia as imagens e monges foram perseguidos implacavelmente. Em vez de pinturas de santos, as igrejas eram decoradas com imagens de flores, frutas e pássaros de modo que as pessoas diziam que as igrejas pareciam mercearias e lojas de aves. Um monge chamado Pedro foi açoitado até a morte, em 7 de junho de 761; o Abade de Monagria, João, que se recusou a pisotear um ícone, foi amarrado num saco e lançado ao mar em 7 de junho de 761; em 767, André, um monge cretense foi açoitado e esquartejado até que ele morreu (ver Acta SS, 08 de outubro; Martirológio Romano para 17 de outubro); em novembro do mesmo ano, um grande número de monges foram torturados até a morte de várias maneiras (Martirológio, 28 de novembro). O imperador tentou abolir o monaquismo (como o centro da defesa das imagens); mosteiros foram transformadas em alojamentos temporários, o hábito monástico tornou-se proibido; o Patriarca Constantino II foi forçado a jurar no púlpito de sua igreja que, apesar de ter sido monge anteriormente, ele agora se juntara ao clero secular. As relíquias foram exumadas e jogadas ao mar, a invocação dos santos proibida. Em 766, o imperador entrou em choque com seu patriarca, ordenou que lhe açoitassem e o decapitassem, e substituído por Nicetas I (766-80), que era, também, naturalmente, um servo obediente do Governo iconoclasta. Enquanto isso, os países que o poder dos imperadores não atingiu mantiveram o velho costume e rompeu os laços com o Patriarca Iconoclasta de Constantinopla e seus bispos. Cosme de Alexandria, Theodoro de Antioquia, e Theodoro de Jerusalém foram todos defensores dos ícones sagrados em comunhão com Roma. O imperador Constantino V morreu em 775. Seu filho Leo IV (775-80), embora ele não tenha revogado a Lei Iconoclasta, foi muito mais brando em aplicá-la. Ele permitiu os monges exilados a voltar, tolerou pelo menos a intercessão dos santos e tentou conciliar todas as partes. Quando o patriarca Nicetas I morreu em 780, foi sucedido por Paulo IV (780-84), um monge cipriota que aplicava uma política iconoclasta sem muito zelo por temor ao Governo. Mas a esposa de Leo IV, Irene, foi uma ferrenha defensora das imagens. Mesmo durante a vida do marido, ela escondeu ícones sagrados em seus aposentos. No final do seu reinado, Leão teve uma explosão de ira em relação à iclonastia. Ele puniu os cortesãos que tinham recolocado as imagens em seus aposentos e estava prestes a banir a imperatriz quando ele morreu 08 de setembro de 780. Imediatamente uma grande reação surgiu. (ENCICLOPEDIA CATÓLICA – 1917)

Razões que invalidam totalmente o conciliábulo

1ª Razão: Não havia qualquer patriarca presente. O patriarcado de Constantinopla estava vacante, logo um concílio não se pode reunir sem a presença de um patriarca. Depois os iconoclastas e o imperador elegeram seu próprio patriarca iconoclasta para Constantinopla para validar seus cânones, porém nada foi aceito pelos outros patriarcados, logo continuou inválido. Assim o protestante Philip Schaff descreve esta história:

… Em seguida, foi rejeitado como um pseudo-sínodo dos hereges. O número trezentos e trinta… mas os patriarcas de Jerusalém, Antioquia, e Alexandria, que sob o domínio muçulmano, não puderam comparecer, a Sé de Constantinopla estava vaga, e Papa Estêvão III desconsiderou a convocação imperial.(Schaff, Volume 4, p 457).

E a Enciclopédia Católica:

Roma, Alexandria, Antioquia e Jerusalém se recusaram a enviar delegados, uma vez que ficou claro que os bispos foram convocados apenas para executar as ordens do Imperador. O evento mostrou que os patriarcas haviam julgado corretamente. Bispos no Sínodo servilmente concordaram com todas as demandas de Constantino. (Enciclopédia Católica [1913], p vol 1, 621).

2ª Razão: Apenas bispos partidarios da iconoclastia foram convocados. Os bispos que continuavam com o antigo costume da Igreja estavam sendo perseguidos, presos e mortos, só os partidários do governador foram convocados, e aqueles que faziam apenas parte do patriarcado de Constantinopla e muitos desses foram forçados a participar.

Um concílio no qual 338 teólogos foram forçados a participar.” (Enciclopédia da Religião editado por Mircea Eliade, vol 7, p 1).

3ª Razão: Um concílio não pode se reunir em razão de negar um costume antigo da Igreja e que invalida até mesmo os decretos de outros concílios como o de Trullos que até então era aceito pela própria Constantinopla, dos grandes pais e até mesmo os princípios bíblicos.

4ª Razão: O concílio foi convocado apenas para executar os comandos do imperador, e não para debater e chegar a conclusões teológicas claras, até mesmo por isso, os outros 4 patriarcados se recusaram a mandar legados.

Os hereges modernos e a invocação do concíliabulo de Hieria.

Atualmente, os protestantes (iconoclastas modernos), invocam a autoridade deste conciliábulo para justificar suas posições errôneas a respeito das imagens, o que muito engraçado, pois aceitam apenas parte deste concílio, aquilo que lhes convém e rejeitam totalmente o resto de suas definições.

Será mesmo que os protestantes aceitam as definições deste concílio? Se, acham que ele esteve certo quando proibiu as imagens, será que acham também que ele está certo quando diz que quem achar que a recorrência aos santos não é benéfica, seria anatemisado?

Se alguém nega o lucro da invocação dos Santos, seja anátema. (Cânon 17)

Será também se aceitam o que este concílio falou sobre Maria?

Se alguém não confessar que a Santíssima Virgem é verdadeiramente a Mãe de Deus, seja anátema.” (cânon 3)

Se alguém não confessar a santa sempre Virgem Maria, verdadeira e propriamente a Mãe de Deus, como sendo maior do que todas as criaturas visíveis ou invisíveis, e não com fé sincera buscar suas intercessões como tendo uma confiança em seu acesso ao nosso Deus, uma vez que ela lhe concebeu, seja anátema” (Cânon 15)

Será que algum protestante ao aceitar a definição das imagens deste concílio ao mesmo tempo reconhece a maternidade divina de Maria e que ela está acima de toda a criatura, e procura sua intercessão?

O II CONCÍLIO DE NICÉIA (787 d.C) – A Vitória da Ortodoxia


Finalmente em 787 d.C, reuniu-se em Nicéia todos os bispos ortodoxos e eles puderam assim decidir qual a teologia católica das imagens, refutaram os iconoclastas e deram fim a questão sobre as imagens, dogmatizando o ensino.

Diversos iconoclastas reconheceram seus erros e pediram perdão diante de Deus por seus erros, um exemplo disto foi Basílio de Acira que era iconoclasta e pediu sua reabilitação diante do concílio.

Os cânones foram estabelecidos e a questão findada, quem desejar ler as atas e cânones de Nicéia II, pode ler aqui em inglês.

CONCLUSÃO


O ensino cristão das imagens e relíquias sagradas, esta presente desde os primeiros escritos cristãos que se tem conhecimento, todos eles confirmam unanimamente como a teologia católica, não inova apenas repete o que é da fé através dos séculos!

 

BIBLIOGRAFIA


Fortescue, Adrian. “Iconoclasm”. The Catholic Encyclopedia. Vol. 7. New York: Robert Appleton Company, 1910. 22 Aug. 2013 <http://www.newadvent.org/cathen/07620a.htm>.

PARA CITAR


RODRIGUES, Rafael. Pais da Igreja e as imagens e relíquias Sagradas. Disponível em: <http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/patristica/controversias/623-pais-da-igreja-e-as-imagens-e-reliquias-sagradas >. Desde 18/11/2013.

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