Entre os Padres da Igreja do século II, Irineu é certamente o personagem mais proeminente, bem como o primeiro teólogo no sentido próprio da palavra. Ele é retamente considerado o pai da teologia dogmática católica.
Temos um registro muito escasso e não escrito de sua vida. Ele nasceu em Esmirna entre 140 e 160, onde conheceu o bispo Policarpo. Por razões que não conhecemos, ele deixou a Ásia Menor e mudou-se para a Gália. Lá, foi ordenado sacerdote da Igreja de Lyon e, como tal, foi convidado a Roma para ser mediador em uma controvérsia a respeito do montanismo. Após seu retorno a Lyon, ele sucedeu o bispo Potino, que havia sido martirizado nesse ínterim.
Mais uma vez, vemos Irineu como mediador na controvérsia entre o Papa Vítor I e os bispos asiáticos sobre a celebração da Páscoa, exortando as duas partes a um entendimento pacífico. É por isso que Eusébio de Cesareia atesta que o bispo de Lyon viveu e agiu de acordo com o significado de seu nome, pois, em grego, Irineu significa “homem de paz”.¹ Não sabemos o ano de sua morte, mas ela provavelmente ocorreu no ano 202. Gregório de Tours escreveu que Irineu morreu como mártir,² mas esta informação é muito tardia (século VI) para ser totalmente crível.
O testemunho de Irineu é precioso porque, em sua juventude, ele esteve em contato com Policarpo e com outros cristãos importantes que conheceram os apóstolos diretamente.³ Portanto, ele deve ter sido bem informado sobre a tradição apostólica, como também é aparente em seus escritos.
Como bispo, Irineu levou suas responsabilidades pastorais muito a sério. Ele considerava um de seus deveres urgentes defender a fé e o conhecimento de seus fiéis contra os perigos da heresia gnóstica, que, naquela época, constituía uma grave ameaça à fé cristã. Para esse fim, ele escreveu uma obra monumental, em cinco livros, conhecida pelo título em latim Adversus haereses (Contra as Heresias)⁴. Nela, ele não apenas refuta os erros dos gnósticos, mas contrasta o ensinamento deles com a doutrina correta da Igreja, da qual oferece uma síntese clara e persuasiva. Outra obra sua chegou até nós: Demonstração da Pregação Apostólica, enquanto outras obras se perderam.
No que diz respeito à doutrina mariana, Irineu retoma o tema de Maria considerada como a nova Eva e desenvolve significativamente as ideias do apologista Justino. Finalmente, ela está solidamente baseada na doutrina paulina da “recapitulação“, que se torna o fundamento de sua soteriologia.
Recapitulação em Cristo
De acordo com São Paulo, o Redentor reuniu ou “recapitulou” em si mesmo todas as coisas e eventos que haviam acontecido desde a primeira criação, reconciliando tudo com Deus. Nesta visão, a salvação do homem aparece como uma segunda criação, que é essencialmente uma espécie de repetição da primeira criação. Através desta segunda criação, Deus reabilita seu plano original de salvação, que havia sido interrompido pela queda de Adão; ele o retoma e o reorganiza na pessoa de seu Filho, que se torna para nós o segundo Adão. E, se toda a raça humana caiu na perdição por causa do pecado de um só homem (cf. Rom 5:12ss.), era necessário que o Filho de Deus se tornasse homem. Ele, como a fonte de uma nova humanidade, poderia então realizar o plano de salvação de Deus refazendo, mas de maneira contrastante, o mesmo caminho percorrido pelo primeiro Adão em sua rebelião contra Deus. Irineu escreve:
Quando [o Filho de Deus] se encarnou e se fez homem, ele recapitulou em si mesmo a longa história dos homens, obtendo para nós a recompensa da salvação, para que em Cristo Jesus pudéssemos recuperar o que havíamos perdido em Adão, a saber, a imagem e semelhança de Deus. Pois, uma vez que não era possível para o homem, outrora ferido e quebrado pela desobediência, ser refeito e obter a palma da vitória, e como era igualmente impossível para ele receber a salvação, pois havia caído sob o poder do pecado, o Filho de Deus realizou ambas as tarefas. Ele, o Verbo de Deus, desceu do Pai e se fez carne; ele se humilhou até a morte e levou a economia de nossa salvação à sua conclusão.⁵
Portanto, fiel ao ensinamento de São Paulo, a doutrina da recapitulação de Irineu traz claramente os dois grandes objetivos alcançados por Cristo em sua obra redentora:
-
Resultado negativo: a destruição do pecado e da morte, que são as duas principais consequências da desobediência de Adão.
-
Resultado positivo: a restauração de toda a raça humana à imagem de Deus, que havia sido destruída pelo pecado original.⁶
O segundo Adão alcançou esses objetivos através de sua obediência completa ao Pai, contrabalançando assim a desobediência do primeiro Adão e renovando vitoriosamente o antigo conflito contra Satanás.⁷ Pode-se dizer, então, que todas as coisas foram feitas novas no segundo Adão.⁸
O Papel de Maria na Economia da Salvação
É neste contexto da doutrina da recapitulação de todas as coisas em Cristo que Irineu explica o papel da Bem-Aventurada Virgem no plano divino da salvação, referindo-se ao paralelo Eva–Maria. Enquanto Justino, como vimos, havia tocado nesse tema casualmente, Irineu produz uma reflexão teológica mais desenvolvida e profunda:
Embora Eva tivesse Adão por marido, ela ainda era virgem… Ao desobedecer, ela se tornou a causa da morte para si mesma e para toda a raça humana. Da mesma forma, Maria, embora também tivesse um marido, ainda era virgem e, ao obedecer, tornou-se a causa da salvação para si mesma e para toda a raça humana… O nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria. O que Eva amarrou por meio da incredulidade, Maria soltou por meio de sua fé.⁹
Irineu estabelece claramente um paralelo perfeito entre as duas mulheres, em termos de convergência e divergência, assim como o apóstolo Paulo fizera com Adão e Cristo. Eva e Maria, embora ambas fossem casadas, ainda eram virgens. Mas enquanto Eva desobedeceu, causando ruína e morte para si mesma e para a raça humana, Maria, ao obedecer, tornou-se a causa da salvação. A desobediência de Eva impôs os laços da escravidão espiritual sobre a raça humana; a obediência de Maria quebrou esses laços, devolvendo o homem à sua liberdade original. A desobediência de Eva é a consequência de sua incredulidade; a obediência de Maria é o fruto de sua fé. Em outra passagem, Irineu atribui à Virgem o título de “advogada de Eva”:
Eva foi seduzida pela palavra do anjo [caído] e transgrediu a palavra de Deus, de modo que fugiu dele. Da mesma forma, [Maria] foi evangelizada pela palavra de um anjo e obedeceu à palavra de Deus, para que o carregasse [dentro de si]. E enquanto a primeira foi seduzida a desobedecer a Deus, a última foi persuadida a obedecer a Deus, para que a Virgem Maria se tornasse a advogada (advocata) da virgem Eva.
E assim como a raça humana estava ligada à morte por causa de uma virgem, ela foi libertada da morte por uma Virgem, pois a desobediência de uma virgem foi contrabalançada pela obediência de uma Virgem. Se o pecado do primeiro homem foi reparado pela conduta reta do Filho primogênito [de Deus], e se a astúcia da serpente foi vencida pela simplicidade da pomba [Maria], então os hereges são tolos; eles ignoram a economia de Deus e não percebem Seu plano para a salvação do homem.10
Estes textos mostram claramente que Irineu não apenas atribui a Maria um papel dentro da obra da redenção; ele especifica que esse papel está estritamente conectado às ações do Salvador, da mesma forma que Eva teve um papel, embora negativo, em relação ao primeiro Adão. Finalmente, a santa Virgem não se limita a desempenhar seu papel em seu próprio plano separado, paralelo ao de Eva. Ela faz algo mais: ela interfere no plano histórico de Eva porque, por sua simplicidade, ela destrói o orgulho e a astúcia da serpente, a autora do mal que sobreveio a Eva.
Mas Irineu vai ainda mais longe. Em sua Demonstração da Pregação Apostólica, ele afirma expressamente que, assim como Adão foi recapitulado em Cristo, também Eva foi recapitulada em Maria:
Adão teve que ser recapitulado em Cristo, para que a morte pudesse ser tragada pela imortalidade, e Eva [teve que ser recapitulada] em Maria, para que a Virgem, tendo se tornado a advogada de outra virgem, pudesse destruir e abolir a desobediência de uma virgem pela obediência de outra virgem.¹¹
Citamos estes três textos em ordem cronológica, e é fácil observar um certo desenvolvimento progressivo. O princípio da recapitulação é integrado ao princípio da “recirculação”, que introduz uma nota de história da salvação na teologia de Irineu. Enquanto o princípio da recapitulação afirma que a humanidade (caída por causa de sua primeira cabeça, Adão) teve que ser trazida de volta a Deus por outro homem — Cristo — que seria sua segunda cabeça, o princípio da recirculação afirma que este processo de restauração realizado pelo Salvador teve que corresponder passo a passo, mas de forma oposta, à história da queda. Maria entra neste processo como a antítipo de Eva.
Com esta visão, o bispo de Lyon mostra o desejo de considerar a história humana como um fenômeno unificado, no qual o Novo Testamento nada mais é do que a continuação do Antigo Testamento. A única economia divina, interrompida por Adão, com quem Eva estava associada, é retomada e levada à sua completa perfeição por Cristo, com quem Maria está associada.
Nesta perspectiva, podemos compreender por que Irineu chama Maria de causa salutis (causa da salvação), precisamente porque ela é o antítipo de Eva, que foi causa mortis (causa da morte). O papel dela não se limita ao seu status puramente biológico e negativo como Virgem Mãe; não, sua cooperação inclui motivos morais e espirituais. Por exemplo, sua obediência à palavra de Deus foi consciente e voluntária; seu consentimento ao plano de salvação teve um caráter soteriológico, uma vez que ela sabia que a Encarnação do Filho de Deus estava acontecendo em vista da redenção humana.
No segundo e terceiro textos citados, nosso autor refere-se a Maria pelo título advocata (advogada). Esta é a primeira vez na história da literatura cristã antiga que este título é usado para Maria. Infelizmente, as versões gregas originais desses textos foram perdidas, de modo que não sabemos com certeza qual termo grego foi traduzido pela palavra latina advocata. A versão armênia parece indicar que a palavra grega original era paráklētos (defensora, advogada, intercessora).¹² Mas em que sentido Maria pode ser a advogada de Eva? Irineu especifica: por sua obediência. Ele não parece, de forma alguma, querer dizer que Maria fez intercessão ou ofereceu seus méritos em favor de Eva. Ela simplesmente fez o oposto do que Eva tinha feito; isto é, ela obedeceu e, assim, removeu as consequências deploráveis da desobediência de Eva. Portanto, Eva não é mais condenada como sendo responsável pela ruína da raça humana, porque essa ruína foi removida pela obediência de Maria.¹³
O bispo de Lyon captura a atenção do leitor pelos termos particularmente fortes nos quais expressa suas próprias convicções teológicas. Ele afirma, sem sombra de dúvida, a presença ativa e eficaz da Bem-Aventurada Virgem na história da salvação e o faz com notável determinação. A influência de seu ensinamento em desenvolvimentos mariológicos posteriores é imediatamente aparente. A doutrina atual sobre a colaboração de Maria na redenção do homem e a mediação da graça divina tem suas raízes distantes, mas perceptíveis, no ensinamento do grande bispo de Lyon.
Leitura:
“Por seu lado, o apóstolo Paulo, na carta aos Gálatas, disse abertamente: “Deus enviou o seu Filho, nascido de mulher”; e na carta aos romanos diz: “…acerca do seu Filho, que nasceu da posteridade de Davi, segundo a carne, declarado Filho de Deus, com poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dentre os mortos, Jesus CristoSenhor nosso”.
De outra forma, a sua descida em Maria seria supérflua; pois para que desceria nela se não devia receber nada dela? Se não tivesse recebido nada de Maria então nunca teria tomado alimentos terrenos com os quais se alimenta um corpo tirado da terra; após o jejum de quarenta dias, como Moisés e Elias, seu corpo não teria experimentado a fome e não teria procurado alimento; João, seu discípulo, não teria escrito: “Jesus, cansado pela caminhada, estava sentado”; nem Davi teria dito dele: “E acrescentaram sofrimento à dor das minhas feridas”; não teria chorado sobre o túmulo de Lázaro; não suaria gotas de sangue, nem teria dito: “A minha alma está triste”; e de seu lado transpassado não teriam saído sangue e água. Tudo isso são sinais da carne tirada da terra, que recapitulou em si, salvando a obra de suas mãos.
Por isso Lucas apresenta genealogia de setenta e duas gerações, que vai do nascimento do Senhor até Adão, unindo o fim ao princípio, para dar a entender que o Senhor é o que recapitulou em si mesmo todas as nações dispersas desde Adão, todas as línguas e gerações dos homens, inclusive Adão. Por isso Paulo chama Adão figura do que devia vir, porque o Verbo, Criador de todas as coisas, prefigurara nele a futura economia da humanidade de que se revestiria o Filho de Deus, pelo fato de Deus, formando o homem psíquico, ter dado a entender que seria salvo pelo homem espiritual. Por isso, visto que já existia como salvador, devia tornar-se quem devia ser salvo, para não ser o Salvador de nada.
Da mesma forma, encontramos Maria, a Virgem obediente, que diz: “Eis a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra”, e, em contraste, Eva, que desobedeceu quando ainda era virgem. Como esta, ainda virgem se bem que casada — no paraíso estavam nus e não se envergonhavam, porque, criados há pouco tempo ainda não pensavam em gerar filhos, sendo necessário que, primeiro, se tornassem adultos antes de se multiplicar —, pela sua desobediência se tornou para si e para todo o gênero humano causa da morte, assim Maria, tendo por esposo quem lhe fora predestinado e sendo virgem, pela sua obediência se tornou para si e para todo o gênero humano causa da salvação. É por isso que a Lei chama a que é noiva, se ainda virgem, de esposa daquele que a tomou por noiva, para indicar o influxo que se opera de Maria sobre Eva.
Com efeito, o que está amarrado não pode ser desamarrado, a menos que se desatem os nós em sentido contrário ao que foram dados, e os primeiros são desfeitos depois dos segundos e estes, por sua vez, permitem que se desfaçam os primeiros: acontece que o primeiro é desfeito pelo segundo e o segundo é desfeito em primeiro lugar. Eis por que o Senhor dizia que os primeiros serão os últimos e os últimos os primeiros. E o profeta diz a mesma coisa: Em lugar dos pais nasceram filhos para ti. Com efeito, o Senhor, o primogênito dos mortos, reuniu no seu seio os patriarcas antigos e os regenerou para a vida de Deus, tornando-se ele próprio o primeiro dos viventes, ao passo que Adão fora o primeiro dos que morrem. Eis por que Lucas, iniciando a genealogia a partir do Senhor subiu até Adão, porque não foram aqueles antepassados que lhe deram a vida, e sim foi ele que os fez renascer no evangelho da vida. Da mesma forma, o nó da desobediência de Eva foi desatado pela obediência de Maria, e o que Eva amarrara pela sua incredulidade Maria soltou pela sua fé.” (Contra as heresias 3, 22)
NOTAS
¹ Hist. Eccl. 5, 24.
² Historia Francorum 1, 27.
³ O próprio Irineu enfatiza isso: “Como ouvi de um certo presbítero, que tinha ouvido de homens que viram os apóstolos, e de outros que os tinham ouvido” (Adv. haer. 4, 27; PG 7, 1056).
⁴ Infelizmente, não possuímos o texto original grego do Adversus haereses em sua totalidade. No entanto, temos uma versão latina completa que, devido à sua antiguidade, tem grande valor. Parece ter sido conhecida por São Cipriano, de modo que pode ser datada por volta de 250. Migne, na PG 7, possui o texto latino e as perícope gregas que sobreviveram. A melhor edição crítica é a Sources Chrétiennes 263–64 (livro 1), 293–94 (livro 2), 210–11 (livro 3), 100 (livro 4), 152–53 (livro 5).
⁵ Adv. haer. 3, 18; PG 7, 932.
⁶ Ibid.
⁷ Ibid., 5, 21; PG 7, 1171.
⁸ Ibid., 4, 34; PG 7, 1083–84.
⁹ Ibid., 3, 22; PG 7, 959–60.
10 Ibid., 5, 19; PG 7, 959–60.
¹¹ Proof of the Apostolic Preaching 33, SC 62, pp. 83–86. Este parágrafo pode ser visto como uma expressão do cerne do pensamento de Irineu. Ele retorna a este tema repetidamente.
¹² De fato, em outro texto, Irineu aplica o termo paráklētos ao Espírito Santo, em oposição ao termo prosecutor (promotor/acusador), referindo-se ao diabo: “Para que, onde temos um acusador, possamos ter também um advogado” (Adv. haer. 3, 17; PG 7, 930). ¹³ Cf. Eberhard Neubert, Marie dans l’Église anténicéenne (Paris: J. Gabalda, 1908), p. 264.
Texto extraido e traduzido do livro Mary and the Fathers of the Church: The Blessed Virgin Mary in Patristic Thought de Luigi Gambero.