Na segunda metade do século II, circulava um livro de visões e alegorias que pretendia ter sido escrito por um certo Hermas, e que era comumente conhecido como O Pastor. Este livro era tratado com um respeito que beirava aquele dedicado às Escrituras canônicas do Novo Testamento, chegando a ser lido publicamente em diversas igrejas. Uma passagem dele é citada por Ireneu (IV. 20, p. 253) com as palavras: “Bem disse a Escritura”, fato que foi observado por Eusébio (H. E. v. 8).
O fato de Ireneu não ter colocado o livro no mesmo nível das Escrituras canônicas pode ser inferido por ele tê-lo citado apenas uma vez, não apelando a ele em sua discussão sobre os testemunhos das Escrituras em seu terceiro livro. O início mutilado da obra Stromata, de Clemente de Alexandria, abre-se em meio a uma citação de O Pastor; em cerca de dez outras passagens, ele cita o livro, sempre com total aceitação da realidade e do caráter divino das revelações feitas a Hermas, mas sem qualquer explicação sobre sua opinião de quem teria sido Hermas ou quando ele viveu.
Na geração seguinte, Orígenes, que cita o livro com frequência, afirma (em Rom. XVI. 14, Vol. IV. p. 683) que a obra lhe parece muito útil, e apresenta sua opinião individual de que ela foi divinamente inspirada. Ele faz, ainda, uma suposição — que foi repetida por outros depois dele, mas que parece não repousar em nenhuma autoridade anterior — de que o livro teria sido escrito pelo Hermas mencionado ao final da Epístola aos Romanos. Suas outras citações mostram que visões menos favoráveis do livro eram correntes em sua época. Suas citações de O Pastor são cuidadosamente separadas daquelas dos livros canônicos; ele geralmente acrescenta a uma citação de O Pastor uma cláusula de ressalva, dando ao leitor permissão para rejeitá-la; ele fala da obra (em Matt. XIX. 7, Vol. III. p. 644) como um escrito corrente na Igreja, mas não reconhecido por todos, e (De Princ. IV. 11) como um livro desprezado por alguns. Eusébio (II. 25) coloca o livro entre os notha [espúrios/disputados] junto aos Atos de Paulo, o Apocalipse de Pedro, a Epístola de Barnabé, etc.
Em outro lugar (III. 3), embora não consiga colocá-lo entre os antilegomena [livros contestados] por ser rejeitado por alguns, ele afirma que o livro foi usado publicamente em igrejas, que alguns dos escritores mais eminentes o empregaram e que foi julgado por alguns como extremamente necessário para aqueles que têm necessidade particular de instrução elementar na fé. Atanásio, também (Ep. Fest. 39, Vol. I. pt. II. p. 963), classifica O Pastor junto a alguns dos livros canônicos do Antigo Testamento e com o “Ensino dos Apóstolos” [Didaqué], como não canônicos, mas úteis para serem empregados na instrução catequética. O Pastor é encontrado no Manuscrito Sinaítico [Codex Sinaiticus] logo após a Epístola de Barnabé, como um apêndice aos livros do Novo Testamento. Após o quarto século, o livro saiu rapidamente do uso eclesiástico no Oriente.
As evidências externas mostram que Roma foi o seu local de composição. Em primeiro lugar, surge o autor do Fragmento Muratoriano sobre o Cânon, que nos diz que o livro foi escrito durante o episcopado de Pio, por Hermas, irmão daquele bispo, em um período que o autor descreve como estando dentro da memória viva daquela época. Ele conclui que o livro deve ser lido, mas não deve ser usado publicamente na Igreja entre os escritos proféticos — cujo número já estava completo — nem entre os escritos apostólicos.
FONTE: A General Introduction to the Study of the Holy Scripture – Pe. Andrew Eduard Breen
Muito interessante!