Sexta-feira, Março 6, 2026
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Jerônimo cita os deuterocanônicos, mas isso não quer dizer nada porque ele cita filósofos gregos?

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Mesmo após termos demonstrado, ao longo de praticamente todos os escritos de São Jerônimo com mais de 159 citações dos livros deuterocanônicos, inclusive analisadas em ordem cronológica, alguns protestantes, incapazes de enfrentar esse dado objetivo, recorrem a uma tentativa de relativização.

Essa estratégia consiste em minimizar as inúmeras passagens nas quais São Jerônimo emprega, de modo inequívoco, termos e fórmulas técnicas como “Escritura”, “Divina Escritura”, “Sagradas Escrituras”, “profeta”, “está escrito”, “o Espírito Santo diz” e “nos Livros Sagrados”, expressões que ele utiliza precisamente para fundamentar doutrinas, corrigir hereges, refutar os pelagianos, interpretar os profetas, e explicar temas centrais da fé cristã, como pecado, juízo, imagem de Deus, ressurreição e moral cristã.

Diante desse quadro, o argumento apresentado passa a ser o seguinte:

Jerônimo cita os deuterocanônicos ao lado das Escrituras, mas isso não quer dizer nada porque ele também cita um poeta pagão (como Pérsio); logo, isso não prova que ele considerava esses livros inspirados, pois ele também cita profetas gregos que não considera inspirados.

Para esse argumento o protestante cita a carta 127 a Principia onde São Jeronimo cita o filósofo grego Pércio em meio as escrituras:

Muito tempo antes, o Espírito Santo havia dito por meio do profeta: Por tua causa somos mortos o dia inteiro; somos considerados como ovelhas destinadas ao matadouro.’ Muitas gerações depois, foram ditas as palavras: “Lembra-te do fim, e jamais pecarás’ (Eclesiástico 7,36), assim como aquele preceito do eloquente satirista: ‘Vive com a morte em tua mente; o tempo voa; esta máxima minha foi grandemente inspirada por isso.’ (Pérsio) Pois bem, como eu dizia, ela passou seus dias e viveu sempre com o pensamento de que devia morrer. Suas próprias vestes eram tais que lhe recordavam o túmulo, e ela se apresentava como sacrifício vivo, racional e agradável a Deus (Romanos 12,1).

O argumento tenta ser sóbrio, contudo, ele falha por desconhecer completamente o método literário, retórico e teológico de São Jerônimo. O erro fundamental do protestante é confundir justaposição com equivalência.

  1. Jerônimo introduz a citação bíblica com uma fórmula pneumatológica:
    “O Espírito Santo havia dito pelo profeta”

  2. Ele então cita Salmos e Eclesiástico como palavra normativa e moralmente vinculante.

  3. Só depois disso ele menciona um poeta pagão como confirmação extrínseca, não como fonte revelada.

A simples justaposição textual não implica igualdade ontológica entre as fontes. O protestante pressupõe isso, mas Jerônimo nunca o faz. A chave hermenêutica é: Escritura como revelação, gregos como confirmação natural.

São Jerônimo explica explicitamente o que está fazendo em outro lugar, no prefácio ao Comentário sobre Isaías (Livro XVI):

A excelente sentença do orador mais eloquente é: ‘Felizes seriam as artes, se apenas os artífices julgassem sobre elas.’ (Cícero) E, para que não pareça que estou tomando exemplo apenas dos profanos, certamente é isso que o Profeta demonstra com outras palavras: ‘Bem-aventurado aquele que fala aos ouvidos dos que ouvem’ [Eclesiástico 26, 12].(Comentário Sobre Isaias, Livro XVI – Prefácio, 1).

No Comentário sobre Isaías, Livro XVI, São Jerônimo emprega a mesma estrutura argumentativa que já havia utilizado na Epístola 127 a Principia. Nela, ele demonstra que as verdades ensinadas pelas Escrituras podem ser reconhecidas e confirmadas pelos gregos por meio da razão natural, ainda que estes não possuam a plenitude da revelação. Dessa forma, o argumento protestante desmorona, pois parte de uma incompreensão básica da estrutura literária e teológica jeronimiana. Jerônimo não coloca Escritura e autores pagãos no mesmo nível; ao contrário, ele evidencia uma dicotomia clara: a verdade revelada, presente nas Escrituras, e a verdade parcialmente apreendida pelos pagãos mediante a razão.

Não por acaso, Jerônimo recorre ao mesmo livro deuterocanônico utilizado na Epístola 127 e o associa novamente a um autor pagão, reforçando conscientemente esse contraste metodológico entre revelação e filosofia e não uma equiparação entre elas. Essa distinção é clássica no pensamento cristão antigo, herdada de Paulo (cf. Romanos 1) e desenvolvida por autores como Clemente de Alexandria e Agostinho.

Fórmulas técnicas: como Jerônimo distingue Escritura de literatura profana


Quando Jerônimo cita os deuterocanônicos, ele usa expressões como:

  • O Espírito Santo diz

  • A Escritura diz

  • O Profeta afirma

  • Está escrito

  • “Escritura”,

  • “Divina Escritura”,

  • “Sagradas Escrituras”,

  • “profeta”,

  • “o Espírito Santo diz”

  • “nos Livros Sagrados”

Quando cita autores pagãos, ele usa: “o eloquente satirista”, “o orador mais excelente”, “os filósofos dizem”. Nunca ele aplica aos pagãos linguagem pneumatológica ou profética. Nunca ele fundamenta doutrina cristã em poetas gregos. Nunca ele corrige hereges com Pérsio ou Cícero. Logo, o argumento protestante se desfaz: Jerônimo sabe perfeitamente distinguir inspiração de erudição. O uso funcional prova o status canônico. Além da linguagem, há o uso. Eclesiástico é usado para exortar, normatizar, interpretar, corrigir. Poetas gregos são usados para ilustrar, adornar, confirmar. Essa distinção funcional é decisiva. Um texto pode ser citado; só a Escritura é normativa.

Se o protestante estivesse certo, então Jerônimo: chamaria Pérsio de profeta, atribuiria inspiração ao Espírito Santo em textos pagãos ou construiria doutrina cristã sobre filosofia estoica ou outros livros quaisquer. Nada disso acontece.

Conclusão: a objeção nasce da ignorância do método jeronimiano


A tentativa protestante de negar que Jerônimo considerava os deuterocanônicos como Escritura não é fruto de análise patrística, mas de leitura anacrônica e superficial. Jerônimo distingue claramente revelação e razão natural, chama os deuterocanônicos de Escritura, usa filósofos apenas como confirmação secundária, e explica explicitamente esse método em seus comentários. Negar isso exige ignorar o vocabulário técnico, a estrutura retórica, o contexto teológico e os próprios esclarecimentos do autor. Em suma: o problema não está nas citações de Jerônimo, mas na leitura vesga protestante delas.

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