Sexta-feira, Março 6, 2026
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Se Jerônimo mudou de opinião/aceitou os deuterocanônicos, por que os medievais não sabiam disso?

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Há anos apresentamos aqui, de forma rigorosamente documentada, o pensamento de São Jerônimo acerca dos livros deuterocanônicos, desde uma cronologia completa de seus escritos até mais de 150 citações em que ele utiliza, comenta e reconhece esses livros como Escritura. Ainda assim, diante desse conjunto impressionante de evidências, alguns protestantes continuam recorrendo a argumentos de último recurso, tentando descontruir fatos históricos bem estabelecidos por meio de questionamentos apressados e semanticamente frágeis, que revelam mais desespero argumentativo do que qualquer estudo sério.

A objeção protestante costuma seguir dois eixos:

    1. “Alguns teólogos medievais não mencionam os deuterocanônicos em suas listas baseados em Jerônimo.”

    2. “Jerônimo rejeitou esses livros e os medievais nada falam sobre ele ter mudado de opinião.”

Esses argumentos ignoram completamente o contexto histórico, textual e documental, além de incorrerem em anacronismos grosseiros. Presumir que os medievais conheciam Jerônimo como nós o conhecemos hoje com todas as suas obras editadas, compiladas e cruzadas, é de uma ingenuidade acadêmica impressionante.

1. Por que alguns medievais omitem os deuterocanônicos em suas listas?

A resposta é simples: eles foram influenciados pelos prefácios de São Jerônimo presentes na Glosa Ordinária

A Glosa Ordinária, compilada entre os séculos XI e XII, era o manual escolar da cristandade ocidental. Ela continha:

  • o texto bíblico,

  • cercado por comentários padronizados,

  • incluindo vários prefácios de Jerônimo (especialmente o Prologus Galeatus).

Nesses prefácios — escritos até cerca de 397 d.C. — Jerônimo expressa sua opinião inicial, classificando alguns livros como “não canônicos” no sentido judaico-hebraico, e não no sentido cristão e litúrgico.

Os medievais, portanto:

  • conheciam Jerônimo quase exclusivamente através desses prefácios,

  • não tinham acesso ao corpus completo de suas obras,

  • e repetiam sua terminologia sem compreender o sentido técnico que ele dava ao termo “canônico”.

Um ponto crucial: mesmo quando listas medievais omitem os deuterocanônicos, a liturgia medieval os utilizava continuamente. Ou seja: a Igreja nunca os excluiu, como comprovam concílios, missais e sermões do período.

2. Os medievais não tinham acesso ao Jerônimo “completo” que temos hoje

Graças às edições críticas modernas — especialmente as organizadas por Jacques-Paul Migne (séculos XIX–XX) na Patrologia Latina — nós hoje temos acesso:

  • às cartas completas de Jerônimo,

  • aos prefácios em ordem cronológica,

  • aos comentários,

  • às homilias,

  • e ao uso litúrgico real dos textos.

Mas os teólogos medievais não tinham nada disso. Se era difícil para um medieval possuir uma Bíblia completa antes da invenção da imprensa, imagine ter acesso ao corpus integral de São Jerônimo.

Não é exagero afirmar: qualquer estudante curioso de hoje tem mais acesso às obras de Jerônimo do que o mais erudito dos medievais. 

Assim, o “Jerônimo” que os medievais conheciam era o Jerônimo filtrado pela Glosa Ordinária, não o Jerônimo real e completo que a pesquisa moderna revelou. É por isso que é um erro histórico gravíssimo  e um anacronismo monumental: cobrar dos medievais um conhecimento que simplesmente não lhes era acessível.

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