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UMA ALUSÃO AO LIVRO DO ECLESIÁSTICO NO PRÓLOGO DE JOÃO

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UMA ALUSÃO AO LIVRO DO ECLESIÁSTICO NO PRÓLOGO DE JOÃO

Caio Lopes Alcaraz Torres

É sabido que um dos critérios adotados, dentre outros, pelos reformadores protestantes para rejeitar os livros ditos “deuterocanônicos” do cânone do Antigo Testamento é a ausência de referência a estes pelos autores inspirados do Novo Testamento. Tal critério por si só, é claro, não bastaria a determinar a exclusão dos mencionados livros: há muitos outros que não são referidos pelos hagiógrafos, mas que, ainda assim, foram recebidos pelos protestantes, por comporem o cânone judaico; o cânone é recebido em bloco.

Mas, se fosse demonstrado que ao menos um dos livros deuterocanônicos é referido no Novo Testamento, considerando que estes eram agrupados sob um mesmo cânone na tradicional versão dos LXX, seria isso suficiente para convencer nosso irmão separado de que os apóstolos atribuíam autoridade a tais textos? Pois o critério é o mesmo: não é necessário que todos os deuterocanônicos sejam citados pelos autores sagrados para que o cânone que os contém seja recebido como cânone, mas apenas que um deles sirva para afiançar os demais. Eis a nossa premissa fundamental.

O prólogo do Evangelho segundo João é conhecido por cantar a beleza da eternidade do Verbo, que estava junto de Deus e era Deus, e que veio habitar junto de nós, e que deu poder aos crentes de se tornarem filhos de Deus. Esse ponto culminante de beleza e profundidade das Escrituras, porém, não apenas nos toca pelo que ensina sobre a relação eterna do Filho com o Pai e a divindade do Senhor Jesus: ele está repleto da novidade do evangelho, mas em perfeita continuidade com o Antigo Testamento, havendo aqui uma palavra-chave que explicita essa relação — e essa palavra encontra-se num dos versículos mais importantes de toda a Escritura.

Diz o versículo 14 do capítulo 1 de João, no seu original grego: καὶ ὁ λόγος σὰρξ ἐγένετο καὶ ἐσκήνωσεν ἐν ἡμῖν — “e a Palavra carne tornou-se e montou tenda entre nós”. A referência ao Tabernáculo, onde habitava a Presença, é inconfundível.

O evangelista, porém, não foi o primeiro a usar dessa imagem para referir-se à presença de Deus no meio do seu povo. Ele o faz, sim, da forma mais direta e inconfundível até então, pois está falando da Encarnação; mas, antes dele, esse mistério já havia sido anunciado de forma confusa, ainda não inteiramente compreensível.

Estamo-nos referindo ao capítulo 24 do livro do Eclesiástico, também chamado por vezes de Sirácida (por ser atribuído a Jesus, filho de Sirach), que faz parte do cânone católico. Nesse capítulo, o autor refere-se à Sabedoria de Deus de forma pessoal como quem “procede da boca do Altíssimo antes de toda a criação”, que habita nos altos céus e toma parte na criação do mundo; o versículo 8 do referido livro, contudo, usa de termos extremamente semelhantes e ligados aos de João para referir-se à morada da Sabedoria:

τότε ἐνετείλατό μοι ὁ κτίστης ἁπάντων καὶ ὁ κτίσας με κατέπαυσεν τὴν σκηνήν μου καὶ εἶπεν ἐν Ιακωβ κατασκήνωσον καὶ ἐν Ισραηλ κατακληρονομήθητι

“Então ordenou-me o Criador de tudo, e o meu Criador repousou em minha tenda e disse: ‘monta tenda em Jacó e em Israel toma tua posse.’”

Ora, o verbo σκηνόω usado pelo evangelista praticamente não difere em sentido de κατασκηνόω, e o substantivo σκηνή é a origem de ambos os verbos. Ambos os trechos iniciam narrando a relação entre a Palavra/Sabedoria e Deus, sua participação na criação do mundo e atingem o clímax com sua habitação com os homens: João nos esclarece que essa habitação fez-se máxima e definitiva em Jesus Cristo. O paralelo entre os textos é claro:

João 1 Eclesiástico 24
No princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus. Ela [a Sabedoria] diz: “Saí da boca do Altíssimo; nasci antes de toda criatura.
Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito. Nele havia vida, e a vida era a luz dos homens. A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam. Eu fiz levantar no céu uma luz indefectível, e cobri toda a terra como que de uma nuvem. Habitei nos lugares mais altos: meu trono está numa coluna de nuvens. Sozinha percorri a abóbada celeste, e penetrei nas profundezas dos abismos. Andei sobre as ondas do mar, e percorri toda a terra. Imperei sobre todos os povos e sobre todas as nações.
 

 

e a Palavra carne tornou-se e montou tenda entre nós

Então, a voz do Criador do universo deu-me suas ordens, e aquele que me criou repousou sob minha tenda. E disse-me: “Monta tenda em Jacó, possui tua herança em Israel, estende tuas raízes entre os eleitos”.

 

Por outro lado, a identificação entre Cristo e a Sabedoria de Deus é feito em I Cor 1, 22-24:

Os judeus pedem milagres, os gregos reclamam a sabedoria; mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos; mas, para os eleitos – quer judeus quer gregos –, força de Deus e sabedoria de Deus.

Assim, Sabedoria 24, um livro deuterocanônico, ao tratar da Sabedoria divina como pessoa/hipóstase divina, parece ter sido claramente aludido por São João em seu prólogo, seja na estrutura, seja na própria escolha de palavras, tendo o apóstolo contudo, apresentado o verdadeiro sentido daquelas palavras: o Tabernáculo verdadeiro de Deus com os homens, anunciado desde os tempos antigos e esperado ansiosamente, é nosso Senhor Jesus Cristo.

FONTE: Apologistas Católicos. 26/10/2025

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