Alguns protestantes afirmam que o Livro da Sabedoria 8,19-20 ensina a chamada preexistência da alma, isto é, a ideia de que a alma humana já existiria em outro lugar antes de ser unida ao corpo. O texto citado é:
“Eu era um menino vigoroso, dotado de uma alma excelente, ou antes, como era bom, eu vim a um corpo intato.” (Sb 8,19-20)
É curioso notar que, embora muitos protestantes não aceitem o Livro da Sabedoria como inspirado, ainda assim se sentem no direito de interpretá-lo e afirmar o que ele supostamente ensina. Mais curioso ainda é que, enquanto fecham os olhos para a clara profecia cristológica presente em Sabedoria 2,12-20 (que anuncia de forma impressionante a paixão de Cristo), buscam nesse outro trecho uma doutrina que o texto jamais ensinou. Confira a profecia aqui.
O Peso da Comparação com Jeremias e Hebreus
Se realmente se quer defender que Sabedoria ensina a preexistência da alma, seria necessário dizer o mesmo de outros livros aceitos pelos protestantes, como Jeremias e Hebreus.
Em Jeremias lemos:
“Antes que eu te formasse no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio, eu te consagrei.” (Jr 1,5)
E em Hebreus:
“Levi, que recebe os dízimos, também os pagou, por assim dizer, em Abraão; pois ainda estava nos lombos de seu pai.” (Hb 7,9-10)
Ora, Jeremias não existia antes de ser formado, mas Deus já o conhecia em sua presciência eterna. Da mesma forma, Levi não existia de fato quando Abraão pagou os dízimos, mas a Escritura fala de forma figurada, mostrando a continuidade da linhagem.
Curiosamente, para Jeremias e Hebreus os protestantes sempre apelam à presciência de Deus ou à linguagem figurada. Mas quando se trata do Livro da Sabedoria, a mesma leitura razoável desaparece, e o texto é interpretado de maneira arbitrária como se fosse “doutrina platônica”.
Seguindo a mesma lógica usada pelos críticos protestantes, poderíamos então dizer que o Livro de Jó também ensina a preexistência da alma, já que descreve poeticamente sendo “vestido” de pele e carne:
“As tuas mãos me formaram e me fizeram… Não me derramaste como leite e não me coalhaste como queijo? De pele e carne me vestiste, de ossos e nervos me teceste. Vida e misericórdia me concedeste; e o teu cuidado guardou o meu espírito.” (Jó 10,8-12)
Contudo, ninguém interpreta esse texto como prova da preexistência da alma. Os próprios protestantes reconhecem aqui uma linguagem figurada, que descreve o processo de formação do ser humano no ventre materno. Ou seja, quando se trata de Jó, admitem sem dificuldade que o texto fala do desenvolvimento do feto e não de uma alma que já existia sendo ves5tida de carne.
O curioso é que essa mesma benevolência interpretativa não é concedida ao Livro da Sabedoria: nele, preferem forçar uma leitura platônica inexistente, em vez de reconhecer o mesmo recurso poético e sapiencial presente em Jó.
Linguagem Poética e Sapiencial
É preciso lembrar: o Livro da Sabedoria pertence ao gênero da literatura sapiencial. Isso significa que faz uso de metáforas, paralelismos e imagens poéticas.
Quando o autor diz “vim a um corpo intato”, não descreve uma suposta descida de uma alma já existente, mas expressa em tom de gratidão:
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que recebeu de Deus uma alma boa,
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e um corpo íntegro desde o princípio de sua vida.
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Assim como Jeremias, Hebreus e Jó, o texto de Sabedoria fala em chave teológica e poética, não filosófica.
Conclusão
O Livro da Sabedoria 8,19-20 não ensina a preexistência da alma. O autor, em estilo sapiencial, apenas reconhece que recebeu de Deus o dom da vida, com uma boa alma e um corpo íntegro.
A confusão surge de uma leitura feita sob as lentes do platonismo, estranha ao contexto judaico. A Bíblia, em toda a sua unidade, ensina que Deus cria cada ser humano de forma única, e que, em sua eternidade, Ele já nos conhecia antes mesmo de nascermos. Portanto, o texto de Sabedoria não ensina uma doutrina pagã, mas sim um louvor ao Criador que dá a vida e sustenta cada pessoa em sua providência.