As liturgias cristãs primitivas fornecem um testemunho claro e unânime em favor da oração pelos fiéis defuntos. Esse testemunho está em plena consonância com os monumentos arqueológicos e escritos cristãos dos primeiros séculos (visto no artigo anterior), refletindo uma prática constante desde os tempos apostólicos.
Sem a necessidade de nos aprofundarmos na análise detalhada de cada rito preservado — como os nestorianos, monofisitas e católicos, em línguas como siríaco, armênio, copta, grego e latim — é suficiente afirmar que todas as liturgias antigas incluem, de forma explícita, preces pelos mortos.
Essas orações, inseridas no contexto da celebração da Santa Missa, costumam pedir paz, luz e refrigério para as almas, bem como a remissão dos pecados e a purificação de toda mancha espiritual. Vejamos alguns exemplos notáveis:
Liturgia de São Tiago de Jerusalém
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Origem: Igreja de Jerusalém
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Data aproximada: século IV (com elementos anteriores)
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Língua original: Grego, depois siríaco
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Observação: Tradicionalmente atribuída a São Tiago, o Justo. Ainda usada em datas especiais por Igrejas Ortodoxas e Católicas Orientais.
“Bendito seja Deus, que nos abençoa e santifica a todos na apresentação dos divinos e puros mistérios, e concede repouso às almas bem-aventuradas entre os santos e justos, agora e sempre, e por toda a eternidade.
Por toda alma cristã em tribulação e angústia, necessitada da misericórdia e do socorro de Deus; pela conversão dos que erram, pela saúde dos enfermos, pela libertação dos cativos, pelo repouso dos pais e irmãos que adormeceram anteriormente; […]
E concede que a nossa oferta seja aceita, santificada pelo Espírito Santo, como propiciação por nossas transgressões e pelos erros do povo; e pelo repouso das almas que adormeceram anteriormente.” (Liturgia de São Tiago)
Essa mesma liturgia repete diversas vezes o pedido pelo repouso das almas dos cristãos falecidos, demonstrando a centralidade dessa prática na vida litúrgica da Igreja primitiva.
Liturgia Siríaca de São Tiago
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Origem: Comunidades de língua siríaca (Síria e Mesopotâmia)
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Data aproximada: século V
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Língua original: Siríaco
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Observação: Variante oriental da liturgia de São Tiago, adaptada cultural e linguisticamente para o Oriente Semítico.
“Comemoramos todos os fiéis falecidos que morreram na verdadeira fé… Suplicamos, oramos e rogamos a Cristo nosso Deus, que acolheu suas almas e espíritos junto de Si, que por Sua imensa misericórdia os torne dignos do perdão de suas faltas e da remissão de seus pecados.” (Liturgia Siríaca de São Tiago (ed. Hammond, p. 75))
Liturgia de São Marcos
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Origem: Igreja de Alexandria (Egito)
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Data aproximada: século III–IV
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Língua original: Grego (posteriormente copta)
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Observação: Tradicionalmente atribuída ao evangelista Marcos; liturgia base do rito copta.
“Ó Senhor nosso Deus, dá paz às almas de nossos pais e irmãos que adormeceram em Jesus, lembrando-nos de nossos antepassados antigos, nossos pais, patriarcas, profetas, apóstolos, mártires, confessores, bispos e das almas de todos os homens santos e justos que morreram no Senhor.”(Liturgia de São Marcos)
Liturgia dos Santos Apóstolos (Addai e Mari)
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Origem: Igreja do Oriente (Mesopotâmia, atual Iraque/Ira)
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Data aproximada: século II–III
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Língua original: Siríaco oriental
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Observação: Uma das mais antigas liturgias cristãs em uso contínuo, ainda hoje celebrada por assírios, caldeus e outros.
“Ó Senhor Deus Todo-Poderoso, aceita esta oblação por toda a Santa Igreja Católica, e por todos os piedosos e justos padres que Te agradaram, e por todos os profetas e apóstolos, e por todos os mártires e confessores, e por todos os que choram, que estão em dificuldades e doentes, e por todos os que estão sob provações, e por todos os fracos e oprimidos, e por todos os mortos que partiram entre nós; e por todos os que pedem uma oração de nossa fraqueza — e por mim, um pecador degradado e frágil.”(Liturgia Dos Santos Apóstolos)
CONCLUSÃO
A convergência dessas liturgias, pertencentes a tradições que muitas vezes se separaram da comunhão católica antes mesmo do século V, é um poderoso testemunho. Essa prática não é apenas comum, mas universal e profundamente enraizada na fé cristã desde os primeiros séculos.
Portanto, a oração pelos mortos não é um acréscimo posterior à tradição da Igreja, mas uma expressão viva de sua espiritualidade desde os tempos apostólicos — presente em todas as liturgias antigas, refletindo a esperança cristã na misericórdia de Deus e na comunhão dos santos.