Entre “os pérfidos judeus” e o “privilégio de ser Israel”

Religiões (Nostra Aetate)
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Se tal foi desde as origens a consciência teológica da Igreja para com Israel, não estranhará comprovar que, embora estudos filológicos e históricos não nos fizeram refletir sobre o verdadeiro sentido da frase “perfídia judaica”[1], ouvir o que a liturgia cristã tem chamado pérfidos aos judeus durante tantos séculos, resultava para muitos ao menos escandaloso[2]. De modo que, no texto litúrgico em questão, tal apelativo não é aplicado diretamente aos algozes de nosso Cristo, mas aos judeus atuais. Se bem que é verdade que, na nova regulamentação da Semana Santa, este texto foi corrigido, não por isso decaiu o interesse teológico do tema a que se refere.

Grande parte da interpretação pejorativa que se dava a esta frase procedia da estranha rubrica que, antes da oração “pro conversione iudaeorum”, mandava omitir a genuflexão de penitência que acompanha as demais orações que se recitam na ação litúrgica da Sexta-feira Santa[3]. Mas, qualquer que seja a atitude que se adote nesta pequena questão, se pôde mostrar que esta rubrica, introduzida pela primeira vez na França pelo século IX, se deve, mais que a amarga controvérsia medieval antijudia, à aceitação pela liturgia romana dos impropérios contra o povo judeu, recebidos da liturgia siríaca. A mencionada rubrica se introduz para dar um sentido unitário a toda a ação sagrada[4].

A literatura patrística cristã começa a aplicar aos judeus o termo “perfídia” entre os séculos III e IX, e vai adotando sucessivamente diversos significados[5], coincidentes todos em vir a expressar a incredulidade ativa dos não católicos e dos heterodoxos. Entre estes significados de “perfídia” não se pôde descobrir o relativo a uma espécie de enfermidade moral do povo judeu que os constituiria caracteristicamente duro para o Evangelho; tal seria, pelo contrário, segundo Neut, o significado da palavra latina “insolentia”. Assim, pouco a pouco, se foi impondo a tradução de infiel, isto é, de homem que não tem fé, de não crente[6], versão reconhecida e praticamente recomendada pela Sagrada Congregação de Ritos[7].

É esta “infidelitas in credendo”, esta infidelidade de Israel a seus sublimes destinos, o que a Igreja lamenta em seus textos litúrgicos que aos judeus se referem. Suas orações destacam a este propósito dois temas de suma importância para realçar o conceito universalista de si mesma e de sua missão que manifesta em seus textos litúrgicos: o desejo de que todos os homens, pela fé em Cristo e o batismo cristão, se unam ao verdadeiro Israel, ao Israel das promessas, e adquiram assim, conforme as mencionada palavras de São Paulo, a dignidade de filhos de Abraão: “Que todos os gentios consigam por obra da fé o privilégio de Israel e sejam regenerados pela participação de teu Espírito”[8]. “Que a totalidade do mundo passe a ser filho de Abraão e alcance a dignidade de ser israelita”[9].

Estes dois textos, tanto mais expressivos quanto que pertencem a sóbria liturgia romana, não suscitariam tanta estranheza se recordar-se das palavras do Batista ao falar aos judeus: “Não comeceis a dizer entre vós mesmos: Temos por pai a Abraão; porque eu vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a Abraão” (Mt 3,9). Comentando estas palavras, disse Schmaus[10] que com elas o Batista faz uma dura crítica da teologia sinagogal do sangue e “indiretamente afirma com decisão o povo de Abraão, já que os filhos que Deus pode fazer surgir das pedras são chamados por ele deste modo, porém ao mesmo tempo expressa que Deus pode começar uma nova geração que não proceda de Abraão”.

A Igreja, o novo povo de Deus, não o é tal pelo sangue, mas pela fé. Deste a “plenitude dos tempos” pertence ao povo de Deus todo aquele que se adere ao Cristo pela fé e reconhece seu messianismo e se introduz pelos sagrados ritos no mundo de seus mistérios. Daí a transposição à Igreja dos privilégios e qualidades do verdadeiro Israel. Não há substituição de um sujeito a outro, mas renovação de suas regras de existência. A Igreja é o novo povo de Deus, não no sentido que o primeiro houvesse desaparecido e outro haja vindo a partir de fora, mas no sentido de que tudo adquire uma nova dimensão de presença e transcendência: as promessas de presença de Deus no mundo se inscrevem a partir de agora em benefício de todo homem pela fé em Cristo. Evidentemente, os judeus rechaçam, por definição, esta transferência; mas a revelação cristã a afirma, e nossa profissão de cristianismo a impõe. Por isso mesmo, porque Israel forma essencialmente parte do plano de Deus sobre a história humana, constitui um problema essencialmente teológico. Não se pode falar de Israel mais que em termos religiosos e desde um ponto de vista religioso. Como da Igreja. A história inteira de Israel é um mistério: a do Israel anterior à Igreja e do atual Israel, constituindo em comunidade política. Israel como a Igreja, é “um sinal levantado entre os povos”[11].

A incredulidade dos judeus e sua obstinação anticristã, o que a liturgia vinha chamando sua “perfídia”, constituíam para São Paulo o máximo escândalo. Como um mistério impenetrável, segundo os conceitos que tantas vezes verte em Gálatas e Romanos. Mas um mistério que não nos dispensa da indagação e da oração. No atual texto das solenes orações da ação litúrgica da Sexta-feira Santa, na qual a Igreja, solícita mãe, reza por todos seus filhos e pelos que não querem sê-lo, se suprimiu ao fim a palavra “perfídia”, que, por não responder já ao usual significado, era mal interpretada por muitos. Humilde e claramente, paradoxicamente, pede a Igreja ao Cristo recentemente morto, cuja cruz, “da qual pendeu a salvação do mundo”, seja descoberta e adorada pelos fieis, que também a eles “retire-lhes o véu que cobre seus corações e reconheçam a Nosso Senhor Jesus Cristo, para que este povo, cego a luz da verdade de Deus, que é Cristo, saia de suas trevas”. A Igreja pede que Israel seja agora “verdadeiro Israel”.

São Paulo, o grande judeu, mantinha esta mesma esperança de reintegração (Rom 11,11; 15,32), e profeticamente a viu já realizada (Eph. 2,11-12). Mas ainda, o mistério da Igreja fica compreendido entre a dupla incógnita do mistério do antigo Israel e dos destinos de Israel incrédulo, sobre cuja conversão final consta a promessa de Deus. Se o antigo povo de Deus não houvesse negado a Cristo, não existiria a Igreja como instituição que herdou suas promessas. Pressuposto da Igreja é a infidelidade ou “perfídia” de Israel. E, por outra parte, “a plenitude da Igreja está condicionada à conversão do antigo povo de Deus”[12]. No conflito político-religioso e na rivalidade que, apesar dos sinceros desejos de compreensão por ambas as partes e não sem despedaçar muitos corações, irrompeu violentamente entre judeus e cristãos, o judaísmo saiu vencedor pelo momento. A Igreja não pôde ser reconhecida oficialmente como verdadeiro Israel – “religio licita” para os romanos – e foi perseguida com uma espécie de “ódio religioso” pelos próprio judeus (como esquecer aqui primeiramente Saulo frente a Estevão?), que chegavam a crer que assim “rendiam um serviço a Deus (Io, 16,2). No plano teológico, o dilema se abordava de um modo muito mais profundo que no político, e não podia menos  do que resultar a uma completa cisão. O conflito neste terreno não poderia concluir se não “ou  pela restauração de Israel, isto é, pela volta do cristianismo ao judaísmo mediante o abandono da fé cristológica, ou pela conversão de Israel, isto é, pelo abandono da incredulidade no Messias[13]. É desnecessário dizer que, para um cristão, somente esta última opção é viável. Assim o pede a Igreja na liturgia. Não é, pois, o sentimento de rancor que regra as relações entre Igreja e Israel. A Igreja guarda para o povo judeu os máximos respeitos e se sente a ele vinculada pelos laços fraternais. Não é judia a Igreja? Não é judeu o Cristo, a Virgem e os membros mais puros e santos da Igreja? Nós, os recém chegados, devemos a este povo “uma admiração tingida de inveja, radicalmente incompatível com o desprezo, a postergação e o ódio aos judeus, enquanto judeus, que caracterizam o antisemitismo”[14]. E esperar, confiar e orar para que reconheçam a Cristo, para que abram seus olhos à luz de Deus, “quae Christus est”.

 



[1] “Oremus et pro perfidis iudaeis” – “iudaicam perfidiam” – haebraicam superstitionem” (RomMiss, solenes orações da sexta-feira santa; e RomRit II c.4 n. 10).

[2] CANET, L., La prière ‘pro iudaeis’ de la liturgie catholique romaine; “Revue des Études Juifs” 122 (1911) 211ss; VERNET, F., Juifs et Chrétiens: “Diction. Apol. de la Foi Cathol.” (Paris 1911) vol.2,1733; NEUT, A., La prière pour lês juifs: “Bulletin des Missions” 8 (1927) 245ss; PETERSON, E., Perfidia judaica: “Ephem. Lit.” 50 (1936) 296-311; OESTERREICHER, J. M., Pro perfidis iudaeis: “Theol. Studies” 8 (1947) 80-96.

[3] Esta rubrica foi suprimida no novus ordo da Semana Santa. Se há de ter em conta que a oração “pelos judeus”, igual as outras dos “pro haereticis” e ‘pro paganis”, era um costume particular de Roma, segundo JUNGMANN, El sacrifício de la Misa, antes cit, p. 810. Por isso não se encontram em nenhuma outra liturgia, como tampouco as mesmas orações solenes da Sexta-feira Santa, as quais pertencem, introduzidas em Roma já no final do século III. Nos sacramentários de origem romana aparecem no GrM, mas não no Le, do qual, como é sabido, faltam muitos fragmentos, nem no GeV.

[4] Assim NEUT e PETERSON, l.c.

[5] Segundo Peterson (l.c., p. 308), “o uso patrístico da palavra perfídia significa fé errada dos hereges (Irrglauben), a negação da fé dos judeus (Unglauben) e a carência da fé (Glaubenslosigkeit) dos pagãos”.

[6] Foi proposta já pelo ard. SCHUSTER, Liber Sacramentorum (Roma 1920) vol. 3, p. 221. Em um aprofundado estudo sobre a palavra Infidelis, publicado em “Vigiliae Christianae” 5 (1951) 129-147, H. Schmeck oferece um esquema dos três significados fundamentais desta palavra, de muito difícil interpretação. Mas estuda seu uso somente na Sagrada Escritura, nos Padres e em alguns autores profanos, não na Liturgia; por isso seu estudo tem tanto interesse para nossa tarefa:

  1. Significado objetivo, exterior: judeu, pagão, herege; não cristão.
  2. Significado interior: incrédulo, de fé débil; não crente.
  3. Significado moral: pecador, ímpio, mau.

É digno de se notar que os três empregos patrísticos de perfídia que Peterson encontrou coincidem exatamente com os três primeiros de infidelis que Schmeck vê aplicados aos não cristãos.

[7] No sentido de “infiel” para crer (AAS 40 [1948] 342). Mas como assinala Pinto (l.c., p. 225), não quis decidir positivamente o sentido exato desta expressão.

[N.do.T.: “In bina illa precatione qua sancta Mater Ecclesia in orationibus sollemnibus feriae sextae in Parasceve etiam pro populo hebraico Dei misericordiam implorat, haec verba occurrunt : “perfidi iudaei”, et “iudaica perfidia”. Porro quaesitum est de vero sensu istius locutionis latinae, praesertim cum in variis translationibus, ad usum fidelium in linguas vulgares factis, illa verba expressa fuerint locutionibus quae auribus istius populi offensivae videantur. Sacra haec Congregatio, de re interrogata, haec tantum declarare censuit : “Non improbari, in translationibus in linguas vulgares, locutiones quarum sensus sit : “infidelitas, infideles in credendo ". Romae, die 10 Iunii 1948. C. Card. MICARA, Episc. Veliternus, Praefectus”].

[8] RomMiss, sábado de Pentecostes, vigília, oração depois da segunda profecia, procedente do GeV.

[9] RomMiss, sábado santo, oração depois da quarta profecia, também proveniente de GeV, segundo BRUYLANTS 437 e 211.

[10] La Iglesia (Madrid 1960) p. 211.

[11] CONGAR, Y. M., El estado de Israel em los designios de Dios: “Orbis Catholicus” 2 (1959) n. 7 p. 32.

[12] SCHMAUS, M., o.c., p. 88.

[13] MÉNOUD, PH. H., o.c., p. 52. Um bom estudo de conjunto é o de CHARNUE, A., L'incrédulité des juifs dans le Nouveau Testament. Étude historique-exégétique (París 1929). Também GONZÁLEZ RUIZ, J. M., La restauración de Israel en los profetas: Estudios Bíblicos" 11 (1952) 157-187.

[14] JOURNET, CH., Destinées d'Israel (París 1945) p. 114.

 

FONTE


Angel Alcala Galve e Casimiro Morcillo Gonzalez, La Iglesia, Misterio y Mision, B.A.C., Madrid, 1963, pp. 95-99.

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