Orígenes de Alexandria e a intercessão dos santos no século III

Estudos Patrísticos
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Orígenes de Alexandria foi um importante escritor eclesiástico da Igreja primitiva. Ele era um homem de conduta reta e notável erudição, considerado o Pai da Teologia. Nascido por volta do ano 185 d.C., dirigiu entre 203 e 231 a Escola de Alexandria. Seu prestígio chegou a ser tão alto que os bispos da Cesaréia, Jerusalém e outras cidades palestinenses lhe solicitavam para que pregasse sermões e explicasse as Escrituras em suas respectivas comunidades, fato que logo lhe rendeu problemas junto ao seu bispo, Demétrio de Alexandria, vez que não era sacerdote.

Em seus escritos, Orígenes testemunha que a Igreja de sua época não somente acreditava que as almas dos santos falecidos podiam interceder por nós, como que também tanto elas quanto os anjos deveriam ser invocados para se obter algum favor.
 
Os vários tipos de petições

Em 235, época em que Orígenes era professor catequético de Alexandria, escreveu o mais importante e influente livro sobre a oração dos três primeiros séculos da Era Cristã. Chamado simplesmente de “Tratado sobre a oração”, era uma resposta ao pedido de seus dois amigos Ambrósio e Tatiana, para ajuda-los a entender os mistérios da oração.

Orígenes começa o seu livro esclarecendo os vários tipos de “petições” presentes na Bíblia. No capítulo 12, baseando-se em 1 Timóteo 2,1 ele as classifica como quatro. De acordo com ele:

“Eu penso que “Súplica” seja a forma de oração que um homem em alguma necessidade oferece com rogo para sua realização; “Oração“, o que um homem oferece no sentido mais elevado para as coisas superiores com a atribuição da glória; “Intercessão“, o endereçamento da pretensão a Deus por um homem que possui uma certa confiança mais plena;  “Ação de graças“, o reconhecimento do orante da obtenção de bênçãos de Deus, [isto é] aquele que retorna o reconhecimento sendo impressionado pela grandeza, ou o que parece ao destinatário a grandeza, dos benefícios conferidos.” (Orígenes de Alexandria, Tratado Sobre a Oração, 12,2)

É importante entender a distinção terminológica utilizada por Orígenes para compreender alguns textos confusos que serão analisados mais adiante.
 
A Súplica dos santos

Após ter apontado os tipos de petições presentes na Bíblia, Orígenes começa a abordar cada uma delas especificamente. Ele escreve:

“Agora, súplicas, ações de graças e intercessões podem ser oferecidas para as pessoas sem impropriedade. Dois deles, ou seja intercessão e ação de graças, podem ser oferecido não só para os santos, mas para pessoas sozinhas, em geral, ao passo que a súplica deve ser oferecida somente aos santos, [pois] se for encontrado um Paulo ou um Pedro, podem beneficiar-nos e fazer-nos dignos para atingir autoridade para o perdão dos pecados. (Orígenes de Alexandria, Tratado Sobre a Oração, 14,6; PG 11,464)

Perceba que Orígenes distingue no texto os homens vivos (a quem pode ser dirigido intercessões e ações de graça), dos santos falecidos (como Pedro e Paulo, a quem pode ser dirigido as súplicas). Após ensinar que a súplica deve ser oferecida aos santos somente, Orígenes justifica que devemos encontrar um santo intercessor (como Pedro e Paulo) para que ele possa nos beneficiar e nos fazer dignos de obter o perdão dos pecados: Eis uma prova clara do que hoje chamamos de invocação dos santos.
 
A Súplica aos anjos e ao anjo da guarda

Em um longo texto que será mostrado mais adiante onde Orígenes defende ferrenhamente a intercessão dos santos com base em passagens do Antigo Testamento, o Padre não se esqueceu do poder de intercessão dos anjos, escrevendo:

“Não em vão os anjos de Deus ascendem e descem até o Filho do Homem, contemplando os olhos que foram iluminados com a luz do conhecimento. Na própria temporada de oração, portanto, sendo lembrados pelo suplicante de suas necessidades, eles satisfazem-nos já que têm esta capacidade em virtude de sua comissão geral.”  (Orígenes de Alexandria, Tratado sobre a Oração, 11,1-4)

Orígenes, no entanto, com base no versículo de Mateus 18, 10 que diz “Guardai-vos de menosprezar um só destes pequenos, porque eu vos digo que seus anjos no céu contemplam sem cessar a face de meu Pai que está nos céus.”, atesta a presença de um anjo pessoal (que chamamos atualmente de “anjo da guarda”) para cada homem:

“Assim podemos supor que a presença dos anjos que exercem supervisão e ministério para Deus é, às vezes, trazido em conjunto com um suplicante particular, a fim de que eles possam juntar-se em respirar suas petições. Mais ainda, vendo sempre a face do Pai no céu e olhando para a divindade de nosso Criador, o anjo de cada homem, até dos “pequeninos” (Cf. Mt 18,10) dentro da Igreja, ora conosco, e age conosco quando possível, pelos objetivos de nossa oração.” (Orígenes de Alexandria, Tratado sobre a Oração, 11, 4)

Há também outra citação em sua obra contra Celso: “Pois na verdade, “o anjo do Senhor acampa ao redor dos que o temem, e os liberta” de todo mal (cf. Sl 33,8). E os anjos das criancinhas da Igreja, colocadas sob a guarda deles, como diz a escritura: “veem continuamente a face de meu Pai que está nos céus” (Mt 18,10), qualquer que seja o sentido da palavra “face” e o sentido da palavra “ver”.” (Orígenes de Alexandria, Contra Celso, Livro VI, 41).

Eis mais um testemunho da invocação dos anjos na Igreja Pré-Nicênica.
 
A "Oração" é dirigida somente ao Pai

Uma vez entendido que Orígenes distinguia os termos “Oração”, “Súplica”, “Intercessão” e “Ação de Graças”, o teólogo defende que o primeiro tipo de petição (isto é, a oração) deve ser dirigida somente à Deus Pai (excluindo não somente qualquer criatura gerada como também o próprio Cristo):

“Mas se aceitarmos a oração em seu pleno significado, não poderemos nunca orar a nenhum ser gerado, nem mesmo a Cristo, mas somente ao Deus e Pai de Todos a quem nosso Salvador orou, como já instanciamos” (Orígenes de Alexandria, Tratado Sobre a Oração, 15,1)

Nesse sentido, Orígenes acredita sim que podemos dirigir súplicas aos santos como São Pedro e São Paulo, mas de acordo com sua Teologia, a “oração” é algo dedicado especificamente ao Pai. E é nesse sentido que em sua obra Contra Celso, Orígenes critica aqueles que invocam os anjos "sem ter recebido a seu respeito uma ciência que ultrapassa o homem" (cf. Contra Celso, V, 4-5), isto é, uma ciência que distingua os vários tipos de petições propostas pela Igreja Alexandrina, que entende que a "oração" deve ser dirigida especificamente à Deus Pai.

  
Defendendo a intercessão dos santos com os deuterocanônicos

O testemunho de Orígenes, um Padre do século III (que nasceu no século II), é muito importante contra hereges que consideram que a Igreja Católica foi fundada por Constantino no século IV. Seu testemunho em favor da intercessão dos santos já mata a tese de que Constantino teria criado esta Doutrina. Mais belo, no entanto, é ver Orígenes defendendo a Doutrina da Intercessão dos santos com base nos livros de Macabeus e Tobias que foram retirados da Bíblia protestante. Leia o que escreve o teólogo:

“Mas estes oram junto com aqueles que rezam genuinamente – não apenas o Sumo Sacerdote (Cristo), mas também os anjos que “regozijam-se no céu mais por um pecador arrependido do que por noventa e nove justos que não precisam de arrependimento”, e também as almas dos santos que já descansam.

Duas instâncias tornam isso claro. A primeira é onde Rafael oferece seu serviço a Deus para Tobit e Sarah. Depois que ambos oraram, a Escritura diz: “Na mesma hora, a prece dos dois foi ouvida perante a glória de Deus. E Rafael foi enviado para curar a ambos.” (Tb 3,16-17), e o próprio Rafael, ao explicar sua missão angélica ao comando de Deus para ajudá-los, diz : “Mesmo agora, quando orastes, e Sara, tua nora, trouxe o memorial da tua oração perante o Santo”, e logo depois, “Eu sou Rafael, um dos Sete anjos que apresentam as orações dos santos e assistem a presença do Senhor.” Assim, segundo o relato de Rafael, apresenta ao menos, a oração com jejum, a esmola e a justiça como uma coisa boa.

O segundo exemplo está nos Livros dos Macabeus, onde Jeremias aparece excedendo “glória de cabelos brancos” de modo que uma autoridade maravilhosa e majestosa estava sobre ele, e estendeu sua mão direita e ofereceu a Judas uma espada de ouro, e há testemunhas de outro santo já em repouso, dizendo: “Este é aquele que reza muito pelo povo e pela cidade sagrada, o profeta de Deus, Jeremias” (II Macabeus 15,3). 
(...)

Ora, uma dessas excelências, no sentido mais estrito de acordo com a Palavra Divina, é o amor ao próximo, e assim somos compelidos a pensar que estamos possuídos [de amor] em um grau muito mais elevado por santos já em repouso do que por aqueles que estão na fraqueza humana e lutam junto com os mais fracos. Não é só aqui que “se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele e se um membro é glorificado, todos os membros se regozijam com ele” na experiência daqueles que amam seus irmãos pois também há o amor dos que estão além da vida presente para dizer: “Tenho ansiedade por todas as igrejas.”. (…)

Não em vão os anjos de Deus ascendem e descem até o Filho do Homem, contemplando os olhos que foram iluminados com a luz do conhecimento. Na própria temporada de oração, portanto, sendo lembrados pelo suplicante de suas necessidades, eles satisfazem-nos como eles têm capacidade em virtude de sua comissão geral. (...)

Assim podemos supor que a presença dos anjos que exercem supervisão e ministério para Deus é, às vezes, trazido em conjunto com um suplicante particular, a fim de que eles possam juntar-se em respirar suas petições. Mais ainda, vendo sempre a face do Pai no céu e olhando para a divindade de nosso Criador, o anjo de cada homem, até dos “pequeninos” dentro da igreja, ora conosco, e age conosco quando possível, pelos objetivos de nossa oração.
(Orígenes de Alexandria, Tratado sobre a Oração, 11,1-4)
 
Os santos oram por nós mesmo quando não os invocamos

Por fim, em outra obra, Orígenes, ao refutar o herege Celso, afirma que podemos ter se quisermos além de Deus outros protetores, isto é, os santos e anjos que oram por nós até mesmo quando não pedimos a eles:

“Existe só o Deus supremo cujo favor se deve procurar e a quem se deve pedir que seja propício, buscando sua graça pela piedade e por todas as virtudes. E se Celso quiser, depois do Deus supremo, tornar propícios outros protetores, deve compreender que, como o corpo que se desloca é seguido pelo movimento e sua sombra, da mesma forma o favor do Deus supremo atrai a benevolência de todos os que o amam: anjos, almas, espíritos. Eles conhecem os que merecem o favor de Deus, e não contentes em conceder sua benevolência aos que têm este mérito, colaboram com os que querem prestar culto ao Deus supremo; cheios de benevolência, com eles oram e intercedem. Em consequência disso ousamos dizer: quando os homens aspiram de todo coração aos melhores bens e oferecem a Deus sua oração, uma multidão de santos poderes, mesmo quando não são invocados, oram com eles e assistem nossa raça perecível. E, se posso dizer, combatem a nosso lado, por causa dos demônios que tais poderes veem combater e lutar contra a salvação dos que acima de tudo se consagram a Deus e desprezam o ódio dos demônios, qualquer seja seu furor contra o homem que evita prestar-lhes culto por meio de cheiro de gordura e do sangue, mas se emprenha de todos os modos, por suas palavras e ações, em viver na familiaridade e na união com o Deus supremo, graças a Jesus: pois Jesus causou a derrota de número infinito de demônios ao se dirigir para todos os lugares “curando e convertendo todos os que estavam dominados pelo diabo” (At 10,38).” (Orígenes de Alexandria, Contra Celso, Livro VIII, 64).
 
Conclusão

A tese protestante de que o Imperador Constantino criou a Doutrina Católica no século IV não se sustenta diante dos relatos históricos dos cristãos que viveram nos séculos anteriores à Constantino. Vemos aqui um teólogo cristão que nasceu no século II e morreu no século III defendendo claramente não só a intercessão e invocação dos santos como também utilizando-se de livros deuterocanônicos, a quem chama de “Escritura”, como fonte de Revelação! Constantino, por sua vez, não era nem um embrião e portanto não pode ser culpado de uma prática santa que existe na Igreja desde a Era Apostólica, muito antes dele nascer.
 

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