Comentário teológico e pastoral ao Decreto sobre o Ecumenismo (parte 1)

Ecumenismo

Pe. Miguel Nicolau e José Sánchez Vaquero*

 

VALOR DOUTRINAL DO DECRETO SOBRE O ECUMENISMO

Comentário teológico e pastoral ao Decreto sobre o Ecumenismo (parte 1)

Comentário teológico e pastoral ao Decreto sobre o Ecumenismo (parte 2)

Comentário teológico e pastoral ao Decreto sobre o Ecumenismo (parte 3)

Comentário teológico e pastoral ao Decreto sobre o Ecumenismo (parte 4)

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O PROÊMIO (nº. 1) 

Começo

O modo de promulgar este Decreto, segue a linha já observada na promulgação da constituição sobre a Liturgia do Vaticano II[1]. É uma promulgação colegial do Papa, juntamente com os Padres do Concílio: “Paulo, Bispo, servo dos servos de Deus, juntamente com os Padres do Sagrado Concílio, para perpétua memória”. Notou-se a diferença no que se respeita à maneira como se promulgou a Constituição De Ecclesia, no Vaticano I. Então dizia-se: “Pio, Bispo, servo dos servos de Deus, com a aprovação do Sagrado Concílio[2], para perpétua memória”. Agora, o Papa e os Padres Conciliares, juntamente e ao mesmo tempo, anunciam e promulgam o que decretaram colegialmente. No fim do Decreto, encontraremos a mesma forma colegial: “Todas estas coisas e cada uma delas, prescritas neste Decreto, agradaram aos Padres. E Nós, em virtude do poder Apostólico que nos foi dado por Cristo, juntamente com os veneráveis Padres, aprovamos no Espírito Santo estas coisas, as decretamos e determinamos e mandamos que estas determinações estabelecidas conciliarmente, sejam promulgadas, para a maior glória de Deus”[3]. Segue a data de promulgação (21 de Novembro de 1964) e as assinaturas do Papa e dos Cardeais, Patriarcas e Arcebispos Primazes.

Esta aprovação e promulgação colegial, corresponde a uma maior consciência colegial que reina hoje, e reinou no Concílio. O Concílio, juntamente com o Papa, sem nunca prescindir dele, que é quem deve aprovar os atos, constituições e decretos, possui também o pleno e supremo poder da Igreja, o mesmo que o Papa[4].

 

Os pressupostos do Decreto (nº. 1)

proêmio a que nos referimos, que é o nº I do Decreto, não se encontrava no primeiro esquema, apresentado em 1963 ao exame dos Padres Conciliares. Muitos, não obstante, desejavam que ao texto do esquema antepusesse uma introdução ou proêmio, de modo que, desde o princípio, aparecesse com clareza a maneira de ser e o objeto próprio deste Decreto. Assim o fez notar na Aula o Rev. José M. Martin, na sua Relação sobre o Capítulo I.

Pareceu-nos que este proêmio, introduzido no texto revisto, enviado aos Padres por ordem do Cardeal Amleto J. Cicognani, de 27 de Abril de 1964, corresponde ao desejo anterior e contém, na realidade, os Pressupostos Básicos do Decreto. Ocupar-nos-emos deles em seguida.

1 a. O restabelecimento da unidade que se deve promover entre os cristãos, é um dos principais intentos do Sagrado Concílio Ecumênico Vaticano II. Pois, Cristo Senhor fundou uma Igreja uma e única. Contudo, são muitas as Comunhões cristãs que se apresentam aos homens como legítima herança de Jesus Cristo. Todas, na verdade, se confessam discípulas do Senhor, mas têm opiniões diversas e seguem caminhos distintos, como se o próprio Cristo estivesse dividido[5]. Esta divisão, não só contradiz abertamente a vontade de Cristo, mas escandaliza o mundo e prejudica a santíssima causa da pregação do Evangelho a toda criatura.

 

I) Promover o restabelecimento da unidade, objeto do Concílio.

Não é que este fosse o fim único ou principal do Concílio Vaticano II. Mas, sim, um dos principais. É fácil recordar as palavras de João XXIII, quando na sua primeira Encíclica, Ad Petri Cathedram, (29 de Junho de 1959), se dirigia aos Irmãos separados da Sé romana, os exortava à unidade que dizia encontrar-se na Igreja Católica, com unidade de doutrina, regime e culto; e aludia aos frutos que, neste ponto, esperava do Concílio[6]. E entre as comissões que constituiu (5 de Junho de 1960) este mesmo Papa, para preparar o Concílio Vaticano II, assinalava um “Secretariado”ou “Comissão especial” (coetus peculiares). Pretendia, com isso, “mostrar mais o amor do Papa e a sua benevolência, para com aqueles que se honram com o nome de Cristãos, mas que estão separados da Sé Apostólica e para que eles pudessem seguir os trabalhos do Concílio e encontrar mais facilmente, o caminho para a unidade que Jesus pediu a seu Pai, com oração ardente”[7]. Mais tarde, quando convocou o Concílio (25 de Dezembro de 1961), não esqueceu este objetivo: “Quando vemos – dizia – os esforços de muitos que se empenham, com ardor, por conseguir que se restaure entre todos os Cristãos aquela unidade visível, que satisfaça dignamente aos desejos do Divino Salvador, é da máxima oportunidade que o Concílio, que vai celebrar-se, ilustre com abundância esses pontos de doutrina e dê aquelas provas de caridade fraterna, mediante as quais, os cristãos separados desta Sé Apostólica, desejem com maior veemência a unidade e se lhes prepare o caminho para a conseguir”[8].

Paulo VI insistiu nos mesmos e semelhantes pensamentos, no seu discurso de inauguração da segunda fase do Concílio, (29 de Setembro de 1963), apontando esse regresso à unidade, como finalidade que o Concílio tinha em vista[9].

 

II) A  Igreja fundada por Cristo é una e única

Não é o mesmo unidade da Igreja e unicidade da Igreja.

A unidade diz união e não divisão interna; unicidade opõe-se a pluralidade, como se fossem possíveis muitas Igrejas autênticas. A Igreja, fundada por Cristo, é uma na sua constituição interna, e é também única; não podem ser muitas.

A Igreja fundada por Cristo é una, porque deve ter: 1º) uma unidade fundamental de Dogma e de doutrina; 2º) uma unidade fundamental de regime e de governo; 3º) uma unidade fundamental de culto, com o sacrifício e os sacramentos.

Desde o Símbolo de Epifânio[10] que expõe o Símbolo Niceno (a. 325), e desde o Símbolo Niceno-Constantinopolitano[11], se vem repetindo, expressamente, que cremos na Igreja, que é “una, santa, católica e apostólica”.

As comparações com que Cristo descreve a sua Igreja, como Reino e como Corpo, como Rebanho e como Casa, dão a entender que deve ter certa unidade. Porque, “todo o reino, dividido contra si mesmo, perecerá” (Mt. 12, 15); e “todos os membros do corpo, sendo muitos, não formam senão um só corpo e assim é Cristo”(I Cor. 12, 12). O Senhor tem outras ovelhas para trazer e “far-se-á um só rebanho com um só pastor” (Jo. 10, 16); e “toda a Cidade ou Casa, dividida contra si mesma, perecerá” (Mt. 12, 25).

A Igreja de Cristo, a autêntica, deve ter uma unidade fundamental de doutrina, porque deve professar a mesma fé. S. Paulo tem uma frase expressiva a este respeito: há na Igreja “um Senhor, uma fé, um batismo” (Ef. 4, 5). A existência de uma autoridade doutrinal e dogmática, dentro da Igreja (Mt. 28, 18-20; Mc.  16, 15-16; Mt. 16, 18-19; 18-18; Jo. 20, 21) garante esta unidade fundamental da fé.

A unidade de regime e de governo, está também garantida pela instituição divina desta autoridade (Mt. 16, 18-20; 18, 18; Jo. 20, 21).

A unidade de sacrifício e de sacramentos, que deve existir na Igreja, consta, pela instituição divina, do sacrifício da Missa (Luc. 22, 19; I Cor. 11, 24-26) e de cada um dos sete sacramentos, propriamente ditos (Mt. 28, 19; Mc. 16, 16; Act. 8, 17; Mt. 26, 26-28; Mc. 14, 22-24; Jo. 6, 48-59; Jo. 20, 22-23; Tg. 5, 14; Lc. 22, 19; I Cor. 11, 24-26; 2 Tim. 1, 6; I Tim. 4, 14; Ef. 5, 32)[12].

É a Eucaristia, sobretudo, que significa e produz esta unidade[13]. “Assim como este pão separado, estava disperso pelo monte e recolhido se tornou uno, assim se junte a tua Igreja, desde os confins da terra, no teu Reino”[14]. Santo Inácio, Mártir, ponderou a necessidade desta unidade na Igreja: “Todos os que são de Deus e de Jesus Cristo – escrevia aos cristãos de Filadélfia – estão com o bispo; e todos os que, arrependidos, voltarem à unidade da Igreja, serão também de Deus, para que vivam segundo Jesus Cristo. Não erreis, meus irmãos; quem seguir o que faz cisma, não conseguirá herança do reino divino; o que caminha na doutrina alheia, não participa da paixão. Procurai, pois, usar uma só Eucaristia; porque uma é a carne de Nosso Senhor Jesus Cristo, e um o cálice na unidade do seu Sangue; um é o altar; como é um o bispo com o presbitério e os diáconos, meus conservos; para que o que fizerdes, o façais segundo Deus”[15].

“A Esposa de Cristo – escrevia belamente S. Cipriano – não pode ser adúltera; é incorrupta e pudica. Só conhece uma casa; guarda com casto pudor a santidade de um só aposento. Esta Esposa conserva-nos para Deus. Ela destina ao reino os filhos que gerou. Quem está separado da Igreja, junta-se com uma adúltera, separa-se das promessas da Igreja; aquele que abandona a Igreja, não alcançará os prêmios de Cristo. É estranho, profano, inimigo. Não pode ter a Deus por Pai, o que não tem a Igreja por Mãe. Se alguém pôde escapar fora da Arca de Noé, escapará também o que estiver fora da Igreja... O que não guarda esta unidade da Igreja, não guarda a lei de Deus; não tem a fé do Pai e do Filho, não tem a vida e a salvação”[16]. São palavras que indicam a necessidade da unidade na Igreja e o apreço que por ela tinham os Santos Padres.

Quem recorde as palavras com que Cristo pediu, em ocasião solene, depois da Ceia, a suprema unidade para a Igreja, (Jo. 17, 1-26) não poderá deixar de lhe atribuir esta unidade, porque a oração de Cristo, não pôde carecer de eficácia.

A Igreja fundada por Cristo, é única. Esta Igreja, se quer atribuir-se o ter sido fundada por Cristo, deve corresponder aos caracteres que Cristo quis que ela tivesse. Como Cristo quis um regime de governo único para a sua Igreja (Mt. 16, 18-19; 18,18; 28, 18-20) e quis uma doutrina única (Mt. 28, 18-20), não pode ser senão uma só a Igreja de Cristo.

Se a Igreja de Cristo, segundo professamos no Símbolo Niceno-Constantinopolitano, deve reunir as notas de unidade, catolicidade e apostolicidade, não é senão uma só a Igreja que reúne estas propriedades.

Mas a realidade, mostra-nos, pelo contrário, que muitas igrejas se dizem autênticas igrejas cristãs e herança, legítima, de Cristo. Declaram-se discípulas de Cristo, indo, porém, por caminhos diversos. Estará Cristo dividido? (I Cor. 1, 13)[17].

 

III) O desejo de Cristo sobre a unidade

Esta divisão é contra o desejo de Cristo. S. João Evangelista significou-o, claramente, na oração sacerdotal do Mestre, no momento supremo da sua vida. “Não peço só pelos Apóstolos – disse – mas também por aqueles que hão de crer em mim por meio da sua palavra. Para que todos sejam um, como Tu, Pai, o és em mim e eu em Ti, para que sejam um em nós, a fim de que o mundo creia que Tu me enviaste. Eu comuniquei-lhes a luz que Tu me deste, para que sejam um, como nós somos um. Eu neles e Tu em mim, a fim de que Tu me enviaste, e os amaste, como me amaste a mim...” (Jo. 17, 1-23).

Este desejo veemente de unidade, não pode referir-se, unicamente, a uma unidade mística e interna dos espíritos, por exemplo, mediante a graça santificante e a caridade interna do Espírito Santo. Sem dúvida, que também se procura esta unidade. Mas não basta. A unidade que Cristo deseja e pede tem de ser além disso, externa e aparecer diante dos homens. Pois, tem de ser um sinal para eles. Um sinal de que Deus enviou Cristo.

S. Paulo abunda nos mesmos desejos de unidade. Quando os cristãos de Corinto andavam com questiúnculas de partido: “Eu sou de Paulo”, “eu de Apolo...” (1 Cor. 3, 4-6), dizia-lhes que caminhavam “segundo o homem” e eram ainda “carnais”, não caminhavam “segundo o Espírito”, porque havia ciúmes e contendas entre eles (v. 2-3). Quanto mais, se há divergências fundamentais de doutrina e ausência de concórdia!

S. Paulo exortava os cristãos a serem do mesmo parecer, no que fosse possível: “A Evódia e a Síntique exorto-as a que sintam o mesmo no Senhor” (Filip. 4, 2). E, aos Romanos, escrevia o que deve ser o desejo de todo o coração, autenticamente cristão: “Que o Deus da paciência e da consolação vos dê um sentir unânime, em Cristo Jesus, para que, unânimes e a uma só vós, glorifiquemos a Deus, Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo” (Rom. 15, 5-6).

Prisioneiro em Roma, insistiu, com uma página maravilhosa, para que os cristãos tivessem a solicitude de guardar a unidade do espírito, com o vínculo da paz. “Rogo-vos – escreveu aos  Efésios – eu, prisioneiro do Senhor, que caminheis dignamente na vocação a que fostes chamados”. De que maneira? “Com toda a humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos mutuamente na caridade, solícitos em guardar a unidade do espírito,com o vínculo da paz”(Ef. 4, 1-3).

Quais os motivos desta unidade? Descreve-os assim S. Paulo: “Um Corpo e um só Espírito, assim como fostes chamados numa só esperança da vossa vocação. Um é o Senhor (Jesus Cristo), uma é a fé, um só o batismo. Um é Deus e o Pai de todos, que está sobre todos e em todas as coisas, e em todos nós” (Ef. 4, 4-6). Jesus Cristo distribuiu os seus dons entre os fiéis, para a edificação de um só Corpo. Trata-se de chegarmos todos “a uma unidade de fé e de reconhecimento do Filho de Deus, até ao homem perfeito, segundo a medida da plenitude de Cristo” (Ef. 4, 13).

Esta é a unidade que Cristo e os Apóstolos desejaram. E contudo...

Aqui está o escândalo para o mundo. Quando os cristãos vão para as missões e começam a pregar Cristo, facilmente podem ouvir “Ponde-vos primeiro de acordo, entre vós, e vinde depois...”. Esta é a grande dificuldade para a pregação do Evangelho.

E mais ainda. Pois, as energias que se gastam, em combater ou desautorizar as outras confissões cristãs, podiam empregar-se em pregar, diretamente, aos que não conhecem a Cristo, “para que a Tua palavra, Senhor, se propague e seja clarificada e todos os homens Te conheçam, único Deus verdadeiro e Aquele que enviaste, Jesus Cristo[18].

 

IV) A realidade do movimento ecumênico (nº I b)

I b.O Senhor dos tempos, porém, que sábia e pacientemente prossegue o desígnio de sua graça, para conosco, pecadores, começou nos nossos dias a infundir com maior abundância, nos cristãos separados entre si, o arrependimento interior e o desejo de união. Muitíssimos homens, por toda a parte, sentiram o impulso desta graça. Também entre nossos irmãos separados, surgiu por graça do Espírito Santo, um movimento, cada vez maior, para o restabelecimento da unidade de todos os cristãos. Participam neste movimento de unidade, chamado ecumênico, os que invocam o Deus Trino e confessam a Jesus Cristo como Senhor e Salvador, não cada um como particular, mas também reunidos em comunidades em que ouviram o Evangelho e a que cada um chama sua Igreja e de Deus. Quase todos, porém, ainda que de modo diverso, aspiram à Igreja de Deus una e visível, que seja verdadeiramente universal e enviada a todo o mundo, para que esse se converta ao Evangelho e deste modo se salve, para a glória de Deus.

 

É um movimento que vem de Deus. Di-lo o texto do Decreto. Porque os sentimentos que Deus começou a infundir, com maior abundância, são efeitos salutares da graça. São o espírito de penitência, o arrependimento pelas culpas que deram lugar à separação e o desejo de união, segundo a vontade de Jesus Cristo. Tanto a penitência, como desejo de caridade e união, procedem da graça, procedem de Deus.

Sobre este espírito de penitência, citamos as palavras de Paulo VI, ao inaugurar a segunda fase do Concílio Vaticano II: “Se temos alguma culpa, nesta separação, pedimos perdão, se crêem que foram por nós ofendidos. Pela nossa parte, estamos dispostos a perdoar as ofensas feitas à Igreja Católica e a deixar a tristeza, com que é infligida, por causa de tão longas dissensões e separações[19].

Nas sessões conciliares, tinha sido sugerido, por diversos Padres, um pedido expresso de perdão.

Foi o desejo da união que iniciou e continuou o chamado movimento ecumênico.

São conhecidas as fases deste movimento. Para nos limitarmos às principais etapas, que marcaram na ação ecumênica, é do conhecimento de todos, que, antes da primeira guerra européia de 1914, se tinham realizado, em Malinas, conversações entre o Primaz da Bélgica, Cardeal Mercier, lord Halifax e P. Portal.

É do ano de 1925, a primeira conferência ecumênica, de outro movimento não-católico, “Fé e Constituição” (Faith and Order).

Se Pio XI tinha trabalhado nos preparativos remotos da união, promovendo o estudo das questões orientais e com a fundação do Pontifício Instituto Oriental de Roma, mais tarde e antes de 1939, faz sentir-se, em França, a ação do P. Paul Couturier, com o impulso crescente do oitavário de orações pela unidade. O mosteiro belga de Chevetogne, habitado algum tempo por jesuítas espanhóis, desterrados de Espanha, constitui-se centro de estudo e orações, consagrado a procurar a unidade com os ortodoxos do Oriente. Instina, é o nome dum centro e de uma revista, beneméritos de causa pela união.

Data de 1948, o “Conselho Ecumênico das Igrejas”, na sua assembléia constitutiva de Amstardão. Reunia em si grande número de Igrejas protestantes, algumas ortodoxas, somando a representação de umas 150 Igrejas.

A Igreja Católica, por sua vez, determina pouco depois, (20 de Dezembro de 1949) as condições requeridas aos católicos, para participar no movimento, mediante a Instrução do Santo Ofício, De Motione Oecumenica[20].

Em 1954, realiza-se a segunda Assembléia do “Conselho Ecumênico das Igrejas”, desta vez, em Evanston, (Estados Unidos da América).

A 28 de Outubro de 1958, é eleito Papa João XXIII, que há-de promover este movimento da parte católica, impulsionando-o e propondo-o como um dos fins do Concílio Vaticano II. João XXIII recebe, pela primeira vez, em audiência privada, depois de tantos anos de separação, o Primaz da Igreja Anglicana, Dr. Fisher. Receberá também outros chefes de Igrejas separadas e manterá relações cordiais com o Patriarca ecumênico Atenágoras. Em 1960, funda o “Secretariado para a união dos cristãos”, à frente do qual coloca o recém-nomeado Cardeal Agostinho Bea.

São conhecidas as viagens e conferências, sem número, realizadas por este Purpurado, em ordem a difundir um desejo de paz, uma expressão de estima e de reconhecimento da boa fé que anima a muitos “irmãos separados” e a preparar os caminhos, com o diálogo e a benevolência mútua, entre os cristãos de todas as confissões.

Em Nova Delhi, realiza-se, em 1961, a terceira Assembleia do “Conselho Ecumênico das Igrejas”. Assistiam representantes de mais de 160 confissões. Ingressaram então, no Conselho, a representação do Patriarcado de Moscovo e algumas Igrejas missionárias. Os desejos de unidade visível, entre todas as Igrejas cristãs, tornando-se mais patentes.

É de 1963, a Assembléia teológica do Conselho Ecumênico. Celebrou-se em Montreal, no Canadá.

Entretanto, o Concílio Vaticano II admite, desde a sua primeira fase, (1962) como “observadores” ou “hóspedes” representantes de outras Igrejas não-Católicas. Estes “observadores” ocupam um lugar à parte, dentro da Aula Conciliar, assistem às Congregações Gerais e recebem os comunicados e textos correspondentes aos esquemas que se discutem. O esquema, “Sobre a Unidade dos Cristãos” ou Sobre as Igrejas Orientais, é discutido nesta primeira Sessão. Na segunda Sessão, (1963) discute-se o esquema “De Oecumenismo”, que é votado durante a terceira fase (1964).

Um fato singular, teve lugar entre a segunda e a terceira Sessão, nos primeiros dias de Janeiro, de 1964, um fato de importância histórica incalculável, o encontro e abraço fraterno, em Jerusalém, entre o peregrino Paulo VI e o Patriarca Atenágoras. O mundo inteiro, católicos e não-católicos, vibraram de emoção à vista e ao recordar este fato insólito. Que preparará Deus para o futuro?

O Conselho Mundial das Igrejas viu aumentar, ultimamente, a sua representação – diz-se – para 214 membros de confissões protestantes, anglicanos e ortodoxos gregos, pertencentes a mais de 80 países. Tinha-se proposto, em Janeiro de 1965, a criação duma comissão conjunta, católico-protestante, para discutir sobre a unidade dos cristãos. Como declarou o Cardeal Bea, num discurso pronunciado em Genebra, em Fevereiro de 1965, “a Santa Sé recebia, com alegria, e aceitava a proposta feita pelo Comitê Central do Conselho Mundial das Igrejas”. Esta comissão será composta por oito protestantes e seis católicos. O Secretário geral do Conselho Mundial, declarou que esta decisão da Santa Sé, era “um fato histórico, de enorme importância”.

Os trabalhos da comissão constituirão em estudar:

a) A colaboração efetiva, em matéria de filantropia, assuntos sociais e internacionais;  b) os problemas que causam roces entre as diversas Igrejas, tais como matrimônios mistos, liberdade religiosa e proselitismos; c) estudos teológicos que se relacionam com os problemas ecumênicos, de fé e ordem; d) assuntos comuns, referentes à vida e missão da Igreja (laicado, missões, etc.).

Ecumenismo diz respeito aos cristãos. O movimento ecumênico, não é a tendência à unidade entre todas as religiões. Refere-se, unicamente, às confissões cristãs. Fez-se notar isto, por diversas vezes, na Aula Conciliar. Daí, ter-se podido separar deste Decreto do ecumenismo, a Declaração sobre a liberdade religiosa, que, ao princípio, se tinha concebido como o capítulo IV do Decreto; e a Declaração sobre os judeus e outras religiões não-cristãos, que também se tinha juntado a este esquema. Se a liberdade religiosa parecia, a alguns um pressuposto para o legítimo progresso do ecumenismo, na realidade, a liberdade religiosa tem uma amplitude maior e mais geral. A declaração sobre os judeus e as outras religiões não-cristãs, por sua mesma natureza, ultrapassa os limites do ecumenismo.

O Secretariado para a união das Igrejas, começado – como dissemos – pela iniciativa e sob os auspícios de João XXIII, tem por objeto, tudo o que respeita à união dos cristãos: orientais ortodoxos, anglicanos e protestantes das diferentes tendências. E este é o seu principal objetivo. A constituição, posterior, de outro Secretariado, para as relações com as religiões não-cristãs, no tempo de Paulo VI, presidido pelo Cardeal Marella, tomará em conta as outras iniciativas que dizem respeito à paz e melhores relações com as outras religiões, diversas da cristã.

Existem já certos laços comuns de unidade ou denominador comum, entre as religiões que professam, além da fé num Deus pessoal, a possibilidade e realidade de uma mensagem divina, por meio da revelação.

Em tais religiões, é possível a fé, pela autoridade de Deus que se revela. Esta fé, se é sobrenatural, pode ser um princípio de salvação para os seguidores destas religiões, que vivam segundo a sua consciência. Tais são as religiões cristãs, judia, maometana e se há alguma mais que conserve traços da revelação primitiva. Porém, estes laços de unidade, são evidentemente mais intrínsecos e apertados, entre as confissões cristãs.

Quem participa no movimento ecumênico. Ainda dentro dos que se chamam cristãos, cabem posições extremas e limítrofes, em que é difícil discernir, se conservam o que é específico do Cristianismo. Por isso, o movimento ecumênico entre os cristãos, não pode consistir em agrupar os que, só de nome, sejam cristãos. É preciso ver, se, na realidade, há uma razão objetiva que corresponda ao seu nome. Daí, o empenho deste Decreto, em assinalar desde o princípio, as condições que se requerem para se poder integrar no movimento ecumênico. Não é, portanto pouco nem de pouca importância, o que une, mesmo visivelmente, os cristãos. As condições são as seguintes:

Invocar a Deus Trino. Não é pouco este reconhecimento da Santíssima Trindade em Deus. Está na fórmula mesma do batismo. O batizado foi consagrado e dedicado à Santíssima Trindade, se atendemos ao sentido das palavras batismais, que aparece, mais claramente no texto grego, Mt. 28, 19: “Batizando-os para o nome (isto é, para a majestade, para a glória...) do Pai e do Filho e do Espírito Santo”. O batismo é uma invocação à Trindade e uma dedicação a Ela.

Confessar a Jesus como Senhor e Salvador. Não existe outro nome, em que possamos ser salvos, como inclui esta profissão de fé. Pois, é um rito de iniciação para alistar na religião de Cristo; é aderir – diríamos – ao partido de Cristo; é unir-se a Cristo e declarar-se.

Seguidor de Cristo. É manifestar-se súdito de Cristo e filho da sua Esposa, a Santa Igreja.

3oTambém na assembleia da sua Igreja. Para participar no movimento ecumênico, não se trata somente de invocar a Deus trino, privadamente, ou de reconhecer, privadamente, a Jesus Cristo Salvador e Senhor. Entende-se a Jesus Cristo Salvador e Senhor. Entende-se que este movimento, não consta só de indivíduos particulares, mas também de igrejas e sociedades. Há uma sociedade eclesial e congregação de muitos nas assembleias ou reuniões, onde ouvem o Evangelho e na qual nasceram para o Cristianismo.

4o. Aspiram quase todos a uma Igreja universal visível. Não nos referimos, agora, aos vínculos internos e secretos que unem uns cristãos aos outros, como seria a fé interna, em Cristo, e a graça santificante. Certamente, tudo isto une muito intrinsecamente e faria encontrar em Cristo, uns cristãos com outros. Contudo, o contentar-se só com uma unidade invisível, para formar a verdadeira Igreja de Cristo, vai perdendo terreno entre os defensores, antigos e modernos, desta invisibilidade da Igreja, no campo protestante. Vemos, com satisfação, que entre eles se aspira também a uma unidade visível entre os cristãos. E com razão. Porque, se o mundo tem de reconhecer na unidade dos cristãos, um sinal de vinda autêntica e da missão de Cristo, segundo o desejo que Ele manifestou na sua oração sacerdotal (Jo. 17, 20-21).

Foi no Congresso do Conselho Ecumênico das Igrejas, celebrado em Nova Delhi (1961), a que assistiram representantes de mais de 160 confissões, onde se manifestaram, com mais relevo, estes anseios de unidade visível. Uma das conclusões apresentadas, formulava assim este desejo: A unidade da Igreja, torna-se manifesta, quando todos os batizados em Jesus cristo a quem confessam por seu Senhor e Salvador, são conduzidos pelo Espírito Santo, a formar uma comunidade total, professam a mesma fé apostólica, pregam o mesmo Evangelho, participam do mesmo pão, se unem numa oração comum..., se encontram em comunhão com o conjunto da comunidade cristã, em todo o lugar e em todo o tempo”

Não resta dúvida de que, neste ideal provisório de unidade visível dos cristãos, se encerram muitos elementos que não podem deixar de alegrar os católicos, porque supõem uma aproximação do ideal de unidade formulado pela Teologia católica. O programa de unidade, proclamado em Nova Delhi, não se identifica ainda com o católico; mas os católicos vêem com satisfação, como se insiste na unidade visível, para já, e como se apontam elementos aptos para unir. Conviria insistir segundo o pensamento de João XXIII e segundo o pensamento ecumênico de hoje – no que une, mais do que naquilo que divide.

 

V) A cooperação católica no ecumenismo (nº I c) 

1 c. Esse Sagrado Concílio considera, pois, de bom grado, estas coisas, depois de ter exposto já a doutrina sobre a Igreja. Levado pelo desejo de restaurar a unidade entre todos os discípulos de Cristo, deseja propor a todos os Católicos os auxílios, os métodos e modos pelos quais possam corresponder a esta divina vocação da graça.

 

O Concílio tem consciência desta missão ecumênica dos tempos. Promulgou já a Constituição dogmática De Ecclesia e deu assim a conhecer qual deve ser a face da verdadeira Igreja. Agora, atento aos sinais dos tempos e à moção ecumênica que o Espírito suscitou, quer propor aos católicos os princípios de um ecumenismo são (capítulo I) e os meios para se chegar a restabelecer a união entre todos os cristãos (capítulo II); quer dizer, como católico deve cooperar nesta tendência para a unidade.

O Decreto do Ecumenismo, assim como o Decreto sobre as Igrejas orientais, pode ser tido como uma sequencia lógica e oportuna, da Constituição sobre a Igreja.

No Proêmio, tivemos oportunidade de ver os pressupostos em que se baseia este Decreto e as linhas por que se orienta.

 



* O Pe. José Sánchez somente é autor da primeira parte do capítulo terceiro, o qual trata das Igrejas Orientais.

[1] Veja-se o nosso Comentário a la Constitución litúrgica del Vaticano II, Madrid, 1996; pp. 25-26.

[2]“...sacro approbante Concilio”. MANSI, SS. Concil. 52, 1330.

[3] Seguimos o texto oficial, publicado na Acta ApostolicaeSedis (AAS) 57 (1965) 107. Todo o Decreto do Ecumenismo, Ibid., pp. 90-112.

[4] Cfr. V. gr., M. NICOLAU, S. J. Problemas del Concilio Vaticano II, Madrid, 1963, c. I, pp. 31-38, onde é tratado mais amplamente.

[5] Cfr. I Cor. I, 13.

[6] AAS 51 (1959) 510-517.

[7] Motu próprio Superno Dei nutu, AAS, 52 (1960) 436

[8] Constituição Apostólica Humanae Salutis, AAS 54 (1962) 9.

[9] AAS 55 (1963) 852-854.

[10] DENZINGER, Enchiridion Symbolorum, nº 14.

[11] DENZINGER, Enchiridion Symbolorum, nº 84.

[12] Sobre a unidade da Igreja, cfr. JOÃO XXIII, Ad Petri Cathedram, AAS 51 (1959) 510-517; e a alocução em S. Pedro, depois da solene liturgia bizantino-eslava, a 13 de Novembro de 1960, AAS 52 (1960) 960-961.

[13] Cfr. J SALAVERRI, La Eucaristia, sacramento de unión, Estudios Eclesiásticos 26 (1952) 453-465.

[14] Didache, 5, 4; FUNK, Patres Apostolici, I, 20.

[15] Ad Philadelf. 3, 2-4; FUNK, Patres Apostolici, I, 266; MG 5, 700.

[16] De catholicae ecclesiae unitate 6; CSEL 3, I, 214; ML, 4, 502.

[17] Pode ver-se, por exemplo, PRUDÊNCIO DAMBORIENA, Fe católica e Iglesias y sectas de la Reforma, Madrid 1961, onde se faz uma exposição de muitas confissões protestantes.

[18] Oração da missa votiva da propagação da Fé.

[19] AAS 55 (1963) 853.

[20] AAS 42 (1950) 142-147.

 

FONTE


DECRETO DO ECUMENISMO DO CONCÍLIO VATICANO II - Texto e comentário teológico e pastoral. Livraria Apostolado da Imprensa, 1966.

 

PARA CITAR


NICOLAU, Pe. Miguel. Comentário teológico e pastoral ao Decreto sobre o Ecumenismo (parte 1) - Disponível em: <http://www.apologistascatolicos.com.br/index.php/concilio-vaticano-ii/ecumenismo/708-comentario-teologico-e-pastoral-sobre-o-decreto-do-ecumenismo-parte-1>. Desde: 22/07/2014.

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